O exame de TGO mede a aspartato aminotransferase (AST), uma enzima que vaza para o sangue quando certas células são lesadas. A maioria dos laudos imprime a TGO ao lado da TGP, no bloco do fígado, e por isso um número alto costuma soar como má notícia sobre o fígado. Raramente é tão simples. A TGO também vive nos músculos, no coração, nos rins e nas hemácias, então um treino pesado ou uma pancada no músculo podem subi-la sem nenhum problema no fígado. Neste artigo você vai entender o que é essa enzima, quais são os valores de referência para homens e mulheres, como a relação TGO/TGP muda o significado do resultado, quais situações do dia a dia criam falsos alarmes e quando um número um pouco alto pede um novo exame, e não um susto.

O que o exame de TGO mede de fato

TGO é a sigla de transaminase glutâmico-oxalacética, o nome tradicional da aspartato aminotransferase, que muitos laudos também chamam de AST. É uma enzima, ou seja, uma proteína que acelera uma reação química. A função da TGO é transferir um grupo químico entre duas moléculas para que as células fabriquem e reciclem aminoácidos, as peças que formam as proteínas. Essa reação faz parte do metabolismo de todo dia, e por isso a enzima fica guardada dentro das células, e não solta no sangue.

Células saudáveis mantêm a TGO lá dentro. Quando uma célula é lesada ou morre, a membrana vaza e a enzima cai na circulação. O exame simplesmente conta quanto vazou. Essa é toda a lógica da medida: é um sinal de lesão, não um exame de função. Ele diz que algumas células, em algum lugar, estão vazando, e mais ou menos quantas.

O que o TGO analisa?

O exame analisa a quantidade de TGO no sangue, mas não diz de onde ela veio. O fígado tem muita TGO, mas os músculos do corpo, o músculo do coração, os rins, o pâncreas, o cérebro e as próprias hemácias também têm. A MedlinePlus descreve a TGO como encontrada principalmente no fígado, mas também no coração, nos músculos e em outros tecidos. Assim, o exame responde “há células vazando?”, e não “meu fígado está doente?”. Para a segunda pergunta é preciso contexto, e é isso que o resto do seu exame oferece.

Valores de referência da TGO para homens e mulheres

Qual o valor ideal para TGO (AST)? Não existe um corte universal único. Cada laboratório define a sua faixa conforme o aparelho e a população que atende, então compare sempre o seu número com a faixa impressa no seu laudo. A Rede D’Or, por exemplo, considera normais, em geral, valores de TGO entre 5 e 40 U/L. A Cleveland Clinic cita uma faixa comum de 8 a 33 U/L, e a Mayo Clinic lista cerca de 8 a 48 U/L para homens adultos e 8 a 43 U/L para mulheres adultas. Os homens costumam ficar um pouco acima porque têm mais massa muscular.

A tabela mostra números típicos de adultos e como lê-los. Interprete junto com a TGP do mesmo laudo, porque as duas enzimas são lidas como um par, e não isoladamente.

GrupoFaixa típica de adultos (U/L)O que costuma alterar
Homens adultosCerca de 8 a 48Mais massa muscular, musculação, trabalho braçal
Mulheres adultasCerca de 8 a 43Menos massa muscular, gravidez, anticoncepcionais orais
Convenções mais estreitas ou mais largasCerca de 8 a 33, ou 5 a 40Método do aparelho e a população de referência usada
Crianças e adolescentesMuitas vezes acima dos adultosCrescimento e renovação de ossos e músculos; valem faixas pediátricas
Resultado baixoAbaixo do piso do laboratórioRaramente significa algo sozinho; não é marcador reconhecido de doença

Um resultado um ou dois pontos acima do topo da faixa é um sinal pequeno, não um veredito. Cerca de uma em cada vinte pessoas saudáveis fica fora da faixa de referência em qualquer exame, simplesmente porque as faixas são feitas para cobrir a maioria, e não todas as pessoas saudáveis.

Diferença entre TGO e TGP e a relação de De Ritis

Qual a diferença entre TGO e TGP? A TGP (ALT) está muito mais concentrada nas células do fígado e é, por isso, a mais específica do fígado; a TGO está espalhada por fígado, músculos, coração e hemácias. Divida a sua TGO pela sua TGP e você tem a relação de De Ritis, nome do médico italiano que a descreveu nos anos 1950. Esse único número muitas vezes informa mais do que cada enzima sozinha. Compare as duas no nosso guia do exame de TGP.

