Sorologia TORCH na gravidez: o que o exame avalia e como ler IgG e IgM

O essencial
A sorologia TORCH é um grupo de exames de sangue que procura anticorpos contra infecções que podem passar para o bebê na gravidez: toxoplasmose, "outras" infecções, rubéola, citomegalovírus (CMV) e herpes. IgG reagente costuma indicar infecção antiga ou imunidade; IgM reagente pode indicar infecção recente, mas muitas vezes é alarme falso. No Brasil, o pré-natal do SUS pede alguns desses exames, não o painel inteiro.
TORCH é uma sigla: Toxoplasmose, Outras infecções (como sífilis, HIV, parvovírus B19 ou catapora), Rubéola, Citomegalovírus e Herpes simples. Aqui no Brasil também se fala em STORCH, com o S de sífilis na frente. O exame procura anticorpos contra esses germes no sangue da gestante ou do recém-nascido[1]. Este guia mostra como ler o laudo e quais desses exames são de fato recomendados. Cada infecção tem a sua página; por exemplo, o nosso guia do exame de toxoplasmose explica esse exame em detalhe.
O que a sorologia TORCH avalia? Um laudo comentado
Não existe um painel TORCH único: cada laboratório escolhe os anticorpos, em geral IgG e IgM para toxoplasmose, rubéola, CMV e herpes. Sífilis, HIV e hepatites, pesquisadas em toda gestação, costumam aparecer como linhas separadas.
| Exame | Resultado | Valores de referência | Sinalização |
|---|---|---|---|
| Toxoplasmose, anticorpos IgG | < 3,0 UI/mL (não reagente) | Não reagente: inferior a 7,2 UI/mL | |
| Toxoplasmose, anticorpos IgM | Não reagente | Não reagente | |
| Rubéola, anticorpos IgG | 38 UI/mL (reagente) | Imune: igual ou superior a 10 UI/mL | |
| Citomegalovírus, anticorpos IgG | 4,6 U/mL (reagente) | Não reagente: inferior a 0,6 U/mL | R |
| Citomegalovírus, anticorpos IgM | Não reagente | Não reagente | |
| Herpes simples tipo 1, IgG tipo-específico | Reagente (índice 5,1) | Não reagente: inferior a 0,9 | R |
| Herpes simples tipo 2, IgG tipo-específico | Não reagente (índice 0,2) | Não reagente: inferior a 0,9 | |
| VDRL (sífilis) | Não reagente | Não reagente | |
| Anti-HIV 1 e 2 (antígeno e anticorpo) | Não reagente | Não reagente | |
| HBsAg (hepatite B) | Não reagente | Não reagente | |
| Anti-HCV (hepatite C) | Não reagente | Não reagente |
- Dois anticorpos por germe: o IgG mostra um contato antigo (ou uma vacina); o IgM é o anticorpo inicial de uma infecção nova. Leia os dois juntos. Os pontos de corte mudam de um laboratório para outro.
- Toxoplasmose IgG e IgM não reagentes: nunca teve a infecção, portanto não tem proteção: os cuidados de prevenção são importantes.
- Rubéola IgG reagente: protegida contra a rubéola, em geral pela vacina.
- CMV IgG reagente e IgM não reagente: o padrão mais comum de uma infecção antiga pelo CMV, antes desta gravidez. O "R" aqui não é um alarme.
- Herpes tipo 1 IgG reagente: infecção antiga pelo herpes simples tipo 1, quase sempre o herpes labial.
- VDRL, anti-HIV, HBsAg e anti-HCV não reagentes: são os exames de triagem que o Ministério da Saúde lista para o pré-natal[20][21].
Recebeu um laudo de sorologia cheio de IgG, IgM e "reagente"? O BloodSense lê o laudo completo com você, linha por linha, e lista as perguntas que valem a pena levar para a próxima consulta do pré-natal.
Entender minha sorologia TORCHQuais são as infecções TORCH e o que cada exame mostra?
| Infecção | Exame habitual | O que ele mostra | Guia completo |
|---|---|---|---|
| Toxoplasmose | IgG e IgM para toxoplasmose, avidez se o IgM for reagente | Infecção antiga (só IgG) ou possível infecção recente; o IgM pode continuar reagente por até 18 meses[10] | Exame de toxoplasmose |
| Sífilis ("outras") | Teste rápido de sífilis e/ou VDRL | Triagem na primeira consulta e no terceiro trimestre[20] | Exame VDRL |
| HIV ("outras") | Teste rápido ou anti-HIV de laboratório | Oferecido na primeira consulta e no terceiro trimestre[20] | Resultado do exame de HIV |
| Hepatite B ("outras") | HBsAg | Na primeira consulta e no terceiro trimestre[20] | Exame HBsAg |
| Hepatite C ("outras") | Teste rápido anti-HCV | Listado entre os exames do pré-natal do Ministério da Saúde[21] | Anti-HCV reagente |
| Parvovírus B19 ("outras") | IgG e IgM para parvovírus | Feito após contato ou sintomas; a maioria dos adultos já é imune[15] | Pergunte ao seu médico |
| Catapora ("outras") | IgG para varicela | Verifica a imunidade quando não há registro de catapora ou de vacina[16] | Catapora (varicela) |
| Rubéola | IgG para rubéola | Imune ou não; IgM só se houver suspeita de contato recente[8] | Pergunte ao seu médico |
| Citomegalovírus | IgG e IgM para CMV, avidez se preciso | Infecção antiga ou recente; fora da rotina do pré-natal[20] | Citomegalovírus (CMV) |
| Herpes simples | IgG tipo-específico para herpes 1 e 2 | Infecção antiga; o IgM não é recomendado[14] | Herpes |
Quais são os exames de sorologia importantes para gestantes no Brasil?
