O essencial

A curva glicêmica, ou teste oral de tolerância à glicose (TOTG), mede o açúcar no sangue antes e depois de beber 75 g de glicose. Fora da gravidez, o valor de 2 horas abaixo de 140 mg/dL é normal, de 140 a 199 mg/dL é pré-diabetes e 200 mg/dL ou mais sugere diabetes, a confirmar. No Brasil, o valor de 1 hora também conta. Na gestação, os limites são mais baixos e um só valor alterado basta.

Como ler o resultado da curva glicêmica?

O laudo traz uma linha de glicose para cada coleta, com o tempo depois da bebida. Veja um laudo brasileiro fictício de uma curva de 2 horas com 75 g, em um adulto que não está grávido.

Exemplo fictício de laudo de curva glicêmica (formato brasileiro)
ExameResultadoValores de referênciaIndicação
Glicose basal (jejum)96 mg/dLInferior a 100 mg/dL-
Glicose 60 minutos após 75 g172 mg/dLInferior a 155 mg/dLA
Glicose 120 minutos após 75 g128 mg/dLInferior a 140 mg/dL-
  1. Glicose basal: 96 mg/dL é normal (abaixo de 100 mg/dL)[11]; ela se lê como uma glicemia de jejum comum.
  2. "75 g": é a dose de glicose. Ela define quais limites valem (as doses de 50 g e 100 g são usadas na gravidez em outros países)[1].
  3. 60 minutos, indicação A (alto): a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) considera pré-diabetes um valor de 155 a 208 mg/dL em 1 hora[11]. Nos Estados Unidos, esse valor ainda não é usado[1].
  4. 120 minutos: abaixo de 140 mg/dL, normal. Um único valor alterado pede repetição para confirmar[11].

Três glicemias, 60 ou 120 minutos, uma indicação de alto? O BloodSense lê o seu laudo inteiro, linha por linha, e ajuda você a preparar as perguntas para o médico.

Entender minha curva glicêmica

Para que serve o exame de curva glicêmica?

Depois da bebida, a insulina deve trazer o açúcar do sangue de volta em cerca de duas horas. O exame mostra se isso funciona bem. Ele é usado para:

  • Diagnosticar pré-diabetes e diabetes tipo 2: o valor de 2 horas encontra mais casos do que a glicemia de jejum ou a hemoglobina glicada[1].
  • Rastrear o diabetes gestacional entre a 24ª e a 28ª semana de gravidez[13].
  • Procurar diabetes depois de um transplante ou na fibrose cística, em que é o exame preferido[1].

Qual o valor normal da curva glicêmica?

Os limites dependem da dose e da gravidez. O valor de referência do seu laboratório prevalece.

Curva glicêmica com 75 g em adultos fora da gravidez (glicose no plasma venoso)
TempoNormalPré-diabetesDiabetesFonte
JejumAbaixo de 100 mg/dL (5,6 mmol/L)100 a 125 mg/dL126 mg/dL (7,0 mmol/L) ou maisSBD[11], ADA 2026[1]
1 horaAbaixo de 155 mg/dL (8,6 mmol/L)155 a 208 mg/dL209 mg/dL (11,6 mmol/L) ou maisSBD[11], IDF 2024[8]
2 horasAbaixo de 140 mg/dL (7,8 mmol/L)140 a 199 mg/dL200 mg/dL (11,1 mmol/L) ou maisSBD[11], ADA 2026[1]

Os cortes de 1 hora foram propostos em 2024 pela Federação Internacional de Diabetes, porque esse valor prevê bem o diabetes futuro[8], e a SBD os adotou[11]. Por isso, o seu laudo pode trazer um valor de referência também para a coleta de 60 minutos. Para outros momentos do dia, veja a nossa tabela de glicemia normal.

Qual o valor normal da curva glicêmica na gestante?

