Gordura no fígado (esteatose hepática): sintomas, causas, exames e tratamento

O essencial
Gordura no fígado (esteatose hepática), hoje chamada MASLD, é o excesso de gordura no fígado, em geral com sobrepeso, diabetes tipo 2 ou triglicerídeos altos. Atinge cerca de 44% dos adultos na América Latina e quase nunca dá sintomas. O que importa é a cicatriz (fibrose), estimada pelo FIB-4 e às vezes pela elastografia. Perder peso pode reverter o quadro.
O que é gordura no fígado?
O fígado é chamado de "gorduroso" (esteatótico) quando a gordura ocupa pelo menos 5% das suas células[3][13]. Em 2023, a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA ou NAFLD) passou a se chamar MASLD, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica. A forma inflamada, a NASH, virou MASH[1].
| Tema | O que saber |
|---|---|
| Outros nomes | Esteatose hepática, fígado gorduroso, DHGNA ou NAFLD (antigos) |
| Frequência | Cerca de 30% dos adultos no mundo e 44,4% na América Latina[4]; nos Estados Unidos, perto de 10% das crianças de 2 a 19 anos[11] |
| Estágios | Só gordura (esteatose), depois inflamação (MASH), fibrose, cirrose e, às vezes, câncer de fígado[2] |
| Principais exames | TGP, TGO, gama GT, plaquetas, índice FIB-4, ultrassom, elastografia |
Quais são os sintomas de gordura no fígado?
A MASLD costuma ser silenciosa, mesmo na fase de cirrose[12]; costuma ser achado de ultrassom ou exame de sangue[13].
- Frequente Nenhum sintoma.
- Possível Cansaço ou desconforto embaixo das costelas do lado direito[12].
- Raro Sinais de cirrose avançada: pele ou olhos amarelados, barriga ou pernas inchadas, vômito com sangue, confusão mental.
Quando procurar atendimento?
Quando procurar atendimento
- Emergência: ligue 192 (SAMU) se vomitar sangue ou tiver fezes pretas, ficar confuso ou muito sonolento, ou a barriga inchar rápido.
- Em 24 a 48 horas se a pele ou os olhos ficarem amarelados, ou se tiver febre com dor embaixo das costelas do lado direito.
- Na próxima consulta se o ultrassom falar em "esteatose", a TGP ou a TGO vier alta, ou se você tem diabetes tipo 2 ou obesidade e nunca avaliou o fígado.
O que causa gordura no fígado e quem corre mais risco?
Com excesso de calorias e resistência à insulina, o fígado guarda o excesso como gordura[3]. Para ser MASLD, a gordura precisa vir com pelo menos um de cinco fatores de risco cardiometabólico[1]:
- Sobrepeso (IMC de 25 ou mais; 23 em asiáticos) ou cintura aumentada.
- Açúcar alto no sangue: pré-diabetes, diabetes tipo 2 ou hemoglobina glicada elevada.
- Pressão alta.
- Triglicerídeos altos.
- HDL (o colesterol "bom") baixo (cada fator conta também se tratado).
O diabetes tipo 2 é o fator de risco mais forte[3]. A MASLD atinge até 75% das pessoas com sobrepeso e de um terço a dois terços das com diabetes tipo 2[11]. Mulheres com síndrome dos ovários policísticos têm 2 a 4 vezes mais[3]. A genética pesa: o risco é maior com ascendência hispânica ou oriental[3][13].
Álcool: com um fator de risco metabólico, beber 20 a 50 g de álcool por dia (mulheres) ou 30 a 60 g (homens) é MetALD; acima disso, doença hepática alcoólica[1]. Alguns remédios (como corticoides, amiodarona ou tamoxifeno) e a perda de peso rápida também podem causar esteatose[12][13].
Como é feito o diagnóstico e o que mostram os exames?
O ultrassom mostra a gordura, mas deixa passar casos leves[3]. O laudo fala em grau 1 (leve), 2 (moderado) ou 3 (acúmulo grande)[13]: o grau mede a gordura, não a cicatriz. Os exames de sangue afastam outras causas e estimam o risco de fibrose.
- TGP (ALT) e TGO (AST): muitas vezes um pouco altas, mas valores normais não descartam a MASLD. Os limites dos laboratórios são altos: uma TGP de fato saudável fica entre 29 e 33 U/L nos homens e entre 19 e 25 U/L nas mulheres[3].
- Gama GT: também sobe com frequência, inclusive com álcool: é lida com o seu consumo de bebida.
- Plaquetas: uma queda pode indicar fibrose avançada; por isso entram no FIB-4[3].
- Exames metabólicos: glicemia, hemoglobina glicada e lipidograma[3].
- Outras causas: hepatites B e C, ferritina e ferro[3].
