O essencial

Na maioria dos laudos, o LDL não é medido: ele é calculado a partir do colesterol total, do HDL e dos triglicérides. A antiga fórmula de Friedewald erra quando os triglicérides estão altos ou o LDL está muito baixo. Por isso a diretriz brasileira de 2025 recomenda a equação de Martin/Hopkins para todos; antes de comparar dois resultados, confira qual método aparece no seu laudo.

Como ler o LDL calculado no meu laudo?

Neste lipidograma fictício, a palavra "calculado" ao lado do LDL quer dizer que o número vem de uma fórmula, e não de uma dosagem[1].

Exemplo fictício de linhas de um laudo de lipidograma (formato brasileiro, amostra sem jejum)
ExameResultadoValores de referênciaSinalização
Colesterol total212 mg/dLDesejável: < 190 mg/dLA
HDL-colesterol46 mg/dLDesejável: > 40 mg/dL-
Triglicérides (sem jejum)180 mg/dLDesejável sem jejum: < 175 mg/dLA
VLDL-colesterol (calculado)34 mg/dL--
LDL-colesterol (calculado, Martin/Hopkins)132 mg/dLMeta conforme o risco: baixo < 115; intermediário < 100; alto < 70; muito alto < 50; extremo < 40 mg/dL-
Colesterol não HDL166 mg/dLMeta conforme o risco: baixo < 145; intermediário < 130; alto < 100; muito alto < 80; extremo < 70 mg/dL-
  1. Colesterol total, HDL e triglicérides são medidos de fato; são eles que entram na conta. O laudo informa se a coleta foi com ou sem jejum, como pede a diretriz[2].
  2. VLDL 34 mg/dL: é uma estimativa, obtida dividindo os triglicérides por um divisor. Na equação de Martin/Hopkins, o divisor sai de uma tabela e varia de 3,1 a 11,9 conforme os triglicérides e o não HDL[2].
  3. LDL 132 mg/dL, calculado: 212 − 46 − 34 = 132. Pela fórmula de Friedewald, com divisor fixo de 5, a conta daria 212 − 46 − 36 (180 ÷ 5) = 130[3][6].
  4. Sem letra no LDL e no não HDL: no Brasil, esses valores não têm um "normal" único; o laudo traz as metas por categoria de risco, e quem define a sua é o médico[2][9].

Não sabe qual fórmula o laboratório usou, ou por que o seu LDL mudou de um exame para outro? O BloodSense lê o seu lipidograma completo, linha por linha, e ajuda a preparar as perguntas para a consulta.

Entender meu lipidograma

Por que o LDL é calculado e não medido?

O método de referência para o LDL exige ultracentrifugação, que os laboratórios de rotina não usam[7]. Em 1972, Friedewald e colegas mostraram que dava para estimar o LDL a partir dos três valores de um lipidograma comum[3]. No sangue em jejum, o colesterol está distribuído entre as partículas de HDL, LDL e VLDL. Tirando do total o HDL e uma estimativa do VLDL, o que sobra é o LDL[6].

A conta não exige nenhum exame a mais, por isso a maioria dos laboratórios continua usando uma fórmula[6]. A diretriz brasileira lembra que os métodos diretos de dosagem do LDL variam muito entre os kits e que, na prática, o cálculo é o mais usado[2]. O que o número significa para o coração está no nosso guia sobre o colesterol LDL e suas metas; esta página explica como ele é obtido.

Qual é a fórmula de Friedewald para calcular o LDL?

Em mg/dL: LDL = colesterol total − HDL − (triglicérides ÷ 5)[3][6].

A parte "triglicérides ÷ 5" estima o colesterol do VLDL, supondo uma proporção fixa de 5[4]. Mais sobre essa partícula no nosso guia de colesterol não HDL e VLDL.

Só que a proporção real varia: em 1,35 milhão de lipidogramas dos Estados Unidos, a mediana foi 5,2, com grande dispersão[4]. A estimativa começa a se afastar da realidade acima de cerca de 250 mg/dL de triglicérides, e a fórmula não é recomendada acima de 400 mg/dL[6]. O consenso brasileiro de 2016 já pedia atenção a esse limite e ao jejum, com a opção de usar a fórmula de Martin ou a dosagem direta[9].

O que é a equação de Martin/Hopkins e a de Sampson (NIH)?

