A demência não é uma doença única: é o nome dado a uma perda duradoura de memória, raciocínio ou julgamento, forte o bastante para atrapalhar a vida do dia a dia. Todos os tipos de demência têm isso em comum, mas diferem no que atingem primeiro, na velocidade com que avançam e no que ajuda. Vários problemas do cérebro podem produzir esse quadro, e alguns problemas tratáveis conseguem imitá-lo tão bem que enganam uma consulta apressada. Neste guia você vai entender o que é demência, quais são os primeiros sinais, como os principais tipos se diferenciam, como separar o envelhecimento normal do comprometimento cognitivo leve e da demência, quais causas reversíveis precisam ser descartadas com exames, quais fatores de risco podem ser mudados e o que os tratamentos atuais realmente oferecem.

O que é demência, e o que ela não é

Demência descreve um padrão, não uma causa. O médico usa a palavra quando uma pessoa tem um declínio mensurável e persistente em pelo menos duas áreas do pensamento — memória, linguagem, atenção, noção de espaço, planejamento ou julgamento social — grave o bastante para atrapalhar a vida independente.

Dizer que alguém “tem demência” é um pouco como dizer que alguém “tem febre”: descreve o que está acontecendo sem explicar por quê. E o porquê define a evolução, o tratamento e, em uma pequena parte dos casos, se o quadro pode ser revertido. Por isso vale a pena diferenciar os tipos de demência. O Ministério da Saúde resume assim: demência é uma condição que afeta o cérebro e causa dificuldades de memória, atenção, linguagem, raciocínio e alterações de comportamento, que tendem a piorar com o tempo.

Demência não faz parte do envelhecimento normal

A maioria das pessoas com mais de 80 anos não tem demência. A idade é o fator de risco mais forte, mas envelhecer, sozinho, não causa demência. Tratar a demência como o “preço” de uma vida longa só atrasa a avaliação.

Envelhecimento normal, comprometimento cognitivo leve e demência

A mudança normal da idade é assim: você demora mais para lembrar um nome, mas ele volta depois; às vezes perde as chaves; passa a precisar de uma lista que antes não precisava. A independência continua intacta.

O comprometimento cognitivo leve fica no meio do caminho. O raciocínio caiu de forma mensurável, o suficiente para um familiar perceber e para aparecer nos testes, mas a pessoa continua independente. Ele não garante que a demência virá: algumas pessoas ficam estáveis por anos, outras melhoram quando uma causa por trás é tratada, e outras evoluem.

A demência é diagnosticada quando o declínio corrói a independência — contas esquecidas, remédios tomados em dobro ou esquecidos, caminhos conhecidos que viram um labirinto, cozinhar que se torna perigoso. A linha entre os três é um julgamento clínico apoiado em testes, não uma nota única.

Quando procurar um médico

  • Alguém próximo percebeu mudanças repetidas na memória, na linguagem ou no julgamento ao longo de meses, e não de dias.
  • A mesma pergunta é feita duas vezes na mesma conversa, ou o controle do dinheiro e dos remédios começou a falhar.
  • A personalidade ou o comportamento social mudaram de forma clara, ou a pessoa se perdeu num lugar conhecido.
  • A confusão apareceu de repente, em horas ou dias — motivo para procurar atendimento urgente (SAMU 192), porque confusão súbita costuma ser delirium causado por infecção, remédio ou problema metabólico, e não demência.

No SUS, o primeiro passo costuma ser a Unidade Básica de Saúde (UBS), onde o médico de família pode iniciar a investigação e encaminhar para geriatra, neurologista ou psiquiatra quando necessário. Quem tem plano de saúde pode procurar diretamente um desses especialistas.

Os principais tipos de demência, lado a lado

Diferenciar os tipos de demência tem utilidade prática. O tipo define quais sintomas vêm depois, quais remédios ajudam e — em um tipo em especial — quais remédios podem fazer mal. A tabela compara as quatro causas mais comuns e a demência mista, que é mais frequente em cérebros idosos do que qualquer diagnóstico “puro”.

