A insuficiência renal crônica, hoje chamada pelos médicos de doença renal crônica (DRC), é a perda lenta e duradoura da função dos rins. Nos Estados Unidos, ela atinge mais de 1 em cada 7 adultos, e a maioria não sabe, porque as fases iniciais quase nunca dão sintomas; o Ministério da Saúde descreve a doença como silenciosa e de prevalência crescente no mundo. Os rins filtram resíduos e o excesso de líquido do sangue, equilibram minerais e ajudam a controlar a pressão, então, quando enfraquecem ao longo de meses e anos, os problemas se acumulam sem que a pessoa perceba até a doença avançar. A boa notícia é que a insuficiência renal crônica costuma ser detectada com exames simples de sangue e urina muito antes dos sintomas, e tratamentos mais novos conseguem frear bastante a sua progressão. Este guia explica o que é a doença, seus sintomas, causas, como é feito o diagnóstico e a classificação em estágios, os tratamentos disponíveis e o que a pesquisa mais recente mostra.

O que é insuficiência renal crônica?

Doença renal crônica significa que os rins estão lesados ou filtrando menos do que deveriam há pelo menos três meses. Rins saudáveis eliminam resíduos e o excesso de água, mantêm em equilíbrio minerais como sódio, potássio e cálcio e liberam hormônios que regulam a pressão arterial e a produção de glóbulos vermelhos. Quando a função renal cai, resíduos e líquidos se acumulam e essas outras tarefas falham, e é por isso que a doença avançada afeta o corpo inteiro. Pelas diretrizes do Ministério da Saúde, tem doença renal crônica quem apresenta, por pelo menos três meses seguidos, uma taxa de filtração glomerular (TFG) abaixo de 60 mL/min/1,73 m², ou uma TFG normal com sinais de lesão renal, como albumina na urina ou alteração em exame de imagem.

A doença é comum e muitas vezes silenciosa. Nos Estados Unidos, estima-se que 35,5 milhões de adultos tenham DRC e que cerca de 87 % deles não saibam. O Ministério da Saúde reconhece que, como a evolução costuma ser assintomática, o diagnóstico muitas vezes é tardio, quando o tratamento imediato já é a hemodiálise. A frequência aumenta muito com a idade, e é por isso que os exames de rotina fazem tanta diferença: descobrir cedo abre a porta para tratamentos que protegem os rins por anos.

Sintomas da insuficiência renal crônica

Nas fases iniciais, a insuficiência renal crônica quase nunca dá sintomas, e por isso costuma ser descoberta em exames de sangue e urina feitos por outros motivos. À medida que a função renal cai, os sintomas aparecem aos poucos, conforme resíduos e líquidos se acumulam no corpo.

Os sintomas mais tardios incluem cansaço e dificuldade de concentração, inchaço nas pernas, tornozelos, pés ou ao redor dos olhos, urina com espuma ou mudança na frequência de urinar, falta de apetite e náusea, cãibras e pele seca e com coceira. Como é fácil atribuir esses sinais a outras causas, eles costumam surgir só quando a doença já está instalada, o que reforça o valor dos exames periódicos em quem tem mais risco. Inchaço e falta de ar também podem refletir o acúmulo de líquidos que liga a doença renal à perda de força de bombeamento na insuficiência cardíaca, já que coração e rins estão muito ligados.

Quais são os sintomas da insuficiência renal terminal?

Na fase terminal (estágio 5), os sintomas ficam intensos: cansaço extremo, falta de ar, inchaço importante, náuseas e vômitos, perda de apetite e de peso, coceira forte, cãibras, urina muito reduzida, confusão mental e sonolência, além de alterações perigosas do potássio. Nessa fase, a diálise ou o transplante passam a ser necessários.

O que causa a insuficiência renal crônica?

As duas principais causas da doença renal crônica são o diabetes e a pressão alta, que juntos respondem pela maioria dos casos. Com o tempo, o açúcar alto no sangue lesa as minúsculas unidades de filtração dos rins, e a pressão alta constante sobrecarrega os vasos que os irrigam. Controlar bem essas duas condições é uma das formas mais poderosas de proteger os rins, e por isso os guias sobre os problemas de açúcar no sangue do diabetes e sobre os valores elevados da pressão alta são tão importantes para a saúde dos rins.

