O exame de AST mede a aspartato aminotransferase, uma enzima que no Brasil é mais conhecida como TGO (transaminase glutâmico-oxalacética). Ela está principalmente no fígado, mas também no coração, nos músculos e em outros tecidos. Quando essas células sofrem estresse ou lesão, liberam a enzima no sangue, então o exame funciona como um sinal precoce de possível lesão, e não como um diagnóstico sozinho. Na maioria dos adultos o resultado fica numa faixa baixa, e um único valor um pouco alto é comum e muitas vezes inofensivo.

Neste artigo, você vai entender o que o exame de AST mede, qual é o valor normal e como ele varia, o que resultados altos e baixos podem indicar, como o médico usa a relação AST/ALT (índice de De Ritis), as causas comuns de aumento e quando um resultado merece a atenção do médico. O objetivo é ajudar você a ler o próprio laudo com calma e saber qual é o próximo passo sensato.

O que é AST no exame de sangue

AST é a sigla em inglês de aspartato aminotransferase, uma enzima que ajuda as células a processar os aminoácidos, as peças que formam as proteínas. Nos laudos brasileiros, ela aparece como TGO, “transaminase oxalacética” ou “TGO (AST)”; em laudos antigos em inglês, como SGOT. Todos esses nomes descrevem a mesma enzima. O exame mede quanto de AST circula numa amostra de sangue, em unidades por litro (U/L).

A AST fica dentro das células do fígado, do coração, dos músculos esqueléticos, dos rins, do cérebro e das hemácias. As células saudáveis guardam a maior parte dela dentro de si. Quando são lesadas ou inflamadas, a AST vaza para o sangue e o nível sobe. Como tantos tecidos a contêm, uma AST alta indica lesão de células em algum lugar, mas não aponta sozinha um órgão específico. Por isso o médico lê a AST junto com outros exames e com os seus sintomas. Como a mesma enzima tem vários nomes, você pode comparar esta explicação com o nosso guia sobre o exame de TGO (transaminase oxalacética).

Qual o tipo de exame AST?

O exame de AST é um exame de sangue simples, feito com uma coleta de sangue da veia e analisado no laboratório de bioquímica. O médico o pede, na maioria das vezes, como parte do hepatograma, para rastrear lesões do fígado, investigar sintomas como cansaço, dor na barriga ou icterícia e acompanhar doenças do fígado ou remédios que podem afetá-lo. Como a AST também está no coração e nos músculos, ela pode aparecer depois de uma suspeita de lesão muscular, embora exames mais específicos costumem vir depois. A AST quase nunca é interpretada sozinha: ela vem quase sempre junto com a TGP (ALT) e outros marcadores.

Valor normal de AST (TGO) e como ler o resultado

Os valores de referência mudam conforme o laboratório, o método, a idade e o sexo, então os números abaixo são uma orientação geral, e não uma regra fixa. No manual de exames da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP), por exemplo, a referência da TGO é de 5 a 38 U/L para homens e de 5 a 32 U/L para mulheres. Compare sempre o seu valor com o intervalo impresso no seu laudo, porque é a faixa que o laboratório validou para o seu método. Dois laboratórios podem informar limites um pouco diferentes para a mesma amostra.

GrupoFaixa típica de AST (U/L)Observações
Adultos (faixa comum)Cerca de 8 a 33Varia conforme o laboratório e o método
Homens adultosMuitas vezes um pouco mais alta (ex.: até 38 U/L num laboratório universitário brasileiro)Mais massa muscular pode elevar o valor habitual
Mulheres adultasMuitas vezes um pouco mais baixa (ex.: até 32 U/L no mesmo laboratório)Os valores mudam na gravidez
Crianças e adolescentesPodem ser mais altos que nos adultosO crescimento influencia os níveis da enzima

Em vez de se prender a um único ponto de corte, o médico observa quantas vezes o valor está acima do limite superior e como ele muda com o tempo. Um número logo acima da faixa significa algo muito diferente de um valor muitas vezes maior, então o grau de aumento importa mais do que ultrapassar o limite por um ou dois pontos.

Resultados levemente altos, altos e muito altos

Agrupar o resultado pelo tamanho ajuda a calibrar as expectativas. A tabela abaixo é só uma orientação; os limites exatos dependem do laboratório e de você, e só um médico pode avaliar o seu resultado no contexto.