  • Uma relação abaixo de 1, ou seja, TGP maior, é o padrão comum na gordura no fígado e na maioria das hepatites virais.
  • Uma relação acima de 1 sugere cicatriz mais avançada no fígado ou uma origem fora do fígado, como os músculos.
  • Uma relação acima de 2, sobretudo com gama GT também alta, aponta classicamente para lesão do fígado ligada ao álcool. Confira a enzima que acompanha o álcool e o fluxo da bile no nosso guia do exame de gama GT.
  • Uma relação muito alta com TGP normal é um forte indício de que a enzima vem dos músculos ou das hemácias, e não do fígado.

A relação é uma pista, não um diagnóstico. Ela muda com a evolução da doença, pode ser distorcida por um único treino pesado e pouco significa se as duas enzimas estão bem dentro da faixa. O médico a lê junto com bilirrubina, albumina e tempo de coagulação. Entenda o pigmento que sobe quando o fluxo da bile é bloqueado no nosso guia da bilirrubina total.

Quando a TGO alta não tem nada a ver com o fígado

É aqui que o exame de TGO cria mais ansiedade desnecessária. Como os músculos são ricos na enzima, qualquer coisa que lese as fibras musculares sobe o número.

Exercício intenso ou fora do costume

Uma maratona, a primeira aula de musculação, uma trilha longa em descida ou um treino funcional puxado podem subir a TGO por vários dias. Os valores muitas vezes chegam a duas ou três vezes o topo da faixa e voltam ao normal em cerca de uma semana. A pista é o padrão: a TGO sobe mais que a TGP, a gama GT fica normal, e a pessoa se sente dolorida, não doente. Por isso muitos médicos pedem para evitar exercício extenuante dois a três dias antes do exame do fígado.

Rabdomiólise

Rabdomiólise é a destruição rápida do tecido muscular, em geral depois de um esmagamento, esforço extremo, insolação, convulsão ou certos remédios. Grandes quantidades do conteúdo dos músculos inundam o sangue, e a TGO pode chegar aos milhares enquanto a TGP sobe bem menos. Exames específicos de músculo, como a creatinoquinase (CK), confirmam a origem, e urina escura cor de refrigerante de cola com dor muscular forte é uma emergência médica. O marcador que reflete falta de oxigênio nos tecidos e esforço intenso está no nosso guia do exame de lactato.

Hemólise e manuseio da amostra

As hemácias também têm TGO. Se elas se rompem, dentro do corpo ou dentro do tubo durante uma coleta difícil, a enzima é liberada e a leitura sobe artificialmente. Os laboratórios costumam sinalizar uma amostra visivelmente hemolisada, mas uma hemólise leve pode passar. Uma nova coleta resolve a dúvida. Conheça a enzima que sobe muito quando as hemácias se rompem no nosso guia do exame de LDH.

Macro-AST

De vez em quando a enzima se liga a um anticorpo e forma um complexo grande que o corpo elimina devagar. Essa macro-AST fica no sangue por semanas e mantém o número teimosamente alto em alguém sem sintomas e com o fígado completamente normal nos exames de imagem. É inofensiva, incomum e vale a pena lembrar dela antes que uma elevação isolada sem explicação dispare uma investigação sem fim.

O TGO pode indicar um infarto?

A TGO sobe depois de um infarto, porque o músculo do coração também a contém, e já foi usada para isso no passado. Hoje, porém, o infarto é investigado com o eletrocardiograma e com marcadores próprios do coração, como a troponina. Uma TGO alta não diagnostica infarto; dor no peito é motivo para procurar atendimento de urgência na hora, sem esperar exame.

TGO alta: como ler o tamanho da elevação

Qual nível de TGO é preocupante? O tamanho da alta estreita a lista de causas prováveis muito mais do que o simples fato de estar “alterada”. O médico pensa em múltiplos do limite superior da normalidade (LSN), e não em unidades brutas. A tabela liga o tamanho da elevação da TGO às direções para onde ela costuma apontar.

