O essencial

A eletroforese de proteínas separa as proteínas do sangue em cinco ou seis frações: albumina, alfa-1, alfa-2, beta e gama globulinas. O desenho da curva inteira diz mais do que um número isolado. Um pico estreito (o "pico monoclonal") pede exames complementares, mas a maioria das pessoas que têm um nunca desenvolve câncer.

O laudo da eletroforese de proteínas assusta à primeira vista: uma curva, uma lista de frações e, às vezes, uma frase como "presença de componente monoclonal". O exame coloca uma gota de soro num campo elétrico. Cada proteína anda numa velocidade própria, e as proteínas se agrupam em faixas que o laboratório mede e desenha como picos[1][2]. Este guia lê o laudo completo com você: cada fração, os padrões mais comuns, o que significa um pico monoclonal e quais exames costumam vir depois. Se só uma faixa veio alterada, as páginas de cada fração explicam mais, a começar pelo nosso guia da gama globulina, a faixa onde aparece a maioria dos picos.

Como é o laudo da eletroforese de proteínas?

No Brasil, o laudo costuma trazer as proteínas totais e cada fração em duas formas: em porcentagem do total e em g/dL, além de um comentário do laboratório. Esse duplo formato é o recomendado, porque uma porcentagem sozinha pode enganar[12].

Exemplo fictício de laudo de eletroforese de proteínas séricas (formato brasileiro)
ExameResultadoValores de referênciaSinalização
Proteínas totais7,8 g/dL6,5 a 8,1 g/dL
Albumina3,90 g/dL (50,0%)3,75 a 5,01 g/dL
Alfa-1 globulina0,30 g/dL (3,8%)0,19 a 0,46 g/dL
Alfa-2 globulina0,85 g/dL (10,9%)0,48 a 1,05 g/dL
Beta globulina0,95 g/dL (12,2%)0,48 a 1,10 g/dL
Gama globulina1,80 g/dL (23,1%)0,62 a 1,51 g/dL↑
Componente monoclonal (pico M)0,72 g/dLAusente*
ComentárioPresença de pico monoclonal na região gama. Imunofixação: IgG kappa.
  1. Proteínas totais: a soma de todas as faixas. Podem estar normais mesmo quando uma faixa esconde um problema, como aqui.
  2. Albumina: o maior pico, produzido pelo fígado. Albumina baixa aponta para doença do fígado, perda de proteína pelos rins ou pelo intestino, desnutrição ou inflamação[2][12].
  3. Alfa-1 e alfa-2: carregam as proteínas de fase aguda, que sobem na inflamação[2].
  4. Beta: principalmente transferrina (a proteína que transporta o ferro) e complemento[2].
  5. Gama, sinalizada como alta: a faixa dos anticorpos. Aqui está alta porque contém um pico estreito.
  6. Pico M de 0,72 g/dL: o tamanho da proteína monoclonal, o número que o médico vai acompanhar ao longo do tempo. Um pico nunca é "normal", por isso recebe sinalização mesmo sem faixa de referência.
  7. Imunofixação IgG kappa: diz qual tipo de anticorpo forma o pico[3]. As faixas deste exemplo vêm de um laboratório de referência[4]: compare sempre com os valores impressos no seu próprio laudo.

Recebeu uma eletroforese com curva, porcentagens e um comentário difícil de entender? O BloodSense lê o laudo completo com você, fração por fração, e prepara as perguntas para levar à próxima consulta.

Entender minha eletroforese

O que cada fração da eletroforese de proteínas mede?

Cada faixa é uma família de proteínas, não uma proteína só. A tabela traz faixas típicas de adultos de duas fontes; os valores mudam com o método (gel de agarose ou capilar), e o que vale é a faixa do seu laboratório.