O Ministério da Saúde lista como principais fatores de risco: diabetes tipo 1 ou tipo 2; hipertensão, definida como pressão acima de 140/90 mmHg em duas medidas com intervalo de 1 a 2 semanas; idade avançada; obesidade (IMC acima de 30 kg/m²); doença cardiovascular prévia, como infarto, AVC ou insuficiência cardíaca; histórico familiar de doença renal crônica; tabagismo; e uso de medicamentos tóxicos para os rins. Algumas pessoas também têm risco maior por doenças hereditárias ou problemas renais de repetição. Como esses fatores são muito comuns, as diretrizes incentivam exames regulares para quem tem diabetes, pressão alta ou histórico familiar de doença renal, cuidados que, no SUS, começam na UBS.

Como é feito o diagnóstico e quais são os estágios

A doença renal crônica é diagnosticada e acompanhada com dois exames simples, que juntos mostram o quanto os rins filtram e se estão deixando escapar proteína. O primeiro é a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe), um cálculo feito a partir da creatinina no sangue, da idade e do sexo; as diretrizes do Ministério da Saúde recomendam a equação CKD-EPI. Uma TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² por três meses indica função reduzida. O segundo é a relação albumina/creatinina (RAC) na urina, que detecta pequenas quantidades de albumina na urina, um sinal precoce de lesão que pode aparecer mesmo com a TFG normal; acima de 30 mg/g, já é considerada alterada. O exame de urina tipo 1 (EAS) também entra no acompanhamento.

Esses números vêm de exames conhecidos, e entendê-los ajuda você a acompanhar seus rins. Vale saber o que mede o exame de creatinina no sangue, como a TFG estima a sua capacidade de filtração e o que a relação albumina/creatinina revela sobre proteína na urina. O médico pode acrescentar a cistatina C, que não sofre influência da massa muscular, para confirmar a TFG perto dos limites, e a ureia como marcador de apoio da eliminação de resíduos. Depois, a doença é classificada em estágios, como na tabela abaixo, junto com o resultado da albumina.

Quais são os estágios da doença renal crônica?

A doença renal crônica tem seis estágios conforme a TFG: 1, 2, 3a, 3b, 4 e 5, sendo o estágio 5 a falência dos rins, com ou sem diálise.

EstágioTFG (mL/min/1,73 m²)O que significa
190 ou maisFiltração normal, mas com sinais de lesão, como proteína ou sangue na urina ou alteração na imagem
260 a 89Filtração levemente reduzida, com evidência de lesão
3a e 3b45 a 59 e 30 a 44Filtração moderadamente reduzida; as complicações ficam mais prováveis
415 a 29Filtração muito reduzida; começa a preparação para o tratamento futuro
5Abaixo de 15Falência renal, que pode exigir diálise ou transplante

O que significa “sinais compatíveis com nefropatia parenquimatosa crônica”?

Essa frase aparece em laudos de ultrassom e indica que os rins mostram alterações de longa data no tecido (o parênquima), como aumento do brilho ao ultrassom, afinamento da camada externa ou rins menores que o normal. Ela sugere lesão crônica, mas não diz sozinha quanto os rins funcionam: para isso, o médico precisa da creatinina, da TFG e dos exames de urina.

Tratamento da insuficiência renal crônica

O tratamento busca frear a perda da função renal, tratar a causa e prevenir complicações. Controlar a pressão e a glicemia é a base, e nos últimos anos várias classes de remédios mostraram proteger os rins diretamente.

