O essencial

Diarreia é ter fezes amolecidas ou líquidas três ou mais vezes em 24 horas. Quase sempre vem de uma virose, de uma intoxicação alimentar ou de um remédio e passa em poucos dias. Se durar 4 semanas ou mais, ou vier com sangue, febre ou perda de peso, pede exames de fezes e de sangue.

Os médicos classificam a diarreia pela duração. A aguda costuma passar em menos de uma semana, a persistente dura de 2 a 4 semanas e a crônica dura pelo menos 4 semanas, contínua ou indo e voltando[1]. No Brasil, o Ministério da Saúde chama de doença diarreica aguda o quadro de pelo menos três evacuações líquidas em 24 horas, com duração de até 14 dias[14]. Na escala de Bristol, as fezes moles são os tipos 5 a 7; evacuar muitas vezes com fezes formadas não é diarreia[9][5].

Quando a diarreia é perigosa e pede emergência?

Quando procurar atendimento

  • Emergência: ligue 192 (SAMU) em caso de confusão, desmaio, quase nada de urina, fezes pretas e pegajosas ou muito sangue vivo, ou dor forte na barriga ou no ânus[2]. O SAMU atende 24 horas por dia, todos os dias[16].
  • Em 24 a 48 horas se houver febre acima de 38,3 °C, sangue ou pus nas fezes, vômitos repetidos, seis ou mais evacuações líquidas por dia, diarreia depois de uma viagem ao exterior ou diarreia que começou durante ou depois de um antibiótico[2][4][10].
  • Na próxima consulta se um adulto não melhorou em 5 dias[4], ou se as fezes moles vão e voltam há 4 semanas ou mais[8].

Gravidez, idade acima de 65 anos, imunidade baixa ou antibiótico em uso aumentam o risco de complicações: mantenha o médico informado[1]. Sede, urina escura, tontura e menos urina são os primeiros sinais de desidratação[2]; olhos fundos e boca e língua secas pedem atendimento na unidade de saúde mais próxima[15].

O que pode causar diarreia de repente?

  • Frequente Viroses. Norovírus, rotavírus, adenovírus e astrovírus lideram as causas de gastroenterite viral[2].
  • Frequente Intoxicação alimentar. Salmonella, Campylobacter, E. coli e estafilococo vêm de carne malpassada, leite cru, ou água e comida contaminadas em viagem. A maioria passa em uma semana[2].
  • Frequente Remédios. Antibióticos, antiácidos com magnésio, quimioterápicos e xaropes adoçados com sorbitol ou xilitol[2].
  • Possível C. difficile. Depois de um antibiótico, essa bactéria pode se multiplicar no intestino grosso: 5 a 10 evacuações aquosas por dia, cólicas e febre. Qualquer antibiótico pode desencadear o quadro[10].

Diarreia constante: por que dura semanas?

  • Frequente Síndrome do intestino irritável e diarreia funcional. Diagnóstico feito quando os exames básicos são normais e não há sinais de alarme[8].
  • Frequente Açúcares mal digeridos. Lactose, frutose e adoçantes do tipo poliol; o problema pode durar semanas depois de uma infecção[2].
  • Possível Doença celíaca, que deve ser pesquisada em todo adulto com diarreia crônica[8].
  • Possível Diarreia por ácidos biliares. Aparece em até 30% das pessoas com diagnóstico de intestino irritável com diarreia e explica boa parte da diarreia depois da retirada da vesícula[8][9].
  • Possível Colite microscópica. Só a biópsia mostra; anti-inflamatórios, remédios para o estômago como o omeprazol e a sertralina estão ligados a ela[9].
  • Possível Infecções que não passam. Giardia e outros parasitas intestinais, ou C. difficile[2][7].
  • Rara Doença inflamatória intestinal (doença de Crohn, colite ulcerativa), hipertireoidismo, problemas no pâncreas e câncer colorretal. Perda de peso, anemia, sangue persistente nas fezes ou casos dessas doenças na família pedem investigação rápida, muitas vezes com colonoscopia[7][8].

Quais exames de fezes e de sangue o médico pede?