Frações da eletroforese de proteínas séricas, o que contêm e valores de referência típicos em adultos
FraçãoPrincipais proteínasLaboratório de referência (capilar)[4]MedlinePlus[1]Guia completo
AlbuminaAlbumina3,75 a 5,01 g/dL3,6 a 4,8 g/dLExame de albumina
Alfa-1Alfa-1-antitripsina, glicoproteína ácida0,19 a 0,46 g/dL0,2 a 0,4 g/dLAlfa-1 globulina
Alfa-2Haptoglobina, ceruloplasmina, alfa-2-macroglobulina0,48 a 1,05 g/dL0,6 a 0,9 g/dLAlfa-2 globulina
Beta (beta-1 e beta-2)Transferrina, complemento C3, lipoproteínas0,48 a 1,10 g/dL0,6 a 1,1 g/dLBeta-1 e beta-2 globulina
GamaImunoglobulinas (IgG, IgA, IgM)0,62 a 1,51 g/dL0,8 a 1,8 g/dLGama globulina
Proteínas totaisTodas as anterioresFaixa do laudo6,5 a 8,1 g/dLProteínas totais e frações

Para passar de g/dL para g/L, multiplique por 10 (3,9 g/dL = 39 g/L). A albumina costuma representar cerca de 60% das proteínas do plasma[12]; por isso a porcentagem das outras frações sobe quando a albumina cai, mesmo sem aumento real.

Eletroforese de proteínas alterada: como ler os padrões?

O médico olha o formato da curva e quais faixas mudam juntas. O mesmo aumento da gama globulina pode ser inofensivo ou importante, conforme seja largo ou estreito[2].

Padrões comuns da eletroforese de proteínas e o que costumam sugerir
PadrãoO que mudaCausas frequentes
Inflamação agudaAlfa-1 e alfa-2 aumentadas, albumina às vezes baixaInfecção, cirurgia, trauma, crise de uma doença inflamatória[2]
Inflamação crônica (policlonal)Aumento largo e arredondado de toda a faixa gamaInfecção prolongada, doença autoimune como artrite reumatoide ou lúpus, doença crônica do fígado[1][2]
Doença do fígadoAlbumina baixa com aumento largo da gamaCirrose, hepatite crônica[1][2]
Perda de proteína pelos rinsAlbumina baixa, alfa-2 altaSíndrome nefrótica[1][2]
Pico monoclonal (proteína M)Um pico estreito e pontudo, em geral na gama, às vezes na beta (por exemplo, com IgA)[12]GMSI, mieloma múltiplo, macroglobulinemia de Waldenström, amiloidose[2]
Gama baixa (hipogamaglobulinemia)Faixa gama pequena e achatadaRemédios que atingem os linfócitos B, leucemia linfocítica crônica, mieloma, perda de proteína; raramente uma imunodeficiência hereditária[5]

As alterações de uma faixa só estão nos guias de cada fração. Em resumo: beta alta costuma se ligar à falta de ferro ou à gravidez, alfa-1 baixa pode indicar deficiência de alfa-1-antitripsina, e alfa-2 baixa, destruição de glóbulos vermelhos (hemólise)[1][2]. A eletroforese é um marcador grosseiro de inflamação; para isso, o médico prefere a proteína C reativa (PCR) ou o VHS.

O que significa pico monoclonal na eletroforese de proteínas?

O pico monoclonal (proteína M, componente M ou paraproteína) é uma grande quantidade de um mesmo anticorpo, produzido por uma única família de plasmócitos. É um achado de exame, não um diagnóstico.

  • Frequente GMSI (gamopatia monoclonal de significado indeterminado, MGUS em inglês): encontrada em 3,2% das pessoas com 50 anos ou mais e em 5,3% das pessoas com 70 anos ou mais num grande estudo em Minnesota, nos Estados Unidos[6]. Nesse estudo, o pico era menor que 1,0 g/dL em 63,5% dos casos. A GMSI não dá sintomas e evolui para um câncer do sangue em cerca de 1% das pessoas por ano[7].
  • Possível Mieloma latente (indolente) ou macroglobulinemia de Waldenström: pico maior ou mais plasmócitos na medula óssea, ainda sem lesão de órgãos; pedem acompanhamento mais de perto[7].
  • Raro Mieloma múltiplo ou amiloidose AL: só diagnosticados com exame da medula óssea e sinais de lesão de órgãos, como cálcio alto, insuficiência renal, anemia ou lesões nos ossos (os critérios "CRAB")[8][11]. O nosso guia do mieloma múltiplo explica esses critérios.

O tamanho do pico conta, mas não é tudo. A GMSI é definida por um pico abaixo de 3 g/dL, menos de 10% de plasmócitos na medula e nenhuma lesão de órgão[8]. No mieloma o pico costuma passar de 3 g/dL, mas até um quinto das pessoas com mieloma tem pico abaixo de 1 g/dL[2].