TipoPrimeiros sinais habituaisO que costuma chamar atençãoObservação prática
Doença de AlzheimerDificuldade de guardar informações novas; perguntas repetidasEvolução lenta e constante; dificuldade de achar palavras e desorientação vêm depois da memóriaÉ a causa isolada mais comum (60% a 70% dos casos, segundo o Ministério da Saúde); a boa educação social costuma se manter no início e esconde o tamanho do problema
Demência vascularRaciocínio lento, dificuldade de planejar, pouca concentraçãoPiora em degraus após AVCs, ou gradual com lesão dos pequenos vasos; marcha e equilíbrio afetados cedoA memória muitas vezes é poupada no começo; controlar pressão, diabetes e colesterol é central
Demência com corpos de LewyAtenção que oscila, alucinações visuais detalhadas, “encenar” os sonhos dormindoRigidez e lentidão parecidas com as do Parkinson; a atenção varia de hora em horaGrande sensibilidade a muitos antipsicóticos: acertar o tipo é uma questão de segurança
Demência frontotemporalMudança de personalidade, perda de empatia ou de freio, ou perda progressiva da linguagemA memória pode parecer normal no início; a mudança está no comportamento ou na falaCostuma começar entre 45 e 65 anos e é muitas vezes confundida com doença psiquiátrica
Demência mistaUma mistura, geralmente perda de memória do tipo Alzheimer com lentidão vascularOs sintomas não se encaixam num quadro de livroProvavelmente a situação mais comum depois dos 80 anos; tratar a parte vascular continua importante

Doença de Alzheimer, a causa mais comum

A doença de Alzheimer responde pela maior fatia dos casos e tem biologia, marcadores e tratamentos novos próprios, por isso merece um artigo inteiro. Quem quiser esse detalhe pode ler nosso guia completo sobre a doença de Alzheimer. Essa é também a resposta curta a uma dúvida frequente: Alzheimer é uma das doenças que causam demência; demência é o nome do quadro.

Onde entra a doença de Parkinson

A demência com corpos de Lewy e a demência que pode surgir mais tarde na doença de Parkinson envolvem os mesmos depósitos de proteína e se sobrepõem bastante. A diferença está no tempo: quando os problemas de movimento claramente vêm primeiro e as mudanças de raciocínio aparecem um ano ou mais depois, fala-se em demência da doença de Parkinson. Famílias que enfrentam tremor e rigidez junto com alterações cognitivas costumam consultar também nosso panorama da doença de Parkinson.

Causas mais raras que vale conhecer

Tipos menos comuns de demência surgem após traumatismos cranianos repetidos, infecção pelo HIV sem tratamento, sífilis em fase tardia e algumas inflamações autoimunes do cérebro. Várias delas são tratáveis, e é por isso que uma boa avaliação não assume logo a resposta mais comum.

Causas reversíveis e tratáveis que a investigação precisa descartar

É aqui que o paciente tem mais a ganhar. O próprio Ministério da Saúde lembra que, embora poucos casos sejam reversíveis, identificá-los é muito importante. Uma parte das pessoas encaminhadas por problemas de memória tem um fator que pode ser corrigido, e mesmo quando existe uma doença degenerativa, um problema de tireoide sem tratamento ou um remédio que dá sono podem fazer o quadro parecer pior do que é. Corrigir esses fatores não cura a demência, mas devolve função de verdade.

FatorComo pode se apresentarExames habituais
Doença da tireoideRaciocínio lento, desânimo, cansaço, apatiaTSH, às vezes T4 livre
Falta de vitamina B12 ou de ácido fólicoPouca concentração, irritabilidade, formigamento nos pés, andar instávelVitamina B12, ácido fólico, hemograma completo, às vezes ácido metilmalônico
DepressãoQueixas de atenção e memória com tristeza, isolamento, sono ruimQuestionário de humor estruturado e entrevista clínica
Efeito de remédiosPensamento “nublado”, sonolência, desequilíbrio depois de uma receita novaRevisão de receitas, remédios sem prescrição e suplementos
Apneia obstrutiva do sonoSonolência de dia, dor de cabeça ao acordar, ronco, pouca atençãoQuestionário de sono e polissonografia
Hidrocefalia de pressão normalAndar arrastado, urgência para urinar e alterações do raciocínio juntosExame de imagem do cérebro e, em casos escolhidos, retirada de líquor como teste
ÁlcoolFalhas de memória, pouco planejamento, desequilíbrio, má nutriçãoHistória de consumo, exames do fígado (TGO, TGP, gama-GT), avaliação da tiamina
Problemas metabólicos e de órgãosConfusão, sonolência, atenção que oscilaSódio, cálcio, glicemia, função dos rins e do fígado
InfecçõesAlteração cognitiva com outros sinais gerais ou neurológicosTestes para sífilis e HIV quando a história sugere