Veja também as enzimas do fígado alteradas e TGO e TGP altos.
| Exame | Resultado | Valores de referência | Indicação |
|---|---|---|---|
| TGP (ALT) | 58 U/L | até 41 U/L | ↑ |
| TGO (AST) | 41 U/L | até 40 U/L | ↑ |
| Gama GT | 72 U/L | até 60 U/L | ↑ |
| Plaquetas | 210.000 /mm³ | 150.000 a 450.000 /mm³ | |
| Hemoglobina glicada (HbA1c) | 6,1% | inferior a 5,7% | ↑ |
| Triglicerídeos | 212 mg/dL | desejável: inferior a 150 mg/dL | ↑ |
- TGP, TGO e gama GT ↑: uma alta leve, típica da gordura no fígado.
- Hemoglobina glicada 6,1% e triglicerídeos 212 mg/dL: pré-diabetes e gordura alta no sangue, dois dos cinco fatores que definem a MASLD[1]. Valem os valores de referência do seu laboratório.
Esteatose no ultrassom e setas para cima no exame de sangue? A BloodSense explica cada linha do seu laudo, das transaminases ao lipidograma, e mostra o que perguntar ao médico.
Quero meus exames explicadosO índice FIB-4: o número que importa
O FIB-4 combina idade, TGO, TGP e plaquetas: idade × TGO ÷ (plaquetas × √TGP), com as plaquetas em milhares por mm³[5]. É o primeiro exame recomendado pelas diretrizes americanas e europeias[2][3]:
| FIB-4 | Risco de fibrose avançada | Próximo passo habitual |
|---|---|---|
| Abaixo de 1,3 | Baixo | Acompanhamento com o clínico geral[3] |
| De 1,3 a 2,67 | Intermediário | Elastografia hepática ou exame de sangue ELF[3] |
| Acima de 2,67 | Alto | Encaminhamento ao hepatologista[3] |
No exemplo acima, FIB-4 = 54 × 41 ÷ (210 × √58) ≈ 1,4: intermediário; o próximo passo é a elastografia.
Elastografia hepática e biópsia
A elastografia transitória (FibroScan) mede a rigidez do fígado em poucos minutos, com uma sonda sobre a pele[13]. Abaixo de 8 kPa, a fibrose avançada é improvável; acima de 12 kPa, é provável[3]. A biópsia fica para os casos de dúvida[2].
Como é o acompanhamento da gordura no fígado?
- Risco baixo: repetir o FIB-4 a cada 1 a 2 anos com diabetes tipo 2, pré-diabetes ou dois ou mais fatores de risco metabólico; subir de faixa indica progressão[3].
- Coração e metabolismo: glicada, lipidograma e pressão. As doenças do coração são a principal causa de morte na MASLD[11].
- Cirrose: ultrassom regular para vigiar o câncer de fígado e as complicações, como explica o nosso guia de cirrose[2].
Gordura no fígado tem tratamento?
Nenhuma dose é indicada aqui.
- Perda de peso, o tratamento principal: 3 a 5% a menos reduz a gordura do fígado; mais de 10% costuma ser preciso para melhorar a MASH e a fibrose[3]. Num estudo, perder 10% ou mais fez a MASH desaparecer em 90% das pessoas[6].
- Tratar os fatores de risco: diabetes, pressão e colesterol. As estatinas são seguras[3]. Remédios GLP-1, como semaglutida ou tirzepatida, podem ser usados no diabetes ou na obesidade[2].
- Resmetiroma (Rezdiffra): comprimido aprovado nos Estados Unidos (FDA) em março de 2024 para adultos com MASH e fibrose moderada a avançada, sem cirrose, com dieta e exercício[9]. No estudo principal, a MASH desapareceu em 26 a 30% dos tratados, contra 10% com placebo[7].
- Semaglutida (Wegovy): aprovada pela FDA em agosto de 2025 para o mesmo grupo[10]; no Brasil, a bula aprovada pela Anvisa também traz essa indicação[14]. No estudo, a MASH desapareceu em 63% dos tratados, contra 34% com placebo[8].
As aprovações americanas são "aceleradas", baseadas em biópsias; o benefício a longo prazo ainda está em confirmação[9][10]. Na cirrose, nenhum remédio específico para MASH é recomendado[2].
Dá para prevenir ou reverter a gordura no fígado?
- Perca peso aos poucos; qualquer dieta com menos calorias serve, e a mediterrânea é a mais indicada[3].
- Corte refrigerantes e sucos adoçados: o excesso de frutose aumenta o risco de esteatose e fibrose[3].
- Movimente-se pelo menos 150 minutos por semana; o exercício ajuda mesmo sem perda de peso[3].
- Reduza o álcool: o dano dele se soma ao risco metabólico[3].
- Café, 3 xícaras ou mais por dia, está ligado a menos fibrose nos estudos[3].
Perguntas para fazer ao seu médico
- Qual é o meu FIB-4, e preciso de uma elastografia?