Não o pacote completo. O caderno de pré-natal de baixo risco do Ministério da Saúde lista, para a primeira consulta, toxoplasmose IgM e IgG, teste rápido de sífilis e/ou VDRL, teste rápido e anti-HIV e HBsAg para hepatite B[20]. A página atual do Ministério inclui também o teste rápido de hepatite C, e pela Rede Cegonha a gestante tem direito aos testes rápidos de sífilis, HIV e hepatite B logo no início do pré-natal[21].
- Frequente Sífilis e HIV: na primeira consulta e de novo no terceiro trimestre[20]. A sífilis também é pesquisada na internação para o parto[20].
- Frequente Toxoplasmose: diferente dos Estados Unidos, faz parte da rotina brasileira. Gestante suscetível (IgG e IgM não reagentes) repete a sorologia a cada 2 ou 3 meses e no parto[20].
- Frequente Imunidade contra rubéola e catapora: o caderno considera que a sorologia para rubéola pode ser oferecida para identificar as mulheres não imunes e vaciná-las depois do parto[20], porque a tríplice viral e a vacina da catapora não são aplicadas na gravidez[19].
- Possível Exames dirigidos: CMV ou parvovírus depois de um contato, uma febre, manchas na pele ou uma alteração no ultrassom.
- Raro Fora da rotina: para o CMV, a evidência disponível não embasa o rastreamento de rotina[20][12], e a pesquisa de anticorpos contra herpes tipo 2 na gravidez também não é recomendada como rotina[14].
Por que tanta dúvida sobre o painel completo? Uma revisão sistemática com 2.538 gestações testadas depois de um ultrassom alterado encontrou 26 infecções congênitas por CMV e nenhum caso confirmado de toxoplasmose, rubéola ou herpes congênitos; os autores pedem o fim do pedido automático de "TORCH"[2]. Um estudo hospitalar de 10 anos encontrou infecção primária em 0,8% das gestantes testadas por motivo fetal, contra 2,6% quando o motivo era materno, como febre ou alteração nas enzimas do fígado[3]. Especialistas em pediatria lembram ainda que o TORCH clássico pode deixar a sífilis de fora, e ela voltou a crescer[4].
Cada país tem a sua política. Nos Estados Unidos, a rotina inclui sífilis[5], hepatite B[6], HIV[7] e IgG para rubéola quando não há prova de imunidade[8], sem toxoplasmose. Na Inglaterra, o programa nacional oferece HIV, sífilis e hepatite B na primeira consulta[17], e a triagem da rubéola na gravidez acabou em 2016[18].
Como ler IgG e IgM na sorologia TORCH?
As mesmas quatro combinações valem para quase todas as infecções do painel. A equipe do pré-natal lê os resultados com a sua história e os exames anteriores.
IgG não reagente, IgM não reagente: nunca teve, não está protegida
Nenhum sinal de infecção antiga ou atual. Na rubéola, significa que você não é imune; um resultado indeterminado é tratado como não imune[9], e a vacina é oferecida depois do parto[8]. Na toxoplasmose ou no CMV, significa que vale a pena tomar cuidados simples: carne bem passada, frutas e verduras bem lavadas, e evitar contato com a saliva e a urina de crianças pequenas, que carregam muito CMV[13].
IgG reagente, IgM não reagente: infecção antiga ou imunidade
É o resultado mais comum. Indica uma infecção ou uma vacina antes desta gravidez. Na toxoplasmose, o Ministério da Saúde considera a gestante imune e não pede novas sorologias[20]. Na rubéola e na catapora, significa proteção. No CMV, tranquiliza, mas não é garantia: a infecção antiga não descarta a infecção do bebê[12]. Veja o nosso guia do exame de IgG para o significado geral desse anticorpo.
IgG não reagente, IgM reagente: infecção muito recente ou alarme falso
O IgM pode vir de uma infecção muito recente, antes de o IgG aparecer, mas alguns anticorpos IgM naturais reagem com o teste sem nenhuma infecção[11]. O passo seguinte habitual é uma segunda amostra duas a três semanas depois: se o IgG ficar reagente (soroconversão), a infecção é real e recente[12]. Mais sobre esse anticorpo no nosso guia do exame de IgM.
