Sífilis: sintomas em cada fase, exames, tratamento e se tem cura

O essencial
A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível causada por uma bactéria e tem cura com antibiótico, mas, se passar despercebida, pode atingir o cérebro, os olhos, o coração e o bebê na gravidez. Muitas vezes começa com uma ferida que não dói e some sozinha. O diagnóstico usa dois tipos de exame lidos juntos: um teste treponêmico (como o teste rápido) e um não treponêmico (VDRL ou RPR). Procure atendimento logo diante de uma ferida nova ou de manchas na palma das mãos e na sola dos pés; perda súbita da visão ou da audição é emergência.
Sífilis: o que é e como se pega?
A sífilis é causada pela bactéria Treponema pallidum. Ela passa pela relação sexual oral, vaginal ou anal sem preservativo, principalmente com contato com as feridas, e da gestante para o bebê[9]. Não se pega em assento de vaso sanitário nem em piscina[1].
- No mundo: cerca de 8 milhões de adultos de 15 a 49 anos se infectaram em 2022[5].
- No Brasil: 256.830 casos de sífilis adquirida foram notificados em 2024, uma taxa de 120,8 por 100 mil habitantes; a sífilis em gestantes chegou a 35,4 casos por 1.000 nascidos vivos[11].
- Sífilis congênita: 24.443 casos em 2024, 2,3% menos que em 2023, e 183 mortes de bebês com menos de 1 ano[11].
Quais são os sintomas da sífilis em cada fase?
Sem tratamento, a sífilis passa por fases. Os sinais das duas primeiras desaparecem sozinhos, e é por isso que ela engana tanto[1].
- Sífilis primária. Uma ferida, geralmente única e sem dor, no local onde a bactéria entrou: pênis, vulva, vagina, colo do útero, ânus, boca ou outra parte da pele. É o chamado cancro duro, e surge entre 10 e 90 dias depois do contágio[9]. Dura de 3 a 6 semanas[1]; sumir não quer dizer que curou[9].
- Sífilis secundária. Manchas no corpo que geralmente não coçam, inclusive na palma das mãos e na sola dos pés, de seis semanas a seis meses depois da ferida, com febre, mal-estar, dor de cabeça e ínguas[9].
- Sífilis latente. Nenhum sintoma. É chamada de recente quando a infecção tem até um ano, e de tardia depois disso[9].
- Sífilis terciária. Pode surgir de 1 a 40 anos depois do início da infecção, com lesões na pele, nos ossos, no coração e nos vasos e no sistema nervoso, e pode levar à morte[9].
Em qualquer fase, a bactéria pode atingir o sistema nervoso (dor de cabeça forte, fraqueza, demência), os olhos (dor, vermelhidão, perda de visão) ou os ouvidos (perda de audição, zumbido no ouvido, tontura)[1].
Quando procurar um médico?
Quando procurar atendimento
- Emergência: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro em caso de perda súbita da visão ou da audição, dor de cabeça forte com confusão, fraqueza ou convulsão: a sífilis pode atingir os olhos, os ouvidos e o sistema nervoso[1].
- Em 24 a 48 horas se aparecer uma ferida nova nos genitais, no ânus ou na boca, mesmo sem dor, manchas na palma das mãos ou na sola dos pés, se uma parceria contar que tem sífilis ou se um teste der reagente na gravidez[9][10].
- Na próxima consulta para o exame de rotina, que o Ministério da Saúde recomenda pelo menos uma vez por ano para quem tem vida sexual ativa[9], ou se você usa PrEP ou planeja engravidar[1].
O que causa a sífilis e quem corre mais risco?
As feridas podem ficar escondidas na vagina, no reto ou na boca, então a parceria pode não saber que está infectada. Ter tido sífilis não protege: dá para pegar de novo[1][9].
- Frequente Homens que fazem sexo com homens, pessoas vivendo com HIV e quem usa PrEP, para quem o teste regular é recomendado[1].
- Frequente Sexo sem camisinha ou parceria com teste reagente; a camisinha reduz o risco, mas pode não cobrir todas as feridas[1].
- Possível Ter tido outra IST bacteriana, como clamídia ou gonorreia, nos últimos 12 meses, critério que o CDC americano usa para oferecer a prevenção com doxiciclina[7].
- Raro Infecção passada da mãe para o bebê na gravidez, que pode causar morte fetal, parto prematuro ou problemas graves no recém-nascido[1].
Como é feito o diagnóstico da sífilis e como ler os exames?