Os exames de sangue por trás dessas exclusões

Quase toda essa lista é checada com um painel curto que o médico da atenção primária pode pedir numa única consulta. Ele inclui o exame de TSH da tireoide, porque a tireoide lenta produz lentidão e apatia que se parecem muito com o início de uma demência; você também pode ler um guia simples sobre hipotireoidismo. Os médicos pedem também a dosagem de vitamina B12 junto com o ácido fólico, já que a deficiência atinge os nervos e o raciocínio ao mesmo tempo e é fácil de corrigir.

Os exames bioquímicos medem o cálcio total no sangue, o sódio e a glicemia — qualquer um deles atrapalha o raciocínio quando está muito fora da faixa — e avaliam o resultado da creatinina junto com as enzimas do fígado, porque órgãos falhando deixam acumular substâncias que turvam o cérebro. A investigação inclui ainda um hemograma completo, que pode mostrar anemia ou as hemácias aumentadas típicas da falta de B12, e, quando a história aponta nessa direção, um teste de triagem para sífilis (no Brasil, muitas vezes o VDRL) ou o teste de HIV.

Nenhum exame de sangue, sozinho, diagnostica qualquer tipo de demência. Ele estreita as possibilidades e encontra o que é corrigível, e por isso pular essa etapa é um erro. No laudo, lembre que os valores de referência variam de um laboratório para outro: um resultado fora da faixa não significa, por si só, uma doença.

A depressão merece uma linha própria

A depressão em idosos produz dificuldade real de atenção e de memória, e muitas vezes convive com o início de uma demência em vez de substituí-la como explicação. Uma boa avaliação sempre investiga a depressão e seus sintomas físicos antes de concluir que as alterações do raciocínio são puramente degenerativas.

Como os médicos diagnosticam a demência

Não existe um exame único para nenhum tipo de demência. Um bom médico gasta tanto tempo na história quanto em qualquer exame de imagem, porque a informação mais valiosa é uma linha do tempo contada por alguém que conhece bem a pessoa: o que mudou, quando, em que ordem e com que velocidade. Início súbito aponta para outra coisa. Piora em degraus sugere doença vascular. Comportamento mudando antes da memória sugere um processo frontotemporal.

Testes breves feitos no consultório servem para rastrear o problema e acompanhar a evolução. Quando o quadro não está claro, a avaliação neuropsicológica completa mostra quais habilidades estão afetadas — em geral, mais informativa do que uma nota global.

Entre os exames, o painel de causas reversíveis vem primeiro, seguido de imagem do cérebro, geralmente ressonância magnética, que procura AVCs, lesão dos pequenos vasos, tumores, sangramentos e hidrocefalia, mas que é fraca para separar os tipos de demência no início. Exames de imagem especializados e marcadores específicos no sangue ou no líquor podem apoiar o diagnóstico do tipo em ambulatórios de memória, mas continuam sendo ferramentas de especialista, não exames de rotina. No SUS, o tratamento da doença de Alzheimer segue um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) próprio, atualizado pelo Ministério da Saúde em novembro de 2025.

Fatores de risco que você pode mudar

Idade, histórico familiar e algumas variantes genéticas não mudam. Uma parte surpreendente do resto, sim. Uma revisão internacional de especialistas publicada em 2024 identificou catorze fatores de risco que, juntos, se ligam a quase metade dos casos de demência no mundo — ou seja, se todos fossem eliminados numa população, essa fatia poderia, em teoria, ser adiada ou evitada. Para o Brasil, o Ministério da Saúde estima que quase 60% dos casos poderiam ser prevenidos com o controle desses 14 fatores. Ninguém recebe garantia individual, mas as evidências apontam numa só direção.