Tamanho da elevaçãoPistas típicasPróximo passo habitual
Logo acima da faixa, até 2 vezes o LSNGordura no fígado, excesso de peso, álcool, exercício recente, remédio ou suplemento novo, variação do laboratórioRepetir em 4 a 12 semanas com TGP, gama GT e história completa
De 2 a 5 vezes o LSNHepatite viral crônica, lesão por álcool, gordura no fígado com inflamação, doença da tireoide ou celíaca, doenças muscularesExames dirigidos, sorologias de hepatite, ultrassom do fígado
De 5 a 15 vezes o LSNHepatite ativa, doença autoimune do fígado, cálculo obstruindo um ducto, reação a remédio, lesão muscular importanteAvaliação médica rápida, exame de imagem, revisão de remédios e suplementos
Acima de 15 vezes o LSNHepatite viral aguda, superdose de paracetamol ou toxina, fígado sem fluxo de sangue, rabdomiólise, infartoAvaliação urgente, muitas vezes no mesmo dia
Acima de 10.000 U/LMorte celular aguda maciça por toxinas, choque ou destruição muscular graveEmergência, sem demora

As duas enzimas subindo juntas em padrão hepatocelular são diferentes de um quadro dominado pela fosfatase alcalina, que sinaliza bile com dificuldade de sair. Conheça o marcador das vias biliares e dos ossos no nosso guia da fosfatase alcalina. Uma elevação moderada persistente também levanta a questão das cicatrizes, tratada no nosso panorama sobre cirrose.

Escores de fibrose que usam a TGO: APRI e FIB-4

A cicatriz do fígado, chamada fibrose, costumava ser avaliada sobretudo por biópsia. Duas calculadoras simples permitem hoje estimar o risco a partir de exames de sangue de rotina, e as duas usam a TGO como ingrediente.

APRI é a sigla em inglês de índice da relação TGO/plaquetas. Ele compara a sua TGO com o topo da faixa do laboratório e depois com a contagem de plaquetas, porque um fígado com cicatrizes tende a reter e destruir plaquetas. Um índice baixo torna improvável uma fibrose importante; um alto sugere que vale investigar. Reveja o fragmento de célula que cai quando a fibrose avança no nosso guia da contagem de plaquetas.

O FIB-4 acrescenta dois dados: a idade e a TGP. A idade conta porque a fibrose se acumula ao longo de décadas, e juntar quatro valores de rotina dá uma estimativa mais precisa do que qualquer enzima sozinha. A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomenda o FIB-4 para todos os adultos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2: abaixo de 1,3, o risco de fibrose avançada é considerado descartado, com valor preditivo negativo de cerca de 91 %; a partir de 1,3, a orientação é seguir para a elastografia, um exame de ultrassom indolor que mede a rigidez do fígado.

Nenhum dos dois escores diagnostica nada. São ferramentas de triagem para separar “muito improvável” de “vale olhar de perto”. Funcionam pior em pessoas com menos de 35 ou mais de 65 anos e podem ser distorcidos por qualquer coisa que mude as plaquetas ou a TGO por outro motivo. O médico os combina com as proteínas produzidas pelo fígado e com o tempo de coagulação. Veja a proteína que reflete a produção do fígado a longo prazo no nosso guia do exame de albumina e o teste de coagulação no nosso guia do tempo de protrombina (TAP).

O que fazer com uma TGO um pouco alta

A maioria dos resultados levemente altos se resolve ou fica estável. Uma abordagem calma e organizada funciona melhor que uma busca ansiosa na internet.

  1. Repita antes de reagir. Espere quatro a doze semanas, evite exercício extenuante nos três dias anteriores e peça TGO, TGP, gama GT, fosfatase alcalina e bilirrubinas juntas.
  2. Reveja tudo o que você engole. Remédios com receita, analgésicos comprados na farmácia, suplementos de academia, extrato de chá verde, kava e vitamina A em dose alta podem subir as enzimas do fígado. Leve as embalagens à consulta.
  3. Olhe o álcool com honestidade. Mesmo beber moderadamente com regularidade sobe a TGO e a gama GT, e algumas semanas sem álcool muitas vezes normalizam as duas.
  4. Cuide dos fatores metabólicos. Gordura abdominal, resistência à insulina e triglicerídeos altos estão por trás da maior parte das enzimas levemente altas; no estudo ELSA-Brasil, a doença hepática esteatótica metabólica (DHEM) apareceu em cerca de um terço dos adultos. Perder de 5 a 10 % do peso, reduzir o açúcar adicionado e manter atividade regular baixam as enzimas com mais segurança que qualquer suplemento.
  5. Descarte o que é tratável. Hepatites B e C, hemocromatose, doença celíaca e doenças da tireoide causam altas silenciosas das enzimas, e todas têm tratamento. No Brasil, os testes rápidos para hepatites B e C estão disponíveis no SUS para toda a população.