- É MASLD, MetALD ou outra doença do fígado?
- Quanto peso devo perder, e em quanto tempo?
- Quais exames vamos repetir, e quando?
Perguntas frequentes
Gordura no fígado é perigosa?
Em geral, não. O risco está na fibrose, que o FIB-4 e a elastografia medem[3].
Por que a DHGNA (NAFLD) passou a se chamar MASLD?
O nome antigo dizia o que a doença não era e soava estigmatizante; MASLD nomeia a causa, a disfunção metabólica[1].
Gordura no fígado tem cura? Em quanto tempo?
A gordura do fígado cai em meses. No principal estudo, a MASH e a fibrose melhoraram após um ano de perda de peso mantida[6].
Pessoas magras podem ter gordura no fígado?
Sim, sobretudo pessoas de origem hispânica ou asiática, em parte pela genética[3].
Artigos relacionados
- Enzimas do fígado alteradasComo ler TGO, TGP, fosfatase alcalina e gama GT juntas
- TGO e TGP altosCausas e próximos exames
- Exame de gama GTA enzima do fígado mais sensível, e seus limites
- TriglicerídeosA gordura do sangue mais ligada à esteatose
- CirroseO que acontece quando a cicatriz fica avançada
- Rinella ME, Lazarus JV, Ratziu V, et al. A multisociety Delphi consensus statement on new fatty liver disease nomenclature. J Hepatol. 2023;79(6):1542-1556. doi:10.1016/j.jhep.2023.06.003 (acesso em 8 de novembro de 2026)
- EASL, EASD, EASO. EASL-EASD-EASO Clinical Practice Guidelines on the management of metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease (MASLD). J Hepatol. 2024;81(3):492-542. doi:10.1016/j.jhep.2024.04.031 (acesso em 8 de novembro de 2026)
- Rinella ME, Neuschwander-Tetri BA, Siddiqui MS, et al. AASLD Practice Guidance on the clinical assessment and management of nonalcoholic fatty liver disease. Hepatology. 2023;77(5):1797-1835. doi:10.1097/HEP.0000000000000323. PubMed Central (acesso em 8 de novembro de 2026)
- Younossi ZM, Golabi P, Paik JM, et al. The global epidemiology of nonalcoholic fatty liver disease (NAFLD) and nonalcoholic steatohepatitis (NASH): a systematic review. Hepatology. 2023;77(4):1335-1347. doi:10.1097/HEP.0000000000000004 (acesso em 8 de novembro de 2026)
- Sterling RK, Lissen E, Clumeck N, et al. Development of a simple noninvasive index to predict significant fibrosis in patients with HIV/HCV coinfection. Hepatology. 2006;43(6):1317-1325. doi:10.1002/hep.21178 (acesso em 8 de novembro de 2026)
- Vilar-Gomez E, Martinez-Perez Y, Calzadilla-Bertot L, et al. Weight loss through lifestyle modification significantly reduces features of nonalcoholic steatohepatitis. Gastroenterology. 2015;149(2):367-378. doi:10.1053/j.gastro.2015.04.005 (acesso em 8 de novembro de 2026)
- Harrison SA, Bedossa P, Guy CD, et al. A phase 3, randomized, controlled trial of resmetirom in NASH with liver fibrosis. N Engl J Med. 2024;390(6):497-509. doi:10.1056/NEJMoa2309000 (acesso em 8 de novembro de 2026)
- Sanyal AJ, Newsome PN, Kliers I, et al. Phase 3 trial of semaglutide in metabolic dysfunction-associated steatohepatitis. N Engl J Med. 2025;392(21):2089-2099. doi:10.1056/NEJMoa2413258 (acesso em 8 de novembro de 2026)
- US Food and Drug Administration. FDA approves first treatment for patients with liver scarring due to fatty liver disease. 14 de março de 2024. fda.gov (acesso em 8 de novembro de 2026)
- US Food and Drug Administration. FDA approves treatment for serious liver disease known as "MASH". 15 de agosto de 2025. fda.gov (acesso em 8 de novembro de 2026)
- NIDDK. Definition & facts of NAFLD & NASH. National Institutes of Health. niddk.nih.gov (acesso em 8 de novembro de 2026)
- NIDDK. Symptoms & causes of NAFLD & NASH. National Institutes of Health. niddk.nih.gov (acesso em 8 de novembro de 2026)
- Ministério da Saúde. Esteatose hepática. Saúde de A a Z. gov.br (acesso em 8 de novembro de 2026)
- Novo Nordisk. Wegovy® (semaglutida): bula para o paciente, aprovada pela Anvisa em 4 de maio de 2026. novonordisk.com.br (acesso em 8 de novembro de 2026)
Esta página traz informações gerais e não substitui a orientação de um médico; exames de sangue sozinhos não confirmam nem descartam a gordura no fígado ou a fibrose.