AbordagemExemplosPapel
Controle da pressãoIECA (inibidores da ECA), BRABaixam a pressão e reduzem a perda de proteína, protegendo os rins
Inibidores de SGLT2Dapagliflozina, empagliflozinaFreiam a perda de função renal em muitas pessoas, com ou sem diabetes
Outros protetores renaisFinerenona, alguns agonistas de GLP-1Somam proteção, sobretudo na doença renal do diabetes
Estilo de vida e alimentaçãoMenos sal, alimentação saudável, exercício, não fumarAjudam a pressão, o peso e a saúde dos rins
Cuidados na doença avançadaHemodiálise, diálise peritoneal, transplante renalSubstituem a função dos rins quando chega a falência

Junto com os remédios, a orientação costuma ser reduzir o sal, evitar anti-inflamatórios sem prescrição, que podem sobrecarregar os rins, e montar com a equipe um plano alimentar adequado aos rins. O Ministério da Saúde reforça que qualquer medicação de uso contínuo deve ser feita só com orientação médica, com cuidado especial com remédios tóxicos para os rins. Com a progressão, o tratamento também cuida das complicações, como anemia, potássio alto e alterações dos ossos e minerais. Quando os rins chegam à falência, a hemodiálise, a diálise peritoneal ou o transplante renal assumem o trabalho de filtrar o sangue; no SUS, essas terapias são oferecidas pela rede de atenção às pessoas com doenças crônicas.

O que uma pessoa com insuficiência renal não pode fazer?

Quem tem insuficiência renal deve evitar automedicação, sobretudo anti-inflamatórios como ibuprofeno e diclofenaco, excesso de sal e de alimentos ultraprocessados, cigarro e suplementos ou chás sem orientação, e deve avisar sobre a doença antes de exames com contraste. Conforme o estágio, o nefrologista ou o nutricionista podem pedir controle de potássio, fósforo, proteína e líquidos; essas restrições são individuais e não devem ser feitas por conta própria.

Conviver com a insuficiência renal crônica e o prognóstico

A maioria das pessoas com doença renal crônica nunca chega à falência dos rins, sobretudo quando a doença é descoberta cedo e bem tratada. O acompanhamento regular da TFG e da albumina na urina permite ajustar o tratamento, e controlar a pressão, a glicemia e o peso pode frear ou até estabilizar a doença. Como a doença do coração é a principal causa de morte em quem tem DRC, proteger o coração é tão importante quanto proteger os rins. Em idosos, quando os rins param, o acúmulo de toxinas pode causar confusão, sonolência e fraqueza, e as decisões sobre diálise levam em conta a saúde geral e a vontade da pessoa.

Viver bem também significa cuidar das complicações com antecedência. A queda da função renal reduz a produção de glóbulos vermelhos e pode causar anemia, por isso o hemograma é acompanhado, e entender a queda dos glóbulos vermelhos na anemia ajuda a explicar o cansaço. Saúde dos ossos, potássio e nutrição são monitorados como parte do cuidado completo, e uma equipe coordenada ajuda a antecipar os problemas.

Avanços científicos recentes

Os últimos anos trouxeram alguns dos maiores avanços da nefrologia em décadas, ampliando as armas muito além do controle da pressão. Segundo pesquisas indexadas no PubMed, o estudo FLOW, de 2024, no New England Journal of Medicine, mostrou que a semaglutida, um agonista de GLP-1, reduziu em 24 % os eventos renais graves em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, e também diminuiu eventos cardiovasculares e mortes, a ponto de o estudo ser interrompido mais cedo pelo benefício (Perkovic et al., 2024). O que isso significa para você: um remédio já muito usado para diabetes e peso também pode proteger os rins, dando a muita gente uma camada extra de defesa.

O estudo EMPA-KIDNEY, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, mostrou que a empagliflozina, um inibidor de SGLT2, reduziu em 28 % o risco de progressão da doença renal ou de morte cardiovascular numa ampla gama de pacientes, inclusive muitos sem diabetes (Herrington et al., 2023). O que isso significa para você: essa classe de remédios virou base do tratamento da DRC, e não só do diabetes. Juntando tudo, a diretriz KDIGO de 2024, resumida na Kidney International, foi a primeira atualização completa desde 2012 e integrou inibidores de SGLT2, finerenona e agonistas de GLP-1 num plano de tratamento único, baseado no risco (Levin et al., 2024). O que isso significa para você: a equipe agora tem um roteiro claro para somar terapias protetoras conforme o seu estágio e o seu risco, bem além da abordagem única de antes.