Se você usa estatina para o colesterol, a Diretriz de Dislipidemias da Sociedade Brasileira de Cardiologia (2025) lembra que pequenas altas das transaminases podem acontecer nos primeiros meses, em geral sem sintomas e reversíveis, e não recomenda dosá-las de rotina durante o tratamento quando não há sintomas. Não suspenda o remédio por conta própria.

Quando procurar o médico

Marque uma consulta de rotina se a sua TGO ficar acima da faixa em dois exames com semanas de intervalo, ou se estiver subindo em exames seguidos. Procure atendimento logo se a enzima alta vier com pele ou olhos amarelados, urina escura, fezes claras, dor persistente no lado direito alto da barriga, manchas roxas sem explicação, inchaço das pernas ou da barriga, ou confusão e sonolência fora do comum. Procure emergência, ou ligue para o SAMU (192), em caso de dor muscular forte com urina cor de refrigerante de cola, dor no peito ou suspeita de superdose de paracetamol. Quem tem doença do fígado conhecida, hepatite crônica, consumo pesado de álcool ou casos de doença do fígado na família deve acompanhar as enzimas em um calendário combinado com o médico. A testagem para hepatite vale a pena mesmo sem sintomas, como explicamos no nosso panorama da hepatite C.

O que o exame de TGO não mostra

O valor de TGO tem limites reais, e conhecê-los evita tanto o falso alarme quanto a falsa tranquilidade.

  • Não diz qual é o órgão. Fígado, coração, músculos e hemácias contribuem para o mesmo número.
  • Não mede a função do fígado. A função aparece na albumina, nas bilirrubinas e no tempo de coagulação, não nas enzimas que vazam.
  • Não exclui cirrose. Um fígado muito cicatrizado pode ter poucas células sobrando para vazar, e as enzimas podem estar normais em doença avançada.
  • Não data a lesão. O número não diz se o dano começou ontem ou há dez anos.
  • Não se sustenta sozinho. Um valor isolado, sem TGP, sem tendência e sem história clínica, é quase impossível de interpretar.

Ler as enzimas como um padrão em movimento, e não como uma fotografia, é exatamente onde a interpretação automatizada ajuda, tema da nossa análise das enzimas do fígado alteradas com apoio de IA.

Avanços científicos recentes

As pesquisas publicadas nos últimos três anos refinaram o uso da TGO, sobretudo dentro de escores combinados.

Uma revisão clínica de 2026 na revista Gastroenterology, de Kwo e colaboradores, reafirmou como investigar alterações nos exames do fígado. Os autores descrevem as altas de TGO e TGP como sinal de lesão das células hepáticas e insistem que a avaliação deve começar por uma história cuidadosa, com fatores de risco metabólicos, álcool, remédios e fitoterápicos ou suplementos, antes de qualquer exame de imagem. O que isso significa para você é prático: a informação mais valiosa na consulta muitas vezes é a lista de tudo o que você toma, e não mais uma coleta de sangue.

Uma revisão sistemática com metanálise de 2025 na The Lancet Gastroenterology and Hepatology, liderada por Liguori e colaboradores, reuniu estudos para definir novos cortes de exames não invasivos na hepatite B crônica e embasou as diretrizes de 2024 da Organização Mundial da Saúde. Uma revisão sistemática reúne e combina todas as pesquisas confiáveis sobre uma pergunta. O trabalho confirmou que o APRI, feito com TGO e plaquetas, continua sendo um primeiro filtro útil para fibrose onde faltam aparelhos de elastografia, enquanto os novos cortes reduzem o número de pessoas classificadas por engano como de alto risco. Para você, isso significa que uma TGO alta é cada vez mais lida por meio de um escore, e não sozinha.