No SUS, a investigação costuma começar pelo teste rápido, com resultado em até 30 minutos. Um teste rápido reagente precisa ser confirmado por exame de sangue no laboratório, colhido de preferência no mesmo dia em que o tratamento começa[9]. Não é preciso jejum[8]. Um exame sozinho não basta: o diagnóstico usa dois tipos[2].
- Testes treponêmicos (teste rápido, ELISA, quimioluminescência, TPHA, FTA-Abs) detectam anticorpos contra a própria bactéria[10] e costumam continuar reagentes pelo resto da vida[2].
- Testes não treponêmicos (VDRL, RPR) não são específicos da sífilis; a titulação sobe com a infecção ativa e cai depois do tratamento[2].
Juntos, eles separam uma infecção sem tratamento de uma antiga, já tratada[6]. Veja um laudo fictício que segue essa ordem: primeiro o treponêmico, depois o VDRL com titulação.
| Exame | Resultado | Valor de referência | Alerta |
|---|---|---|---|
| Anticorpos anti-Treponema pallidum (quimioluminescência) | Reagente | Não reagente | A |
| VDRL | Reagente | Não reagente | A |
| VDRL, titulação | 1:32 | Não reagente | A |
| Anti-HIV 1 e 2 (antígeno e anticorpo) | Não reagente | Não reagente |
- Treponêmico: reagente quer dizer contato com a sífilis em algum momento, agora ou no passado[8].
- VDRL reagente: junto com a linha 1, combina com uma infecção que precisa de tratamento, a não ser que você já tenha sido tratado e haja titulações antigas para comparar[2].
- Titulação 1:32: a maior diluição do seu sangue que ainda reage; é o número usado para acompanhar o tratamento[2].
- HIV: todos com sífilis primária ou secundária devem fazer o teste[3]; veja nosso guia sobre o resultado do exame de HIV.
Reagente, não reagente, 1:32: o BloodSense lê o seu laudo inteiro, linha por linha, em linguagem simples, para você saber o que perguntar na consulta.
Entender meu laudo| Treponêmico | VDRL ou RPR | Significado mais comum |
|---|---|---|
| Reagente | Reagente | Infecção atual, ou antiga cuja titulação ainda não caiu[2]. |
| Reagente | Não reagente | Um segundo teste treponêmico decide: reagente indica infecção passada ou não tratada; não reagente, triagem falso-positiva[2]. |
| Não reagente | Reagente | Muitas vezes um VDRL falso-positivo, visto com HIV, doença autoimune como o lúpus, vacinação, uso de drogas injetáveis, gravidez ou idade avançada[2]. |
| Não reagente | Não reagente | Sem sinal de sífilis, a não ser que a exposição tenha sido muito recente: os anticorpos levam algumas semanas para aparecer[8]. |
Compare a titulação sempre com o mesmo método: quem fez o diagnóstico com VDRL segue com VDRL, e com RPR segue com RPR. Variação de uma só diluição (de 1:16 para 1:8, por exemplo) pede cautela; o que conta é uma mudança de duas diluições, como de 1:32 para 1:8[10]. Se houver suspeita de neurossífilis, pode ser preciso examinar o líquor[2]. O exame isolado é explicado no nosso guia do VDRL, e o guia de exames de IST lista as infecções testadas na mesma consulta.
Como é o acompanhamento depois do tratamento?
A cura é acompanhada pela titulação do VDRL ou RPR, e não pelo teste treponêmico, que costuma continuar reagente[2].
- No Brasil, o teste não treponêmico é repetido a cada três meses até completar 12 meses (3, 6, 9 e 12 meses) e, na gestante, todo mês[10].
- Resposta adequada: exame não reagente ou queda de duas diluições em até 6 meses na sífilis recente, e em até 12 meses na tardia[10].
- Aumento de duas diluições ou mais (de 1:16 para 1:64, por exemplo) ou sintomas que voltam indicam reinfecção ou reativação e pedem novo tratamento[10].
- VDRL que continua reagente em título baixo depois de tratamento adequado e de queda de pelo menos duas diluições é a “cicatriz sorológica”, e não falha do tratamento[10].
Sífilis tem cura? Como é o tratamento?
Tem cura. O tratamento de escolha é a penicilina benzatina, aplicada na unidade de saúde, e o número de doses depende da fase[9].
- Sífilis recente (primária, secundária, latente recente): dose única de benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular, 1,2 milhão em cada glúteo[10].
- Sífilis tardia ou de duração ignorada: uma aplicação por semana durante 3 semanas, 7,2 milhões UI no total[10][4].