Uma diarreia curta e leve não precisa de exame. Os exames de fezes servem para febre, fezes com sangue ou muco, cólica forte, infecção grave, antibiótico ou internação recentes[6], e diarreia que não passa. O Ministério da Saúde lembra que a amostra deve ser colhida antes do antibiótico[14]. Os exames de sangue procuram desidratação e doenças que causam diarreia[3].

Exames mais usados para investigar a diarreia em adultos
ExameO que ele responde
Painel metabólico básico (sódio, potássio, ureia, creatinina)Você perdeu líquidos e sais demais?
Hemograma completo e proteína C reativaHá anemia ou inflamação?
Antitransglutaminase IgA com IgA totalPode ser doença celíaca?
TSH, ferritinaProblema de tireoide ou falta de ferro?
Painel molecular gastrointestinal ou coproculturaQual micróbio causa uma infecção com febre ou sangue?
Toxinas ou PCR do C. difficileA diarreia depois de antibiótico ou internação vem do C. difficile?
Antígeno ou PCR de Giardia, parasitológico de fezesHá um parasita envolvido?
Calprotectina fecal ou lactoferrinaA parede do intestino está inflamada?

Na diarreia crônica, os médicos de família americanos começam por hemograma, proteína C reativa, painel metabólico básico, antitransglutaminase IgA e IgA total, e acrescentam TSH ou outros conforme os sintomas[8]; a diretriz britânica inclui a ferritina[9]. Os gastroenterologistas americanos preferem a calprotectina ou a lactoferrina à proteína C reativa e ao VHS para rastrear inflamação, e o exame dirigido para Giardia ao parasitológico de rotina, salvo depois de viagem[7]. No Brasil, o Ministério da Saúde cita o parasitológico de fezes, a coprocultura e a pesquisa de vírus para identificar o agente[14]. Um teste respiratório de hidrogênio verifica as intolerâncias a açúcares[3]. Veja o nosso guia dos tipos de exame de fezes.

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Entender meus resultados

Como entender o resultado dos exames?

Exemplo fictício de laudo depois de 5 semanas de diarreia (formato brasileiro)
ExameResultadoValor de referênciaSinal
Sódio137 mEq/L135 a 145 mEq/L
Potássio3,2 mEq/L3,5 a 5,1 mEq/LB
Ureia54 mg/dL15 a 45 mg/dLA
Creatinina0,9 mg/dL0,6 a 1,2 mg/dL
Hemoglobina13,8 g/dL12,0 a 15,5 g/dL
Antitransglutaminase IgA1,1 U/mLinferior a 4,0 U/mL
Antígeno de Giardia lamblia (fezes)NegativoNegativo
Calprotectina fecal31 µg/ginferior a 50 µg/g
  1. B quer dizer abaixo da faixa do laboratório. O líquido perdido na diarreia leva potássio embora; o potássio baixo pode causar cãibras, fraqueza e batimentos irregulares[11].
  2. A quer dizer acima da faixa. A desidratação é um dos motivos que elevam a ureia[12]; o médico a lê junto com a creatinina (veja a relação ureia/creatinina).
  3. As outras linhas estão normais: anemia, doença celíaca, Giardia e inflamação do intestino ficam menos prováveis.

Calprotectina: o intestino está inflamado?

Abaixo de 50 µg/g, a doença inflamatória intestinal é pouco provável; de 50 a 249, é uma zona cinzenta; acima de 250, sugere inflamação ativa, mas o ponto de corte depende do método[9]. Um valor baixo não descarta a doença quando há sangue, perda de peso ou anemia[8].

Exames de infecção: detectado ou não detectado

O PCR encontra os genes de um micróbio mesmo sem toxina ativa; por isso, um PCR positivo para C. difficile é lido junto com os sintomas e, muitas vezes, com a pesquisa de toxina[9]. Para o C. difficile, uma única amostra costuma bastar[6].

Ácidos biliares: exame ou teste com remédio

A cintilografia SeHCAT é usada no Reino Unido[9], mas não é aprovada nos Estados Unidos, onde se usa o C4 no sangue em jejum quando disponível[8]. Sem esses exames, a diretriz americana aceita um teste com um sequestrante de ácidos biliares[7]: pergunte ao gastroenterologista o que existe na sua região.

O que anotar antes da consulta?