Um estudo de coorte populacional de 2025 publicado no The BMJ, de Strandberg e colaboradores, desenvolveu e validou o escore CORE, que prevê o risco em dez anos de complicações graves do fígado na população geral a partir de dados da atenção primária. Uma coorte é um grupo de pessoas acompanhado ao longo do tempo. O modelo foi melhor que as abordagens antigas baseadas em enzimas para identificar quem vai evoluir para cirrose. Ainda é uma ferramenta de previsão, não de diagnóstico, e precisa ser confirmada em populações mais diversas, mas a direção é clara: as enzimas estão virando um dado entre vários, e não a manchete.

Uma análise transversal de 2024 de dados de uma pesquisa nacional dos Estados Unidos, de Xuan e colaboradores, publicada na Frontiers in Endocrinology, examinou a relação TGP/TGO e viu que ela acompanha tanto a presença quanto a gravidade da gordura no fígado. Transversal significa que todos foram medidos em um único momento, então o estudo mostra associação, e não causa. A lição para você é que a relação entre as suas duas enzimas carrega informações que nenhum dos números carrega sozinho, e por isso o laudo deve sempre ser lido em par.

Glossário

TermoDefinição
TGO (AST)Transaminase glutâmico-oxalacética ou aspartato aminotransferase, enzima presente no fígado, nos músculos, no coração, nos rins e nas hemácias. Vaza para o sangue quando as células são lesadas.
TGP (ALT)Alanina aminotransferase, a enzima companheira, muito mais concentrada no fígado. É a mais específica do fígado entre as duas.
Relação de De RitisO valor da TGO dividido pelo da TGP. Ajuda a sugerir se a alta vem mais provavelmente do fígado, de lesão por álcool ou dos músculos.
U/LUnidades por litro, a unidade padrão para a atividade das enzimas no sangue. Uma unidade descreve quanta reação a enzima produz em um tempo definido.
LSNLimite superior da normalidade, o topo da faixa de referência do laboratório. O médico muitas vezes descreve o resultado como múltiplo do LSN.
RabdomióliseDestruição rápida dos músculos que libera o conteúdo muscular no sangue. Pode subir muito a TGO e é uma emergência médica.
HemóliseRompimento das hemácias, dentro do corpo ou dentro do tubo de coleta. Como as hemácias têm TGO, a hemólise pode subir o resultado artificialmente.
Macro-ASTComplexo inofensivo formado quando a enzima se liga a um anticorpo. O corpo o elimina devagar e a TGO fica alta em quem não tem doença do fígado.
APRIÍndice da relação TGO/plaquetas, cálculo que usa a TGO e as plaquetas para estimar a chance de cicatriz no fígado.
FIB-4Escore com quatro dados, idade, TGO, TGP e plaquetas, que separa as pessoas pelo risco de fibrose importante no fígado.
FibroseTecido de cicatriz que substitui o fígado saudável após lesão prolongada. A fibrose avançada se chama cirrose.

Perguntas frequentes

Qual nível de TGO é perigoso?

Não existe um número perigoso único, mas o tamanho da alta importa. Resultados logo acima da faixa do laboratório são comuns e em geral refletem gordura no fígado, álcool, um remédio ou exercício recente. Valores mais de quinze vezes acima do limite superior merecem atenção médica rápida, e leituras na casa dos milhares, sobretudo acima de 10.000 U/L, indicam lesão celular maciça por toxina, falta de fluxo de sangue no fígado ou destruição muscular grave e exigem emergência. O contexto define a urgência: uma TGO muito alta com bilirrubina e coagulação normais é uma situação diferente de uma alta moderada com icterícia e confusão. Deixe sempre o médico interpretar o exame completo, e não só a enzima.

TGO baixa é motivo de preocupação?

Em geral, não. A TGO baixa não é um marcador reconhecido de doença nem indica um fígado fraco. Significa apenas que pouca enzima está vazando, que é o que se deseja. Valores muito baixos aparecem às vezes na doença renal avançada, na falta de vitamina B6 ou como peculiaridade do aparelho, mas, sozinho, um número baixo não leva a investigação. Se ele aparecer junto com outros resultados incomuns, o médico vai olhar o exame inteiro, e não esse valor isolado.

Os valores normais de TGO mudam com a idade?

Sim, um pouco. Crianças e adolescentes muitas vezes ficam acima dos adultos por causa do crescimento rápido e da renovação muscular, e por isso os laboratórios usam faixas pediátricas próprias. Nos adultos, a faixa é bem estável, embora a massa muscular, que costuma cair com a idade, tenda a puxar o número um pouco para baixo mais tarde. Nos adultos, o sexo pesa mais que a idade: os homens costumam ficar alguns pontos acima das mulheres. Compare o resultado com a faixa do seu laudo, e não com um número geral.