IgG reagente, IgM reagente: quando foi a infecção?
O IgM da toxoplasmose pode ser detectado por até 18 meses depois da infecção[10]. O teste de avidez do IgG ajuda a datar: os anticorpos se ligam com mais força com o passar dos meses. No Brasil, o caderno do Ministério orienta fazer a avidez automaticamente na mesma amostra quando IgG e IgM são reagentes[20]. Na toxoplasmose, avidez alta exclui infecção nos últimos 4 meses, e avidez baixa sugere infecção recente sem prová-la[11]. No CMV, IgM reagente, IgG reagente e avidez baixa apontam para uma infecção primária[12]. Como esses resultados são fáceis de interpretar mal, recomenda-se confirmar a toxoplasmose num laboratório de referência[10].
Herpes: só IgG tipo-específico
O IgM para herpes não é recomendado: não distingue o tipo 1 do tipo 2 e pode dar reagente numa recorrência[14]. O IgG tipo-específico ainda pode ajudar a identificar quem corre risco de pegar herpes genital na gravidez, por exemplo quando o parceiro tem e ela não[14].
Como se preparar para a sorologia TORCH?
A sorologia TORCH é uma coleta de sangue simples.
- Não precisa de jejum para exames de anticorpos, salvo se outros exames, como a glicemia de jejum, forem colhidos junto[20].
- Leve os exames anteriores, principalmente os de antes da gravidez: um IgG não reagente seguido de um IgG reagente é a prova mais clara de uma infecção nova.
- Leve a caderneta de vacinação com a tríplice viral e a vacina da catapora; a vacinação registrada vale como prova de imunidade[9][16].
- Conte sintomas ou contatos recentes: febre, manchas na pele, dor nas articulações ou contato com uma criança com doença de manchas.
Quando procurar um médico por causa do resultado?
Quando procurar um médico
- Emergência: ligue para o SAMU 192[22] em caso de sangramento vaginal intenso, dor forte na barriga, convulsão ou febre com confusão durante a gravidez.
- Em 24 a 48 horas se você está grávida e tem febre com manchas na pele, ou teve contato com alguém com rubéola, catapora ou parvovírus e não sabe se é imune[15].
- Na próxima consulta para um IgM reagente, uma avidez baixa, um teste de sífilis reagente ou um IgG não reagente para rubéola ou catapora.
Perguntas para fazer ao médico
- Quais infecções estão sendo pesquisadas no meu caso, e por quê?
- Sou imune à rubéola e à catapora? Devo me vacinar depois do parto?
- Meu IgM veio reagente: preciso repetir o exame ou fazer a avidez, e quando?
- Esse resultado deve ser confirmado num laboratório de referência?
- Se não sou imune à toxoplasmose, de quanto em quanto tempo vou repetir a sorologia?
- Vou repetir os testes de sífilis e HIV no terceiro trimestre?
Perguntas frequentes
O que significa sorologia TORCH não reagente?
Significa que não foram encontrados anticorpos contra as infecções pesquisadas: nenhum sinal de infecção antiga ou atual. Também significa ausência de imunidade: na rubéola, a vacina é oferecida depois do parto[8], e na toxoplasmose e no CMV os cuidados do dia a dia contam.
Devo fazer a sorologia TORCH antes de engravidar?
Verificar a imunidade contra rubéola e catapora antes da gravidez é útil, porque as duas vacinas precisam ser dadas antes da concepção: deve-se evitar engravidar por 4 semanas depois da tríplice viral[9].
A sorologia TORCH é feita depois de um aborto espontâneo?
Os painéis de anticorpos raramente explicam uma perda isolada, mas o teste de sífilis é recomendado depois de qualquer morte fetal após 20 semanas[5].
A sorologia TORCH é usada no recém-nascido?
Sim, quando o bebê tem sinais de infecção congênita[1]. No CMV, o recém-nascido é testado por PCR na saliva, na urina ou no sangue nas primeiras 2 a 3 semanas de vida, porque os exames de anticorpos não diagnosticam o CMV congênito[13].
Artigos relacionados
- Exame de toxoplasmoseIgG, IgM e avidez da toxoplasmose, em detalhe.
- Citomegalovírus (CMV)Sintomas, leitura de IgG e IgM e o que o CMV significa na gravidez.
- SífilisFases, exames de sangue e tratamento.
- Exame do cotonete na gravidezO exame do fim da gestação e o que um resultado positivo significa.
- Curva glicêmica (TOTG)O outro exame-chave do pré-natal, entre 24 e 28 semanas.
Referências
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- Ministério da Saúde. SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. gov.br/saude (acesso em 1º de novembro de 2026)
Este artigo traz informações gerais de saúde. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Na gravidez, em caso de sangramento intenso, dor forte ou febre com confusão, procure atendimento de emergência sem esperar.