  • A data de início, e se é contínua ou vai e volta
  • Evacuações por dia, o tipo na escala de Bristol e se acordam você à noite
  • Sangue, muco, cor preta, ou fezes gordurosas que boiam (veja fezes amarelas e gordurosas)
  • Mudança de peso, febre, quantidade de urina
  • Remédios novos, antibióticos recentes, suplementos, álcool
  • Viagens, pessoas doentes em casa, casos na família, cirurgia no intestino ou retirada da vesícula

Perguntas frequentes

Posso tomar loperamida ou bismuto para a diarreia?

Para a maioria dos adultos com diarreia aguda, sim, por pouco tempo. Os médicos desaconselham com sangue nas fezes ou febre, e é preciso consultar se a diarreia piorar ou passar de 2 dias com o remédio[13]. Beber bastante, de preferência soro de reidratação oral, é o mais importante[5][14].

Diarreia à noite é sinal de algo grave?

Nem sempre, mas vale contar ao médico. A diarreia aquosa que continua à noite ou em jejum faz pensar numa causa secretora, como perda de ácidos biliares ou colite microscópica, mais do que no intestino irritável[8].

Preciso de colonoscopia para diarreia crônica?

Nem sempre. Ela é feita quando há sinais de alarme, exames de sangue ou fezes alterados, ou nenhuma resposta depois dos primeiros exames. Fazem-se biópsias mesmo se o intestino parecer normal: é assim que se encontra a colite microscópica[8].

Exames e guias relacionados

Referências

  1. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK). Definition & facts for diarrhea. niddk.nih.gov (acesso em 2 nov. 2026)
  2. NIDDK. Symptoms & causes of diarrhea. niddk.nih.gov (acesso em 2 nov. 2026)
  3. NIDDK. Diagnosis of diarrhea. niddk.nih.gov (acesso em 2 nov. 2026)
  4. MedlinePlus Medical Encyclopedia. Diarrhea. medlineplus.gov (acesso em 2 nov. 2026)
  5. Organização Mundial da Saúde. Diarrhoeal disease: fact sheet. who.int (acesso em 2 nov. 2026)
  6. Shane AL, Mody RK, Crump JA, et al. 2017 Infectious Diseases Society of America clinical practice guidelines for the diagnosis and management of infectious diarrhea. Clin Infect Dis. 2017;65(12):e45-e80. doi:10.1093/cid/cix669 (acesso em 2 nov. 2026)
  7. Smalley W, Falck-Ytter C, Carrasco-Labra A, Wani S, Lytvyn L, Falck-Ytter Y. AGA clinical practice guidelines on the laboratory evaluation of functional diarrhea and diarrhea-predominant irritable bowel syndrome in adults (IBS-D). Gastroenterology. 2019;157(3):851-854. doi:10.1053/j.gastro.2019.07.004 (acesso em 2 nov. 2026)
  8. Burgers K, Lindberg B, Bevis ZJ. Chronic diarrhea in adults: evaluation and differential diagnosis. Am Fam Physician. 2020;101(8):472-480. aafp.org (acesso em 2 nov. 2026)
  9. Arasaradnam RP, Brown S, Forbes A, et al. Guidelines for the investigation of chronic diarrhoea in adults: British Society of Gastroenterology, 3rd edition. Gut. 2018;67(8):1380-1399. doi:10.1136/gutjnl-2017-315909 (acesso em 2 nov. 2026)
  10. MedlinePlus Medical Encyclopedia. Pseudomembranous colitis. medlineplus.gov (acesso em 2 nov. 2026)
  11. MedlinePlus Lab Tests. Potassium blood test. medlineplus.gov (acesso em 2 nov. 2026)
  12. MedlinePlus Lab Tests. BUN (blood urea nitrogen). medlineplus.gov (acesso em 2 nov. 2026)
  13. NIDDK. Treatment of diarrhea. niddk.nih.gov (acesso em 2 nov. 2026)
  14. Ministério da Saúde. Doenças diarreicas agudas (DDA). gov.br/saude (acesso em 2 nov. 2026)
  15. Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Diarréia e desidratação. bvsms.saude.gov.br (acesso em 2 nov. 2026)
  16. Ministério da Saúde. SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. gov.br/saude (acesso em 2 nov. 2026)

Este artigo traz informações gerais de saúde. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Se houver sinais de desidratação, sangue nas fezes, febre alta ou dor forte, procure atendimento sem esperar.