Glossário da insuficiência renal crônica

TermoDefinição
TFG (taxa de filtração glomerular)Estimativa de quanto sangue os rins conseguem filtrar por minuto.
CreatininaResíduo filtrado pelos rins, usado para calcular a TFG.
Relação albumina/creatinina (RAC)Exame de urina que detecta proteína escapando de rins lesados.
Cistatina CMarcador alternativo de filtração, que não depende da massa muscular.
ProteinúriaPresença de proteína na urina, sinal precoce de lesão renal.
DiáliseTratamento que filtra o sangue quando os rins não conseguem mais.
Inibidor de SGLT2Classe de remédios que freia a perda de função renal em muitas pessoas com DRC.

Perguntas frequentes sobre insuficiência renal crônica

Quais são os estágios da insuficiência renal crônica?

Os estágios vão de 1 a 5 conforme a TFG, com o estágio 3 dividido em 3a e 3b. Os estágios 1 e 2 têm filtração normal ou pouco reduzida com sinais de lesão, o 3 é a redução moderada, o 4 a redução grave e o 5 a falência renal, que pode exigir diálise ou transplante. O estágio é combinado com a albumina na urina para avaliar o risco.

Qual é o valor normal da TFG?

Uma TFG normal costuma ser de 90 mL/min/1,73 m² ou mais. Uma TFG abaixo de 60 que dura pelo menos três meses indica doença renal crônica, e números mais baixos refletem doença mais avançada. Como a TFG varia, o médico olha a tendência ao longo do tempo, e não um único resultado.

A insuficiência renal crônica tem cura?

Em geral, a doença renal crônica não pode ser revertida, mas sua progressão costuma ser freada bastante e, nos estágios iniciais, ela pode se estabilizar. Controlar a pressão e a glicemia, usar remédios protetores dos rins e adotar hábitos saudáveis preservam a função restante por muitos anos.

Quais são os primeiros sinais de doença nos rins?

No começo, a doença renal crônica geralmente não dá sintomas, e por isso os exames são tão importantes. Quando os sinais aparecem, podem incluir cansaço, inchaço nas pernas ou pés, urina com espuma, mudança no jeito de urinar, falta de apetite e coceira. Muitas vezes eles só surgem com a doença já avançada.

O que causa a insuficiência renal crônica?

As principais causas são o diabetes e a pressão alta, que lesam os rins com o tempo. Também contribuem doença do coração, obesidade, idade avançada, tabagismo, histórico familiar de doença renal e alguns medicamentos. Controlar esses riscos é central para a prevenção.

Como é feito o diagnóstico da doença renal crônica?

O diagnóstico usa um exame de sangue para a TFG, calculada a partir da creatinina, e um exame de urina para a relação albumina/creatinina, repetidos ao longo de pelo menos três meses para confirmar. A cistatina C e a ureia acrescentam detalhes, e os resultados servem para definir o estágio.

Fontes

  • Ministério da Saúde — Doenças Renais Crônicas (DRC) — Saúde de A a Z, gov.br, 2025 — gov.br
  • Ministério da Saúde — Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao Paciente com Doença Renal Crônica no Sistema Único de Saúde — Brasília, 2014 — docs.bvsalud.org
  • National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases — Chronic Kidney Disease — NIDDK, 2024 — niddk.nih.gov (em inglês)
  • Centers for Disease Control and Prevention — Chronic Kidney Disease Basics — CDC, 2024 — cdc.gov (em inglês)
  • National Kidney Foundation — Chronic Kidney Disease — NKF, 2024 — kidney.org (em inglês)
  • Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, et al. — Effects of Semaglutide on Chronic Kidney Disease in Patients with Type 2 Diabetes — New England Journal of Medicine, 2024 — doi.org (em inglês)
  • Herrington WG, Staplin N, Wanner C, et al. — Empagliflozin in Patients with Chronic Kidney Disease — New England Journal of Medicine, 2023 — doi.org (em inglês)
  • Levin A, Ahmed SB, Carrero JJ, et al. — Executive summary of the KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease — Kidney International, 2024 — doi.org (em inglês)

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