  • Perda auditiva e perda visual sem tratamento.
  • Pressão alta na meia-idade, colesterol LDL alto, diabetes e obesidade.
  • Tabagismo, consumo excessivo de álcool e sedentarismo.
  • Depressão, isolamento social e pouca escolaridade no início da vida.
  • Traumatismo craniano e exposição à poluição do ar.
  • Na prática: atividade aeróbica, aparelho auditivo quando indicado, vida social, tratamento da apneia do sono e álcool com moderação.

O grupo vascular oferece os ganhos mais claros, porque esses fatores são medidos e tratáveis. Vale a pena entender bem a pressão alta e o seu tratamento, já que controlar a pressão na meia-idade protege os pequenos vasos que vários tipos de demência danificam. Alguns médicos também dosam a homocisteína no sangue, que sobe quando as vitaminas do complexo B estão baixas, embora baixá-la não tenha demonstrado prevenir demência.

O que os tratamentos atuais fazem, e o que não fazem

Aqui, honestidade vale mais do que otimismo. Nenhum tratamento aprovado devolve a função cognitiva perdida, e nenhum interrompe qualquer tipo de demência. O SUS oferece tratamento com medicamentos e cuidado multiprofissional, de acordo com o tipo de demência e as necessidades de cada pessoa.

Remédios para os sintomas

Os inibidores da colinesterase e a memantina trazem melhoras modestas no raciocínio, na funcionalidade ou no comportamento de algumas pessoas, principalmente na doença de Alzheimer e na demência com corpos de Lewy. O benefício é real, mas pequeno, e efeitos colaterais como enjoo, coração lento ou sonhos muito vívidos precisam de acompanhamento. Vale tentar, e vale suspender se nada mudar — sempre com orientação médica.

Anticorpos que modificam a doença

Uma classe mais nova de anticorpos aplicados na veia remove a proteína amiloide e desacelera um pouco o declínio na fase inicial da doença de Alzheimer, especificamente. Eles não servem para os tipos vascular, com corpos de Lewy ou frontotemporal, exigem confirmação da biologia amiloide e ressonâncias de controle, porque podem causar inchaço e pequenos sangramentos no cérebro, e desaceleram o declínio em vez de pará-lo.

Tratar a causa por trás da síndrome

Na demência vascular, o tratamento é o controle firme da pressão, do colesterol, do diabetes e da fibrilação atrial. Nos danos causados pelo álcool, parar de beber e repor a tiamina pode trazer recuperação verdadeira. Na hidrocefalia de pressão normal, uma válvula (derivação) ajuda pacientes selecionados. É o argumento para descobrir qual tipo de demência está presente em vez de parar no rótulo.

Abordagens sem remédio

Rotina estruturada, ambiente simplificado, exercício, terapia ocupacional, música e orientação ao cuidador funcionam melhor do que se espera contra agitação, sono ruim e apatia. Procurar o gatilho de um comportamento — dor, prisão de ventre, infecção, tédio, medo — é mais seguro e mais eficaz do que sedar.

Viver bem depois do diagnóstico

Um diagnóstico não acaba com a autonomia da pessoa. Muitos vivem anos com sentido, e a forma como as pessoas ao redor reagem molda essa experiência.

Documentos, segurança e independência

Enquanto a pessoa ainda consegue expressar suas vontades, vale registrar com o médico suas diretivas antecipadas de vontade e organizar, com orientação de um advogado ou cartório, quem poderá cuidar das decisões financeiras e legais no futuro. Fazer isso cedo é respeito, não pessimismo.

  • Simplifique os remédios com uma caixa organizadora semanal em vez de tirar a tarefa da pessoa.
  • Converse cedo sobre dirigir, com avaliação formal sempre que possível, para que a decisão não pareça uma traição da família.
  • Reduza os riscos dentro de casa e mantenha um ritmo diário constante, porque a previsibilidade diminui a ansiedade melhor do que qualquer sistema de lembretes.
  • Deixe a pessoa fazer tudo o que ainda consegue, mesmo devagar. Assumir as tarefas cedo demais acelera a perda.