Nível de ASTEscala aproximadaContexto comum
Levemente altaAté cerca de 3 vezes o normalGordura no fígado, álcool, remédios, exercício recente; muitas vezes repetida
Moderadamente altaCerca de 3 a 10 vezes o normalInflamação em curso; em geral pede outros exames
Muito altaMais de 10 vezes o normalLesão aguda do fígado ou destruição muscular importante; avaliação rápida

AST alta ou baixa: o que pode significar

Uma AST alta reflete, na maioria das vezes, lesão das células do fígado por causas como gordura no fígado, hepatites virais, álcool ou remédios. Ela também pode subir por lesão muscular ou, com menos frequência, por lesão do músculo do coração. Valores muito altos costumam acompanhar uma lesão aguda do fígado ou uma destruição muscular importante; segundo o manual da USP de Ribeirão Preto, na fase aguda da hepatite viral a TGO quase sempre fica cerca de 20 vezes acima do normal ou mais. Já os aumentos leves frequentemente vêm de fatores do dia a dia. Como a AST não é específica do fígado, o médico confirma a origem com outros exames antes de concluir algo.

Uma AST baixa raramente preocupa e costuma refletir apenas a variação normal; às vezes está ligada à falta de vitamina B6, de que a enzima precisa para funcionar. Em resumo, a AST dá uma pista, não um veredicto. Para ver como se comporta a enzima companheira, mais específica do fígado, consulte o nosso guia sobre o que é TGP (ALT) e, para o padrão completo do hepatograma, este guia prático sobre enzimas do fígado altas (TGP, TGO, ALP e gama-GT).

O que causa o aumento do aspartato aminotransferase?

  • Gordura no fígado ligada a peso, glicose e colesterol, hoje chamada de MASLD
  • Álcool, sobretudo em maior quantidade ou consumido recentemente
  • Remédios e suplementos, incluindo o paracetamol e algumas estatinas
  • Exercício intenso recente, musculação pesada ou distensão muscular
  • Infecções virais, das hepatites a doenças passageiras como a mononucleose
  • Uma alteração da própria coleta chamada hemólise, em que as hemácias se rompem e aumentam falsamente o valor

A relação AST/ALT (índice de De Ritis)

Como a AST e a ALT costumam andar juntas, o médico as compara numa razão, historicamente chamada de índice de De Ritis. A ALT se concentra mais no fígado, então em muitas doenças comuns do fígado ela fica mais alta que a AST, e a razão fica abaixo de 1. O padrão muda em algumas situações, e por isso a comparação traz informação útil além de cada enzima isolada.

Um estudo brasileiro publicado nos Arquivos de Gastroenterologia ilustra bem isso. Em 29 pacientes obesos com esteato-hepatite não alcoólica, a média de AST foi de 52,3 U/L e a de ALT de 90,1 U/L, com o índice AST/ALT menor que 1 em todos os casos. Já em 28 pacientes com doença hepática alcoólica, o índice foi maior que 1 em todos e maior que 2 em 85,7 % deles. Os autores concluíram que valores menores que 1 sugerem fortemente a esteato-hepatite não alcoólica.

Padrão AST/ALTO que pode sugerir
Razão abaixo de 1 (ALT mais alta)Comum na gordura no fígado e em muitas formas de hepatite
Razão perto de 2 ou acimaColoca a lesão do fígado ligada ao álcool mais alto na lista
Razão subindo com o tempoPode indicar cicatriz avançada no fígado; precisa de avaliação

Esses padrões são guias, não diagnósticos. A razão nunca confirma uma causa sozinha; o médico a pesa junto com o seu histórico, os remédios, o consumo de álcool e como você se sente. Ela ajuda a orientar a próxima pergunta, e não a encerrar a resposta.

Fatores que podem alterar o resultado

Vários fatores que não são doença mexem com a AST. Exercício intenso ou uma lesão muscular recente podem elevá-la, porque o músculo contém a enzima. Álcool e alguns remédios aumentam os níveis, e a hemólise durante ou depois da coleta pode inflar falsamente o resultado. Idade, sexo, peso e gravidez mudam o valor de base, e os laboratórios usam métodos e valores de referência diferentes. O jejum em si muda pouco a AST, mas muitos laboratórios brasileiros o pedem: o manual da USP de Ribeirão Preto, por exemplo, indica jejum de 8 a 10 horas e pede que a pessoa não tenha feito eletroneuromiografia nos últimos três dias nem biópsia muscular ou do fígado nos últimos cinco. Siga as orientações do seu laboratório.

Essa variação é um dos motivos pelos quais uma AST levemente alterada costuma ser simplesmente repetida depois de algumas semanas. Um valor que volta ao normal na repetição tranquiliza, enquanto um que sobe sem parar tem mais chance de levar a exames de imagem ou a um encaminhamento. Guardar os laudos antigos ajuda, porque comparar este ano com o ano passado costuma responder mais do que um número isolado.