Curva glicêmica na gravidez: quando um valor é considerado alterado
ExameJejum1 hora2 horas3 horasDiagnóstico
TOTG 75 g em jejum (padrão no Brasil)92 mg/dL180 mg/dL153 mg/dL-Um só valor igual ou acima do limite[13][5]
Em duas etapas, etapa 1: 50 g sem jejum (EUA)-130, 135 ou 140 mg/dL, conforme o serviço--Acima disso: passa para a etapa 2[1]
Em duas etapas, etapa 2: 100 g em jejum (EUA)95 mg/dL180 mg/dL155 mg/dL140 mg/dLDois valores ou mais; um pode bastar para o ACOG[1][7]

No Brasil, a SBD, o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde definiram juntos, em 2017, o TOTG com 75 g como padrão[13]. Antes, na primeira consulta do pré-natal, uma glicemia de jejum de 92 a 125 mg/dL já indica diabetes gestacional[13]. Como um só valor basta, o teste em uma etapa encontra mais casos: 11,5% das gestantes, contra 4,9% com o rastreio em duas etapas, numa revisão americana[1].

Curva glicêmica alterada: o que pode ser?

Fora da gravidez, um resultado alto isolado não é um diagnóstico: sem sintomas claros, é preciso repetir o exame[11][4]. Do mais frequente ao mais raro:

  • Frequente Pré-diabetes: 140 a 199 mg/dL em 2 horas indica um risco maior de diabetes no futuro[2]. Muitas vezes está ligado à resistência à insulina.
  • Frequente Diabetes gestacional: atinge de 3% a 25% das gestações, conforme a população e o critério usado[13], e aumenta o risco de pré-eclâmpsia, bebê grande e hipoglicemia do recém-nascido[6].
  • Frequente Diabetes tipo 2: 200 mg/dL ou mais em 2 horas, ou 209 mg/dL ou mais em 1 hora, depois de confirmado[11].
  • Possível Condições do exame: poucos carboidratos nos dias anteriores, doença, estresse agudo, cigarro ou alguns remédios[1][2]; também cirurgia, infarto ou AVC[2].
  • Rara Doenças hormonais ou do pâncreas: tireoide hiperativa, pancreatite ou tumores raros, como na síndrome de Cushing ou na acromegalia[10].

Um valor falsamente baixo pode vir de uma amostra que demorou a ser processada, porque as células continuam consumindo glicose no tubo[1]. Valores realmente baixos podem aparecer depois de cirurgia bariátrica[10]; se sentir tremor ou suor frio, avise a equipe (veja sintomas de hipoglicemia).

Depois de um diabetes gestacional, cerca de metade das mulheres desenvolve diabetes tipo 2[9]. Por isso, recomenda-se uma curva com 75 g de 4 a 12 semanas depois do parto e, depois, um rastreio a cada 1 a 3 anos, por toda a vida[1].

Como é feito o exame de curva glicêmica e qual o preparo?

O exame é feito de manhã. Você bebe o líquido em até cinco minutos e fica no laboratório por 2 horas (75 g)[1][4]; na gravidez, a diretriz brasileira também usa a curva de 75 g[13]. Pode haver enjoo ou tontura; efeitos graves são raros[4]. Confira:

  • Coma normalmente por 3 dias, com pelo menos 150 g de carboidratos por dia: cortar massas, pão e doces pode elevar falsamente o resultado[11][1].
  • Faça jejum de 8 a 12 horas; goles de água são permitidos[11][3].
  • Se estiver doente ou sob estresse agudo, pergunte se deve adiar: os dois mudam o resultado[1].
  • Não fume, não coma e não faça exercício durante o exame[1][4].
  • Leve a lista dos seus remédios: alguns mudam o açúcar no sangue. Nunca pare um por conta própria[2][4].
  • Se vomitar o líquido muito doce, avise a equipe: talvez não seja possível terminar o exame nesse dia[12].

Veja também jejum para exame de sangue e como é a coleta de sangue.

Quando procurar o médico depois da curva glicêmica?

Quando procurar atendimento

  • Emergência: ligue 192 (SAMU) em caso de confusão, desmaio, convulsão, ou açúcar muito alto com vômitos, respiração rápida e profunda ou sonolência extrema. O SAMU atende 24 horas por dia[15].
  • Em 24 a 48 horas se você está grávida e tem um valor alterado, ou com 200 mg/dL ou mais e muita sede, urina frequente ou perda de peso.
  • Na próxima consulta com um valor de pré-diabetes (155 a 208 mg/dL em 1 hora ou 140 a 199 mg/dL em 2 horas) sem sintomas, para planejar a confirmação e mudanças no estilo de vida.