Comunicação e saúde de quem cuida

Frases curtas, uma pergunta de cada vez e pausas sem pressa funcionam melhor do que repetir em voz alta. Corrigir um erro de fato raramente ajuda; responder à emoção por trás dele geralmente ajuda. Comportamento de pessoas com demência muda ao longo da doença, e nunca fale da pessoa em terceira pessoa na frente dela.

Exaustão, depressão e adoecimento do cuidador são previsíveis e são o motivo mais comum para a pessoa ir para uma instituição de longa permanência antes do necessário. Pausas para descanso, grupos de apoio e tratar a saúde do cuidador como prioridade médica fazem parte de um bom cuidado da demência, não são extras opcionais.

Avanços científicos recentes

A pesquisa sobre os tipos de demência avançou rápido, mas a maior parte do progresso está na prevenção, não na cura. Veja o que os trabalhos recentes acrescentam, em linguagem simples.

Quase metade do risco global pode ser modificado

Uma grande comissão internacional de especialistas publicada em 2024 ampliou para catorze a lista de fatores de risco de demência, incluindo a perda visual sem tratamento e o colesterol LDL alto. O que isso significa para você: as coisas comuns que o seu médico já cobra — pressão, colesterol, aparelho auditivo, exame de vista, exercício, não fumar — são a proteção do cérebro com mais evidência disponível. É uma modelagem para populações, não uma garantia pessoal.

Vitamina B12 baixa é comum em idosos e fácil de passar despercebida

Uma revisão de 2025 concluiu que a deficiência de vitamina B12 em idosos é comum e muitas vezes não diagnosticada, que ela se associa a declínio cognitivo, humor baixo, marcha instável e quedas, e que o exame de sangue padrão nem sempre é sensível o bastante sozinho. A melhora após o tratamento foi mais clara nos casos iniciais. O que isso significa para você: se um familiar está sendo avaliado por problemas de memória, a B12 deve estar na investigação, e um resultado limítrofe merece um segundo olhar. Foi uma revisão narrativa, um resumo de estudos existentes, e não um ensaio novo.

A lesão dos pequenos vasos está por trás de mais demência do que se imagina

Uma revisão de 2023 sobre a doença dos pequenos vasos cerebrais — um dano gradual nas artérias minúsculas no interior do cérebro — relatou que ela é encontrada em mais da metade das pessoas com 65 anos ou mais quando o cérebro é examinado após a morte, e que ela responde pela maior parte das contribuições vasculares para a demência, tendo a pressão alta como principal causa modificável. O que isso significa para você: tratar a pressão na meia-idade é tratar o cérebro, e esse dano se acumula em silêncio por anos antes dos sintomas.

O álcool aumenta o risco de demência, e parte do dano pode melhorar

Uma revisão de 2024 de décadas de pesquisa concluiu que beber muito de forma contínua acelera o envelhecimento do cérebro e aumenta o risco de demência em geral, embora não especificamente o de Alzheimer, e destacou uma diferença animadora: parte do dano cerebral causado pelo álcool se recupera com abstinência duradoura, o que não acontece nas doenças degenerativas. O que isso significa para você: reduzir vale a pena em qualquer idade. Foi uma revisão narrativa, que descreve padrões e não prova causa.