Quando procurar o médico

A maioria dos aumentos de AST é tratada com calma, com repetição do exame e uma conversa, sobretudo um aumento leve numa pessoa que se sente bem. Algumas situações, porém, pedem atenção rápida. Procure um médico logo se uma AST alta vier com algum dos sinais de alerta abaixo, e siga sempre a orientação do profissional que pediu o exame.

  • Pele ou olhos amarelados (icterícia) ou urina muito escura
  • Fezes claras ou coceira persistente
  • Dor ou sensibilidade do lado direito e superior da barriga
  • Enjoo, vômitos ou perda de apetite sem explicação
  • Inchaço na barriga ou nas pernas, ou manchas roxas e sangramentos fora do comum
  • Confusão mental ou sonolência fora do normal
  • Uma AST muitas vezes acima do normal, ou que continua subindo nos exames repetidos

Se nada disso se aplica e você só viu um aumento leve num exame de rotina, isso é um achado comum, a ser levado à próxima consulta. Leve a lista dos seus remédios e suplementos e anote qualquer doença recente ou exercício pesado, já que esses detalhes muitas vezes explicam o resultado.

Avanços científicos recentes

As pesquisas recentes refinaram o uso da AST, sobretudo como parte de escores simples, e não como um número isolado. Os achados abaixo estão resumidos em linguagem simples, com a ressalva de sempre: um resultado de exame apoia, mas não substitui, o julgamento do médico.

A AST ajuda a estimar a cicatriz do fígado sem biópsia

Uma metanálise de 2024, que reuniu mais de 46.000 pessoas com gordura no fígado, mostrou que escores calculados em parte com a AST, como a relação AST/plaquetas (APRI) e o índice FIB-4, ajudam a estimar razoavelmente bem o risco de cicatriz no fígado. O que isso significa para você: muitas vezes o médico consegue avaliar o risco de fibrose com exames que você já fez, o que pode reduzir a necessidade de exames mais invasivos. Sobre os termos: uma metanálise junta muitos estudos numa análise maior, e fibrose é a cicatriz do fígado. Esses escores estreitam o risco, mas não dão um diagnóstico firme, e são lidos junto com exames de imagem e o histórico.

Escores com AST orientam o rastreamento da fibrose no mundo

Uma revisão sistemática de 2025, que embasou as diretrizes de 2024 da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a hepatite B, confirmou que o índice APRI é uma forma útil e barata de apontar cicatriz importante no fígado quando não há exames especializados disponíveis. O que isso significa para você: até um exame de sangue básico com AST e plaquetas pode ajudar a priorizar quem precisa de avaliação mais detalhada. Sobre o termo: um índice, aqui, é um número calculado a partir de alguns resultados de rotina. A revisão lembra que essas ferramentas funcionam melhor como primeira triagem, com confirmação por outros métodos sempre que possível.

A AST tende a cair quando a saúde metabólica melhora

Uma revisão sistemática com metanálise de 2025 sobre remédios mais novos para peso e diabetes mostrou que eles muitas vezes reduziram a gordura no fígado e melhoraram as enzimas hepáticas, incluindo a AST, em pessoas com gordura no fígado. O que isso significa para você: quando uma AST alta vem da gordura no fígado de origem metabólica, cuidar do peso e da glicose pode levar o número na direção certa com o tempo. Sobre o termo: a gordura no fígado metabólica, hoje chamada de MASLD, é o acúmulo de gordura no fígado ligado ao peso e à glicose. As evidências vêm de estudos com remédios específicos, então qualquer decisão de tratamento cabe ao seu médico.

Glossário

TermoSignificado simples
AST (aspartato aminotransferase) ou TGOEnzima do fígado, do coração e dos músculos que sobe no sangue quando essas células são lesadas
SGOTNome antigo em inglês da AST (transaminase glutâmico-oxalacética sérica)
ALT (alanina aminotransferase) ou TGPEnzima mais específica do fígado, em geral medida junto com a AST
Relação AST/ALT (índice de De Ritis)Comparação entre as duas enzimas usada como pista da causa provável
U/L (unidades por litro)Unidade usada para informar a atividade de uma enzima no sangue
Valores de referênciaIntervalo de valores que o laboratório considera típico em pessoas saudáveis
HemóliseRompimento das hemácias, que pode aumentar falsamente um resultado
MASLDDoença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, nome atual da gordura no fígado
FibroseCicatriz do fígado, que se acumula com a lesão prolongada
Índice FIB-4Escore simples com idade, AST, ALT e plaquetas para estimar o risco de cicatriz no fígado

Perguntas frequentes

O que é TGO?

TGO é a transaminase glutâmico-oxalacética, o nome brasileiro mais comum da AST (aspartato aminotransferase). É uma enzima do fígado, do coração e dos músculos, medida no sangue para avaliar principalmente a saúde do fígado. TGO e AST são o mesmo exame.