Minha TGO deu 37. Devo me preocupar?

Um valor de 37 U/L está dentro da faixa que muitos laboratórios usam para adultos, como 5 a 40 U/L, e logo acima de faixas mais estreitas, como 8 a 33. Sozinho, é muito improvável que signifique algo. Confira a faixa do seu laudo, olhe a TGP do mesmo exame e lembre se fez exercício pesado nos dias anteriores. Se as duas enzimas estiverem perto do topo e continuarem assim em um novo exame dali a alguns meses, vale conversar com o médico, sobretudo se você tem excesso de peso, bebe com regularidade ou toma suplementos.

O exercício pode subir a TGO a ponto de parecer doença do fígado?

Pode. Um treino pesado ou diferente do habitual pode dobrar ou triplicar a TGO por vários dias, e provas de resistência podem subir ainda mais. A pista é que a TGO sobe mais que a TGP, a gama GT fica normal e você sente dor muscular, e não mal-estar de doença. Evitar atividade extenuante dois a três dias antes da coleta costuma prevenir a confusão. Se as enzimas foram medidas logo depois de uma prova ou de um treino pesado, muitas vezes basta repetir o exame em condições mais calmas.

TGO alto pode indicar câncer?

Muito raramente. A grande maioria das transaminases altas vem de gordura no fígado, álcool, remédios, suplementos ou hepatite viral. Tumores do fígado podem subir as enzimas, mas quase nunca como achado isolado em alguém que se sente bem, e em geral vêm acompanhados de outras alterações, de achados nos exames de imagem ou de sintomas como perda de peso. A resposta sensata a duas enzimas um pouco altas é repetir o exame com uma história completa, e não sair à procura de câncer.

Fontes

  • MedlinePlus, Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA — AST Test (exame de AST) — disponível em medlineplus.gov
  • Cleveland Clinic — Aspartate Transferase (AST) Blood Test (exame de AST no sangue) — disponível em my.clevelandclinic.org
  • Mayo Clinic — Aspartate aminotransferase (AST) blood test (exame de aspartato aminotransferase) — disponível em mayoclinic.org
  • Rede D’Or — TGO: o que é, como é feito e qual o preparo — Análises clínicas, 2025 — disponível em rededorsaoluiz.com.br
  • Sociedade Brasileira de Diabetes — Doença hepática esteatótica metabólica (DHEM) — Diretriz da SBD, 2024 — disponível em diretriz.diabetes.org.br
  • Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 — Arq Bras Cardiol, 2025 — disponível em doi.org/10.36660/abc.20250640
  • Ministério da Saúde, Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e IST — Hepatites virais — gov.br — disponível em gov.br
  • Ministério da Saúde — SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — gov.br — disponível em gov.br
  • Kwo PY, Masuoka HC, Schaefer EA, Friedman LS — Evaluation of Abnormal Liver Biochemical Test Results — Gastroenterology, 2026 — disponível em doi.org/10.1053/j.gastro.2025.12.041
  • Liguori A, Zoncapè M, Casazza G, Easterbrook P, Tsochatzis EA — Staging liver fibrosis and cirrhosis using non-invasive tests in people with chronic hepatitis B to inform WHO 2024 guidelines: a systematic review and meta-analysis — The Lancet Gastroenterology and Hepatology, 2025 — doi.org/10.1016/S2468-1253(24)00437 — disponível em doi.org/10.1016/S2468-1253(24)00437-0
  • Strandberg R, Åberg F, Asteljoki JV, Luukkonen PK, Hagström H et al. — Use of new CORE risk score to predict 10 year risk of liver cirrhosis in general population: population based cohort study — The BMJ, 2025 — doi.org/10.1136/bmj-2024 — disponível em doi.org/10.1136/bmj-2024-083182
  • Xuan Y, Wu D, Zhang Q, Yu Z, Yu J, Zhou D — Elevated ALT/AST ratio as a marker for NAFLD risk and severity: insights from a cross-sectional analysis in the United States — Frontiers in Endocrinology, 2024 — disponível em doi.org/10.3389/fendo.2024.1457598

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