Num acompanhamento de 34 anos de 1.384 pessoas com GMSI, o risco de evolução foi de 10% em 10 anos e 18% em 20 anos. Foi menor (7% em 20 anos na GMSI não IgM) quando o pico ficava abaixo de 1,5 g/dL e a relação kappa/lambda era normal[9]. O protocolo do Ministério da Saúde lembra o outro lado: com pico acima de 1,5 g/dL e relação kappa/lambda alterada, esse risco sobe para 20% a 30% em 20 anos[11].

Quais exames vêm depois de uma eletroforese alterada?

A eletroforese é uma fotografia de triagem. Os próximos exames dependem do padrão:

  • Imunofixação sérica (ou imunoeletroforese): identifica o tipo de anticorpo monoclonal (IgG, IgA ou IgM, kappa ou lambda) e encontra picos pequenos demais para aparecer na curva[2][3][11].
  • Cadeias leves livres kappa e lambda no soro: medem as cadeias leves no sangue e a relação entre elas; ajudam quando um mieloma produz só cadeias leves e nenhum pico visível[3]. Veja a nossa página sobre a relação kappa/lambda.
  • Dosagem de imunoglobulinas: IgG, IgA e IgM; no mieloma, um tipo costuma estar alto e os outros baixos[3].
  • Eletroforese e imunofixação de proteínas na urina: muitas vezes na urina de 24 horas, recomendadas quando há suspeita de doença dos plasmócitos[2][3].
  • Avaliação dos órgãos: hemograma completo, cálcio e creatinina, para procurar anemia, cálcio alto e lesão dos rins[8][11].
  • Repetir a eletroforese: na GMSI de baixo risco (tipo IgG, pico abaixo de 1,5 g/dL, relação de cadeias leves normal), novo exame em 6 meses e depois a cada 2 a 3 anos se estável, ou antes se surgirem sintomas[7].

Acompanhamento mais próximo, em 6 meses e depois todo ano, é indicado quando o pico é de 1,5 g/dL ou mais, quando é IgA ou IgM, ou quando a relação de cadeias leves está alterada[7]. Sinais de lesão de órgãos levam a uma consulta rápida com o hematologista[8].

Como se preparar para a eletroforese de proteínas?

É uma coleta de sangue comum, na veia do braço, em tubo de soro (tampa amarela ou vermelha). Em geral não há preparo especial nem jejum prolongado, mas alguns laboratórios pedem até 12 horas de jejum, sobretudo quando outros exames são colhidos junto[1][13]: siga a orientação que você recebeu, como explica o nosso guia sobre jejum para exame de sangue. Conte ao médico sobre vacinas e infecções recentes e todos os remédios, inclusive hormônios, porque podem mexer em algumas faixas[1][10]. Não suspenda nenhum remédio por conta própria.

Quando procurar um médico

  • Emergência: ligue para o SAMU 192[14] em caso de confusão repentina, dor forte nas costas com fraqueza ou dormência nova nas pernas, perda do controle da urina ou das fezes, ou se você quase não urina.
  • Em 24 a 48 horas se uma eletroforese alterada vem junto com dor nova nos ossos, sede intensa, infecções repetidas com febre, inchaço rápido das pernas ou urina com muita espuma.
  • Na próxima consulta para um pico monoclonal pequeno sem sintomas, um aumento largo da gama ou uma alteração leve da albumina: são situações para conversar com calma e, em geral, repetir o exame.

Perguntas para fazer ao médico

  1. O aumento da minha gama globulina é largo (policlonal) ou um pico estreito (monoclonal)?
  2. Se há um pico monoclonal, qual é o tamanho e o tipo na imunofixação?
  3. Preciso dosar cadeias leves, fazer exame de urina ou de medula, ou passar com um hematologista?
  4. Meu resultado é de baixo risco? Quando devo repetir a eletroforese?
  5. A alteração na albumina ou na alfa-2 pode vir do fígado, dos rins ou de uma doença recente?

Perguntas frequentes

Pico monoclonal é câncer?

Não necessariamente. A eletroforese também mostra inflamação e doenças do fígado ou dos rins, e a maioria dos picos encontrados é GMSI, que não é câncer[6][7].

Uma eletroforese normal pode deixar passar um mieloma?

Sim, às vezes. Alguns mielomas produzem só cadeias leves, que podem não formar um pico visível; cerca de 10% das pessoas com mieloma mostram, ao contrário, uma faixa gama baixa[2]. Por isso a imunofixação e a dosagem de cadeias leves entram quando há suspeita de mieloma[3][11].