Para que serve o exame de AST?

O exame de AST serve principalmente para rastrear e acompanhar lesões do fígado, em geral dentro do hepatograma. Como a enzima também existe no coração e nos músculos, o médico às vezes a usa quando suspeita de lesão muscular, embora exames mais específicos costumem vir depois. Sozinho, o exame não identifica uma causa; ele sinaliza que células com AST podem estar sob estresse, e o médico o combina com TGP, fosfatase alcalina, bilirrubinas, sintomas e histórico.

Uma AST de 40 é alta?

Uma AST perto de 40 U/L fica próxima do limite superior de muitas faixas de adultos, então se ela conta como alta depende do intervalo do seu laboratório e de você. Um valor um pouco acima do limite é comum e muitas vezes não é grave, sobretudo depois de exercício ou com gordura leve no fígado. O que importa mais é quanto acima do normal ela está e se continua alta num exame repetido.

TGO alto pode indicar câncer?

Raramente, e nunca sozinho. A TGO pode subir em tumores grandes ou com metástases no fígado, mas as causas muito mais comuns são gordura no fígado, álcool, remédios, hepatites e exercício. Um TGO alto pede investigação da causa com o médico, e não conclusões precipitadas.

O que devo fazer se meu exame de fígado estiver alterado?

Leve o laudo ao médico que pediu o exame, com a lista dos seus remédios e suplementos, e conte se bebeu álcool, fez exercício pesado ou esteve doente recentemente. Muitas vezes o primeiro passo é repetir o exame e completar o hepatograma. Se houver icterícia, dor forte na barriga ou confusão, procure atendimento logo.

Em quanto tempo a AST sobe e desce depois de uma lesão?

A AST costuma subir poucas horas depois de uma lesão importante, atinge o pico em um ou dois dias e depois cai, conforme o corpo elimina a enzima. O tempo exato depende da causa e da gravidade, então um único resultado é uma fotografia, e não a história inteira. Por isso o médico muitas vezes repete o exame para ver a direção.

Remédios ou suplementos podem aumentar a AST?

Sim. Remédios com receita, analgésicos como o paracetamol em doses altas, algumas estatinas, certos antibióticos e suplementos de ervas podem elevar a AST. O aumento muitas vezes volta ao normal quando a causa é identificada. Conte ao médico tudo o que você toma e nunca pare um remédio receitado por conta própria por causa de um exame de sangue.

Uma AST normal quer dizer que o fígado está totalmente saudável?

Não necessariamente. Uma AST normal tranquiliza, mas algumas doenças do fígado existem com enzimas normais ou só alteradas de vez em quando, e a AST não é específica do fígado. Por isso o médico a interpreta junto com TGP, fosfatase alcalina, gama-GT, bilirrubinas e, quando preciso, exames de imagem.

O que significa AST baixa?

Uma AST baixa raramente indica problema e em geral não preocupa. Costuma refletir a variação normal entre as pessoas e ao longo do tempo. Às vezes, valores muito baixos estão ligados à falta de vitamina B6, de que a enzima precisa para funcionar.

Fontes

  • Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP), Serviço de Análises Clínicas — Manual de Exames (TGO, TGP) — publicado pela Prefeitura de Ribeirão Preto. ribeiraopreto.sp.gov.br
  • Zamin Jr. I, Mattos AA, Perin C, Ramos GZ — “A importância do índice AST/ALT no diagnóstico da esteatohepatite não-alcoólica” — Arquivos de Gastroenterologia, 2002. scielo.br
  • MedlinePlus, Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA (NIH) — “AST Test” (exame de AST). medlineplus.gov
  • Cleveland Clinic — “Aspartate Transferase (AST) Blood Test” (exame de sangue de AST). my.clevelandclinic.org
  • StatPearls, NCBI Bookshelf (NIH/NLM) — “Liver Function Tests” (exames de função do fígado). ncbi.nlm.nih.gov
  • López Tórrez SM e colaboradores — “Accuracy of prognostic serological biomarkers in predicting liver fibrosis severity in people with MASLD: a meta-analysis of over 40,000 participants” — revista Frontiers in Nutrition, 2024. doi.org/10.3389/fnut.2024.1284509
  • Sun J e colaboradores — “Staging liver fibrosis and cirrhosis using non-invasive tests in people with chronic hepatitis B to inform WHO 2024 guidelines: a systematic review and meta-analysis” — revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology, 2025. doi.org/10.1016/S2468-1253(24)00437-0
  • Zhou Y e colaboradores — “Efficacy of GLP-1-based therapies on MASLD and MASH: a systematic review and meta-analysis” — revista The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2025. doi.org/10.1210/clinem/dgaf336

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