As principais formas de o laboratório chegar ao seu LDL
MétodoComo funcionaUso possível até (triglicérides)
Friedewald (1972)Divisor fixo: triglicérides divididos por 5400 mg/dL[6]
Martin/Hopkins (2013)Divisor ajustável, tirado de uma tabela de 180 casas (triglicérides e não HDL)400 mg/dL; uma versão ampliada vai até cerca de 800 mg/dL[7]
Sampson-NIH (2020)Equação com triglicérides e não HDL, construída sobre medidas de referência que incluíam triglicérides altos800 mg/dL[5]
LDL diretoDosado pelo aparelho do laboratórioSem limite de fórmula; os resultados variam entre fabricantes[2][7]

Martin/Hopkins ajusta o divisor aos seus próprios valores. Com triglicérides abaixo de 400 mg/dL, ela colocou as pessoas na mesma faixa de LDL que a dosagem direta em 91,7% dos casos, contra 85,4% com Friedewald[4]. É a equação que a Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 recomenda para todas as pessoas[2].

Sampson-NIH, criada nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, foi mais precisa que as duas anteriores em comparação com o método de referência, com 35% menos erros de classificação entre 400 e 800 mg/dL de triglicérides[5]. Ela é mais usada fora do Brasil.

Quando o LDL calculado não é confiável?

  • Frequente Triglicérides altos. Cerca de um terço dos adultos tem triglicerídeos acima de 150 mg/dL[6]. Acima de 400 mg/dL, Friedewald não deve ser usada[6]; acima de 800 mg/dL, até a equação de Martin pode subestimar o LDL, e a diretriz brasileira orienta olhar o colesterol não HDL[2]. Alguns laudos deixam então o LDL em branco, com uma observação.
  • Frequente LDL muito baixo, em geral com tratamento. Abaixo de 70 mg/dL, Friedewald tende a dar um valor baixo demais[6]. Com triglicérides entre 200 e 399 mg/dL, um LDL de Friedewald abaixo de 70 estava realmente abaixo de 70 em apenas 40,3% dos casos, contra 84,0% com Martin/Hopkins[4]. Isso pesa porque as metas brasileiras são baixas: menos de 50 mg/dL no risco muito alto e menos de 40 mg/dL no risco extremo[2].
  • Possível Coleta depois de uma refeição. Após refeições habituais, os triglicérides sobem até cerca de 26 mg/dL e o LDL calculado cai até cerca de 8 mg/dL[8]. É pouco, mas pode bastar para cruzar uma meta. A equação de Martin reduz esse problema[2].
  • Rara Distúrbios hereditários incomuns das gorduras, em que tanto as fórmulas quanto alguns métodos diretos podem errar[6][7].

O LDL direto também não é perfeito: não é totalmente padronizado entre fabricantes e pode errar quando as gorduras do sangue estão muito alteradas[6][7]. O médico pode olhar também a apolipoproteína B ou o colesterol não HDL, que não dependem de fórmula com triglicérides.

Qual é o valor de referência do LDL calculado?

O método muda a forma de obter o número, não as metas. No Brasil, a meta de LDL depende do risco cardiovascular estimado pelo médico[2].

Metas de LDL para adultos na Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 (vale a avaliação do seu médico)
Categoria de riscoMeta de LDLMesmo valor em mmol/L
Baixo[2]Menor que 115 mg/dLMenor que 2,97 mmol/L
Intermediário[2]Menor que 100 mg/dLMenor que 2,59 mmol/L
Alto[2]Menor que 70 mg/dLMenor que 1,81 mmol/L
Muito alto[2]Menor que 50 mg/dLMenor que 1,29 mmol/L
Extremo[2]Menor que 40 mg/dLMenor que 1,03 mmol/L

Para converter, divida o valor em mg/dL por 38,67. Em adultos, um LDL que fica em 190 mg/dL ou mais, sem outra causa e com casos parecidos na família, levanta a suspeita de hipercolesterolemia familiar[2]. Para entender o que fazer com um valor acima da meta, veja colesterol alto.

Precisa de jejum para o exame de colesterol?

  • Na primeira avaliação, a coleta sem jejum é aceitável; siga o que o seu médico pediu[2][8]. Veja jejum para exame de sangue.
  • Se os triglicérides sem jejum passarem de 440 mg/dL, a diretriz recomenda nova coleta com jejum de 12 horas, a critério do médico[2].
  • Mantenha a alimentação habitual e evite álcool, comida muito gordurosa e exercício extenuante na véspera[2].
  • Anote o método escrito no laudo: Martin/Hopkins, Friedewald, Sampson ou dosagem direta.
  • Faça o acompanhamento no mesmo laboratório e não pare nenhum remédio sem orientação.

Quando procurar um médico por causa do LDL?