Perguntas para fazer ao médico

  1. Quais limites foram usados no meu exame: os de 1 hora, os de 2 horas ou os da gravidez?
  2. Preciso repetir o exame para confirmar, e qual exame?
  3. Minha alimentação, uma doença ou um remédio podem ter mudado o resultado?
  4. Se tive diabetes gestacional: quando faço a curva depois do parto?

Perguntas frequentes

Pode ir trabalhar depois do exame de curva glicêmica?

Em geral, sim. Na maioria das vezes você pode sair logo depois da última coleta e voltar às atividades normais[12]. Reserve antes cerca de 2 a 3 horas no laboratório[4].

A curva glicêmica é melhor que a hemoglobina glicada?

Nenhuma é melhor em todos os casos. A hemoglobina glicada reflete 2 a 3 meses, sem jejum; a curva é mais sensível, mas varia mais de um dia para o outro[1].

Dá para fazer a curva glicêmica em casa?

Não. O exame exige coletas cronometradas, processadas rapidamente pelo laboratório, porque a glicose cai numa amostra que espera[1]. O glicosímetro ajuda a acompanhar o açúcar, mas não substitui o exame.

Exames relacionados

Referências

  1. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 2. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes-2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S27-S49. doi:10.2337/dc26-S002 (acesso em 31 out. 2026)
  2. MedlinePlus Medical Encyclopedia. Glucose tolerance test - non-pregnant. US National Library of Medicine. medlineplus.gov (acesso em 31 out. 2026)
  3. MedlinePlus Medical Encyclopedia. Glucose screening tests during pregnancy. US National Library of Medicine. medlineplus.gov (acesso em 31 out. 2026)
  4. Cleveland Clinic. Glucose Tolerance Test (GTT): What It Is, Preparation & Results. my.clevelandclinic.org (acesso em 31 out. 2026)
  5. Metzger BE, Gabbe SG, Persson B, et al. International association of diabetes and pregnancy study groups recommendations on the diagnosis and classification of hyperglycemia in pregnancy. Diabetes Care. 2010;33(3):676-682. doi:10.2337/dc09-1848 (acesso em 31 out. 2026)
  6. Davidson KW, Barry MJ, Mangione CM, et al. Screening for Gestational Diabetes: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2021;326(6):531-538. doi:10.1001/jama.2021.11922 (acesso em 31 out. 2026)
  7. American College of Obstetricians and Gynecologists. ACOG Practice Bulletin No. 190: Gestational Diabetes Mellitus. Obstet Gynecol. 2018;131(2):e49-e64. doi:10.1097/AOG.0000000000002501 (acesso em 31 out. 2026)
  8. Bergman M, Manco M, Satman I, et al. International Diabetes Federation Position Statement on the 1-hour post-load plasma glucose for the diagnosis of intermediate hyperglycaemia and type 2 diabetes. Diabetes Res Clin Pract. 2024;209:111589. doi:10.1016/j.diabres.2024.111589 (acesso em 31 out. 2026)
  9. Centers for Disease Control and Prevention. Gestational Diabetes. cdc.gov (acesso em 31 out. 2026)
  10. MedlinePlus Medical Encyclopedia. Blood sugar test - blood. US National Library of Medicine. medlineplus.gov (acesso em 31 out. 2026)
  11. Rodacki M, Cobas RA, Zajdenverg L, et al. Diagnóstico de diabetes mellitus. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes. 2024. diretriz.diabetes.org.br (acesso em 31 out. 2026)
  12. MyHealth Alberta. Oral Glucose Tolerance Test During Pregnancy: About This Test. Alberta Health Services. myhealth.alberta.ca (acesso em 31 out. 2026)
  13. Zajdenverg L, Façanha CFS, Dualib PM, et al. Rastreamento e diagnóstico da hiperglicemia na gestação. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes. 2023. diretriz.diabetes.org.br (acesso em 31 out. 2026)
  14. Ministério da Saúde. Diabetes (diabetes mellitus). Saúde de A a Z. gov.br/saude (acesso em 31 out. 2026)
  15. Ministério da Saúde. SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. gov.br/saude (acesso em 31 out. 2026)

Este artigo traz informações gerais de saúde. Ele não substitui a consulta com um médico, que interpreta seus resultados junto com seus sintomas, seu histórico e o exame clínico.