Glossário

TermoDefinição
DemênciaTermo amplo para um declínio duradouro do raciocínio que atrapalha a independência no dia a dia. Nomeia um conjunto de sintomas, não uma doença específica.
Comprometimento cognitivo leve (CCL)Declínio mensurável do raciocínio que ainda não tirou a independência da pessoa. Alguns evoluem para demência, outros ficam estáveis e outros melhoram.
DeliriumConfusão súbita e flutuante que aparece em horas ou dias, geralmente causada por infecção, remédio ou problema metabólico. É uma emergência médica e muitas vezes é reversível.
Doença dos pequenos vasos cerebraisDano gradual nas artérias minúsculas no interior do cérebro, fortemente ligado à pressão alta e grande responsável pela demência vascular.
Inibidor da colinesteraseClasse de remédio que aumenta um mensageiro químico do cérebro ligado à memória. Pode aliviar um pouco os sintomas, mas não interrompe a doença.
AmiloideProteína que se acumula de forma anormal no cérebro na doença de Alzheimer. Os anticorpos mais novos foram feitos para removê-la.
Hidrocefalia de pressão normalAcúmulo de líquido nas cavidades do cérebro que causa marcha instável, urgência urinária e alterações do raciocínio. Pacientes selecionados melhoram após a colocação de uma válvula.
Avaliação neuropsicológicaConjunto detalhado de tarefas em papel e no computador que mostra quais habilidades de raciocínio estão afetadas e quanto.
Exames bioquímicos básicosExames de sangue comuns que medem sais (como o sódio), glicemia, função dos rins e cálcio, usados para encontrar causas metabólicas de confusão.
Ácido metilmalônicoSubstância que se acumula quando a vitamina B12 está de fato baixa dentro das células. É usada para confirmar resultados limítrofes de B12.

Perguntas frequentes

O que é a pessoa ter demência?

Ter demência significa ter uma perda persistente de memória, raciocínio, linguagem ou julgamento que atrapalha a vida independente. Não é um esquecimento ocasional: é uma mudança duradoura, percebida por outras pessoas, que afeta tarefas como cuidar do dinheiro, dos remédios ou de si mesmo. A causa pode ser a doença de Alzheimer, problemas vasculares ou outras doenças, e por isso o diagnóstico sempre procura o tipo.

Quais são os primeiros sinais da demência?

Os primeiros sinais dependem do tipo. Na doença de Alzheimer, geralmente é a dificuldade de guardar informações novas: a mesma pergunta feita duas vezes na conversa, compromissos esquecidos apesar dos lembretes, fatos recentes perdidos enquanto memórias antigas continuam vivas. Na doença vascular, muitas vezes é o raciocínio lento e a dificuldade de planejar. Na demência frontotemporal, a primeira mudança é de comportamento — franqueza fora do habitual, perda de empatia, gastos impulsivos — ou uma perda gradual de palavras. Uma boa regra prática: a mudança percebida de forma consistente por outras pessoas ao longo de meses, e não um lapso ocasional que você mesmo nota, é a que merece investigação.

Quais são os 4 tipos de demência?

Os quatro tipos mais comuns são a doença de Alzheimer, a demência vascular, a demência com corpos de Lewy e a demência frontotemporal. Muitas pessoas idosas têm uma combinação, chamada demência mista, geralmente Alzheimer com componente vascular. Existem ainda causas mais raras, algumas tratáveis, como a sífilis tardia ou o HIV sem tratamento.

Qual é a diferença entre Alzheimer e demência?

Demência é o nome do quadro; Alzheimer é uma das doenças que o causam, a mais comum delas. Toda pessoa com doença de Alzheimer em fase avançada tem demência, mas nem toda demência é Alzheimer: ela também pode ser vascular, com corpos de Lewy, frontotemporal ou mista. A diferença importa porque o tratamento e a evolução mudam conforme a causa.

Quais são os 7 estágios da demência?

Os médicos costumam falar em fases inicial, intermediária e avançada, em vez de uma escala numerada fixa, e as tabelas populares de sete estágios descrevem melhor a doença de Alzheimer do que os outros tipos. Na fase inicial, a independência está em boa parte preservada, com ajuda para tarefas complexas; na intermediária, a pessoa precisa de ajuda em atividades do dia a dia, como se vestir e tomar banho; na avançada, precisa de muita assistência na maior parte dos cuidados pessoais. A velocidade varia muito entre pessoas e entre tipos, então o estágio descreve onde a pessoa está agora, e não por quanto tempo ficará ali.

O que a vitamina B12 tem a ver com Alzheimer?