Qual é a diferença entre eletroforese e imunofixação?

A eletroforese mostra se existe um pico e mede o seu tamanho. A imunofixação (ou imunoeletroforese) usa anticorpos para dizer de que tipo ele é, e é mais sensível para picos pequenos[2][3].

O pico monoclonal pode sumir?

O pico da GMSI costuma ficar estável por anos; o objetivo do acompanhamento é verificar que ele não cresce[7]. O médico dirá com que frequência repetir o exame.

Qual é a diferença entre a eletroforese no sangue e na urina?

A eletroforese sérica estuda as proteínas do sangue. A urinária procura proteínas que passam para a urina, como as cadeias leves (proteína de Bence Jones), que podem escapar no sangue[3][10].

A desidratação muda o resultado?

Sim. A desidratação concentra o sangue e pode aumentar a albumina e as proteínas totais; uma vacina ou infecção recente pode aumentar os anticorpos da faixa gama[10].

Artigos relacionados

Referências

  1. MedlinePlus Medical Encyclopedia. Serum protein electrophoresis. medlineplus.gov (acesso em 2 de novembro de 2026)
  2. O'Connell TX, Horita TJ, Kasravi B. Understanding and interpreting serum protein electrophoresis. Am Fam Physician. 2005;71(1):105-112. aafp.org (PubMed 15663032, acesso em 2 de novembro de 2026)
  3. American Cancer Society. Tests to find multiple myeloma. cancer.org (acesso em 2 de novembro de 2026)
  4. ARUP Laboratories. Protein electrophoresis, serum (test 0050640): reference intervals, specimen and turnaround. aruplab.com (acesso em 2 de novembro de 2026)
  5. Patel SY, Carbone J, Jolles S. The expanding field of secondary antibody deficiency: causes, diagnosis, and management. Front Immunol. 2019;10:33. doi:10.3389/fimmu.2019.00033 (acesso em 2 de novembro de 2026)
  6. Kyle RA, Therneau TM, Rajkumar SV, et al. Prevalence of monoclonal gammopathy of undetermined significance. N Engl J Med. 2006;354(13):1362-1369. doi:10.1056/NEJMoa054494 (acesso em 2 de novembro de 2026)
  7. Kyle RA, Durie BGM, Rajkumar SV, et al. Monoclonal gammopathy of undetermined significance (MGUS) and smoldering (asymptomatic) multiple myeloma: IMWG consensus perspectives risk factors for progression and guidelines for monitoring and management. Leukemia. 2010;24(6):1121-1127. doi:10.1038/leu.2010.60 (acesso em 2 de novembro de 2026)
  8. Rajkumar SV, Dimopoulos MA, Palumbo A, et al. International Myeloma Working Group updated criteria for the diagnosis of multiple myeloma. Lancet Oncol. 2014;15(12):e538-e548. doi:10.1016/S1470-2045(14)70442-5 (acesso em 2 de novembro de 2026)
  9. Kyle RA, Larson DR, Therneau TM, et al. Long-term follow-up of monoclonal gammopathy of undetermined significance. N Engl J Med. 2018;378(3):241-249. doi:10.1056/NEJMoa1709974 (acesso em 2 de novembro de 2026)
  10. Testing.com. Protein electrophoresis and immunofixation electrophoresis. testing.com (acesso em 2 de novembro de 2026)
  11. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Mieloma Múltiplo (Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 90, de 20 de outubro de 2026). gov.br/saude (acesso em 2 de novembro de 2026)
  12. Silva ROP, Lopes AF, Faria RMD. Eletroforese de proteínas séricas: interpretação e correlação clínica. Rev Med Minas Gerais. 2008;18(2):116-122. rmmg.org (acesso em 2 de novembro de 2026)
  13. Rede D'Or, Richet Medicina & Diagnóstico. Eletroforese de proteínas: o que é, como é feito e qual o preparo. rededorsaoluiz.com.br (acesso em 2 de novembro de 2026)
  14. Ministério da Saúde. SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. gov.br/saude (acesso em 2 de novembro de 2026)

Este artigo traz informações gerais de saúde. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Uma eletroforese alterada precisa ser interpretada pelo seu médico junto com os sintomas e os outros exames.