- Alergia à penicilina (fora da gravidez): doxiciclina por via oral, por 15 dias na sífilis recente e 30 dias na tardia[10]; a azitromicina não deve ser usada[3].
- Gravidez: só a penicilina tem eficácia comprovada; a gestante com alergia passa por dessensibilização e depois é tratada[2].
Nas 24 horas depois da primeira dose podem aparecer febre, dor de cabeça, dor nas juntas e piora das manchas: é a reação de Jarisch-Herxheimer, que passa sozinha e não obriga a interromper o tratamento[10]; ela não é alergia à penicilina[2]. O antibiótico cura a infecção, mas pode não desfazer lesões já instaladas[1]. Um terço das parcerias de quem tem sífilis recente se infecta em até 30 dias; quem teve contato nos 90 dias anteriores deve receber uma dose de penicilina benzatina mesmo com teste negativo, e todas as parcerias devem ser testadas[10][2].
Como prevenir a sífilis e proteger a gravidez?
- Use camisinha em todas as relações[1].
- Faça o teste pelo menos uma vez por ano se tem vida sexual ativa, e sempre depois de uma relação sem preservativo ou do diagnóstico de outra IST[9][10].
- Homens que fazem sexo com homens e mulheres trans com IST bacteriana nos últimos 12 meses podem perguntar sobre a doxi-PEP: doxiciclina tomada até 72 horas depois do sexo reduziu a sífilis em mais de 70% nos estudos[7].
- Na gravidez, o teste é feito na primeira consulta de pré-natal, no início do terceiro trimestre (28ª semana) e no parto ou em caso de aborto[10]. Sem tratamento, a sífilis prejudica a gestação em 50% a 80% dos casos[5].
Perguntas para fazer ao médico
- Meus exames indicam qual fase da sífilis?
- Quais exames foram feitos e qual é a minha titulação?
- Quantas doses vou tomar e quando repito o VDRL?
- Quais parcerias precisam ser testadas e tratadas?
- Preciso fazer teste de HIV e de outras IST, ou exame dos olhos ou da audição?
Perguntas frequentes
A sífilis tem cura?
Sim, em qualquer fase, embora o antibiótico não desfaça lesões que já tenham atingido órgãos[1].
Por que o teste rápido continua positivo depois do tratamento?
Os testes treponêmicos podem continuar reagentes mesmo depois da cura e não mostram se a infecção está ativa; quem acompanha é a titulação do VDRL ou RPR[9][2].
Posso ter sífilis com exame negativo?
Sim, logo no começo: os anticorpos levam algumas semanas para se formar, e pode ser preciso repetir o teste[8].
A sífilis tem relação com o HIV?
As duas passam do mesmo jeito, por isso quem faz o teste de uma deve fazer o da outra[3]. A fase avançada do HIV é explicada no nosso artigo sobre a aids.
Artigos relacionados
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- Todas as doençasNossos guias sobre doenças e seus exames
- CDC. About Syphilis. 2025. cdc.gov (acesso em 31 out. 2026)
- CDC. Syphilis. STI Treatment Guidelines, 2021. cdc.gov (acesso em 31 out. 2026)
- CDC. Primary and Secondary Syphilis. STI Treatment Guidelines, 2021. cdc.gov (acesso em 31 out. 2026)
- CDC. Latent Syphilis. STI Treatment Guidelines, 2021. cdc.gov (acesso em 31 out. 2026)
- Organização Mundial da Saúde. Syphilis. Fact sheet, 2025. who.int (acesso em 31 out. 2026)
- Papp JR, Park IU, Fakile Y, et al. CDC Laboratory Recommendations for Syphilis Testing, United States, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(1):1-32. doi:10.15585/mmwr.rr7301a1 (acesso em 31 out. 2026)
- Bachmann LH, Barbee LA, Chan P, et al. CDC Clinical Guidelines on the Use of Doxycycline Postexposure Prophylaxis for Bacterial STI Prevention, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(2):1-8. doi:10.15585/mmwr.rr7302a1 (acesso em 31 out. 2026)
- MedlinePlus. Syphilis Tests. medlineplus.gov (acesso em 31 out. 2026)
- Ministério da Saúde. Sífilis. Saúde de A a Z. gov.br/saude (acesso em 31 out. 2026)
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília, 2022. gov.br/aids (acesso em 31 out. 2026)
- Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico de Sífilis, número especial, outubro de 2025. gov.br/saude (acesso em 31 out. 2026)
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