A falta de vitamina B12 não causa a doença de Alzheimer, mas pode causar ou piorar problemas de memória, atenção e equilíbrio que se parecem com demência. Por isso a dosagem de B12 entra na investigação de qualquer queixa de memória: é uma das causas que podem ser corrigidas. Em quem já tem Alzheimer, corrigir uma deficiência de B12 não cura a doença, mas pode melhorar parte dos sintomas que ela estava somando.

Algum tipo de demência pode ser revertido?

Os tipos degenerativos comuns ainda não podem ser revertidos. Porém, uma parte das pessoas avaliadas por problemas de memória tem uma condição associada que pode ser tratada, e o raciocínio pode melhorar bastante quando ela é resolvida. Doença da tireoide, falta de vitamina B12, depressão, remédios que dão sono, apneia do sono, consumo pesado de álcool e hidrocefalia de pressão normal fazem parte desse grupo. Por isso vale insistir numa investigação completa, com exames de sangue, em vez de aceitar um diagnóstico baseado só na idade e num questionário curto.

Por que os sintomas de demência às vezes pioram de repente?

A demência muda ao longo de meses e anos, não de um dia para o outro. Uma piora súbita, em horas ou dias, quase sempre indica outra coisa: infecção urinária ou respiratória, desidratação, prisão de ventre, dor, um remédio novo ou um AVC. Isso se chama delirium, é uma emergência médica e geralmente melhora quando o gatilho é tratado. O chamado “sundowning” — mais confusão no fim da tarde e à noite — é diferente e segue um padrão diário, sem surgir de repente.

Quais sintomas físicos a demência pode causar?

A demência não afeta só o raciocínio. Conforme o tipo, a pessoa pode desenvolver andar instável ou arrastado, rigidez e lentidão dos movimentos, dificuldade para engolir, perda de peso, sono alterado (inclusive “encenar” os sonhos), incontinência e mais quedas. Problemas de equilíbrio e marcha aparecem cedo nos tipos vascular e com corpos de Lewy, enquanto na doença de Alzheimer costumam chegar mais tarde. Todo sintoma físico novo merece avaliação própria, em vez de ser atribuído automaticamente à demência.

Demência é hereditária?

Para a maioria das pessoas, a resposta é: o histórico familiar aumenta um pouco o risco, mas não define o destino. As formas realmente herdadas, em que um único gene passa a doença diretamente de geração em geração, são raras e costumam causar sintomas muito cedo, muitas vezes antes dos 65 anos. A demência frontotemporal tem um componente familiar mais forte do que as outras. Se vários parentes próximos tiveram demência jovens, o aconselhamento genético é razoável; caso contrário, vale mais concentrar a atenção nos fatores de risco que podem ser mudados.

Fontes

  • Ministério da Saúde — Doença de Alzheimer e outras demências — gov.br, 2025 — www.gov.br (em português)
  • Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Alzheimer — gov.br, 2025 — www.gov.br (em português)
  • Centers for Disease Control and Prevention — About Dementia — CDC, 2025 — www.cdc.gov (em inglês)
  • Mayo Clinic — Dementia: symptoms and causes — Mayo Foundation for Medical Education and Research, 2025 — www.mayoclinic.org (em inglês)
  • MedlinePlus, National Library of Medicine — Dementia — National Institutes of Health, 2025 — medlineplus.gov (em inglês)
  • Livingston G, Huntley J, Liu KY, et al. — Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission — The Lancet, 2024 — doi.org/10.1016/S0140-6736(24)01296-0 (em inglês)
  • Papazachariou A, Papakitsou I, Malikides V, Filippatos TD — Vitamin B12 deficiency among older adults and its associations with geriatric syndromes — Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care, 2025 — doi.org/10.1097/MCO.0000000000001171 (em inglês)
  • Hainsworth AH, Markus HS, Schneider JA — Cerebral small vessel disease, hypertension, and vascular contributions to cognitive impairment and dementia — Hypertension, 2023 — doi.org/10.1161/HYPERTENSIONAHA.123.19943 (em inglês)
  • Zahr NM — Alcohol use disorder and dementia: a review — Alcohol Research: Current Reviews, 2024 — doi.org/10.35946/arcr.v44.1.03 (em inglês)

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