Quando procurar atendimento

  • Emergência: ligue 192 (SAMU)[10] em caso de dor no peito, falta de ar súbita, fraqueza de um lado do corpo, dificuldade para falar ou boca torta.
  • Em poucos dias se os triglicérides passarem de 880 mg/dL (risco de pancreatite) ou o LDL passar de 190 mg/dL[8].
  • Na próxima consulta para um LDL acima da sua meta, em branco no laudo ou que mudou depois de trocar de laboratório.

Perguntas para fazer ao médico

  1. Qual método o laboratório usou para o meu LDL, e isso faz diferença no meu caso?
  2. Meus triglicérides estão altos o bastante para deixar o LDL calculado menos confiável?
  3. O próximo exame deve ser em jejum, com LDL direto ou com apolipoproteína B?
  4. Qual é a minha categoria de risco e a meta de LDL que devo atingir?

Perguntas frequentes

LDL calculado e LDL direto são a mesma coisa?

Os dois buscam o mesmo valor, um estimado e outro dosado. Costumam ficar próximos, mas podem se afastar quando os triglicérides estão altos ou o LDL está muito baixo[6].

Por que o LDL veio em branco no laudo?

Em geral, porque os triglicérides estavam altos demais para a fórmula. O laboratório pode indicar uma dosagem direta, e o médico pode usar o colesterol não HDL[2][6].

Posso calcular o meu LDL sozinho?

Com Friedewald, sim, usando valores em mg/dL. Martin/Hopkins e Sampson precisam de uma tabela ou de uma equação mais longa. O médico se baseia no valor do laboratório.

Por que o meu LDL mudou quando troquei de laboratório?

Os laboratórios podem usar fórmulas diferentes ou dosagens diretas, que não são totalmente padronizadas[7]. Uma pequena diferença pode vir do método, e não do seu corpo.

Tomo estatina. O LDL calculado continua confiável?

O tratamento pode levar o LDL a valores muito baixos, faixa em que Friedewald tende a subestimar. As equações mais novas ou a dosagem direta são mais precisas nessa situação[5][6].

Artigos relacionados

  1. MedlinePlus. Cholesterol levels. US National Library of Medicine. medlineplus.gov (consultado em 29 de outubro de 2026)
  2. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025. doi:10.36660/abc.20250640 (consultado em 29 de outubro de 2026)
  3. Friedewald WT, Levy RI, Fredrickson DS. Estimation of the concentration of low-density lipoprotein cholesterol in plasma, without use of the preparative ultracentrifuge. Clin Chem. 1972;18(6):499-502. PMID 4337382 (consultado em 29 de outubro de 2026)
  4. Martin SS, Blaha MJ, Elshazly MB, et al. Comparison of a novel method vs the Friedewald equation for estimating low-density lipoprotein cholesterol levels from the standard lipid profile. JAMA. 2013;310(19):2061-2068. doi:10.1001/jama.2013.280532 (consultado em 29 de outubro de 2026)
  5. Sampson M, Ling C, Sun Q, et al. A new equation for calculation of low-density lipoprotein cholesterol in patients with normolipidemia and/or hypertriglyceridemia. JAMA Cardiol. 2020;5(5):540-548. doi:10.1001/jamacardio.2020.0013 (consultado em 29 de outubro de 2026)
  6. Wolska A, Remaley AT. Measuring LDL-cholesterol: what is the best way to do it? Curr Opin Cardiol. 2020;35(4):405-411. doi:10.1097/HCO.0000000000000740 (consultado em 29 de outubro de 2026)
  7. Martins J, Steyn N, Rossouw HM, Pillay TS. Best practice for LDL-cholesterol: when and how to calculate. J Clin Pathol. 2023;76(3):145-152. doi:10.1136/jcp-2022-208480 (consultado em 29 de outubro de 2026)
  8. Nordestgaard BG, Langsted A, Mora S, et al. Fasting is not routinely required for determination of a lipid profile: a joint consensus statement from the European Atherosclerosis Society and European Federation of Clinical Chemistry and Laboratory Medicine. Eur Heart J. 2016;37(25):1944-1958. doi:10.1093/eurheartj/ehw152 (consultado em 29 de outubro de 2026)
  9. SBAC, SBD, SBC, SBEM, SBPC/ML. Consenso Brasileiro para a Normatização da Determinação Laboratorial do Perfil Lipídico. Versão 1.13, 2016. sbac.org.br (consultado em 29 de outubro de 2026)
  10. Ministério da Saúde. SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. gov.br (consultado em 29 de outubro de 2026)

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