O essencial

“Exame de fezes” é o nome de uma família de exames: a mesma amostra pode ser avaliada quanto ao aspecto, ao sangue oculto, a bactérias, vírus e parasitas, à inflamação e à digestão. O laudo só traz os exames que o médico pediu. Cada linha responde a uma pergunta própria, e várias linhas lidas juntas costumam dizer mais do que uma sozinha.

O exame de fezes analisa uma pequena amostra do cocô para descobrir a causa de uma diarreia, de dor na barriga, de sangramento ou de má digestão, ou para rastrear o câncer de intestino[3][7]. Na rotina dos laboratórios brasileiros, ele reúne análises macroscópicas, microscópicas e bioquímicas, além da pesquisa de bactérias e parasitas[12]. Este guia percorre um laudo completo e depois mostra como as partes se encaixam. Cada exame tem a sua página no nosso guia de exames de fezes, e quem já tem o laudo em mãos pode ir direto à interpretação do exame de fezes.

Exame de fezes serve para quê? Um laudo completo, comentado

Os laboratórios organizam os resultados em blocos: o aspecto da amostra, o que o microscópio mostra, a química, os marcadores de inflamação e de digestão e as pesquisas de infecção[7]. Veja como pode ficar um laudo amplo depois de uma semana de diarreia.

Exemplo fictício de laudo de exame de fezes (formato brasileiro)
ExameResultadoValor de referênciaSinal
Exame macroscópico: corCastanhaCastanha
Exame macroscópico: consistênciaLíquidaFormadaAlterado
Pesquisa de sangue oculto (imunoquímico, FIT)NegativoNegativo
Pesquisa de leucócitos nas fezesPresentesAusentesAlterado
Parasitológico de fezes (EPF)Não foram encontrados ovos, cistos ou larvas de parasitasNegativo
Painel molecular gastrointestinal (PCR): CampylobacterDetectadoNão detectadoAlterado
Painel molecular gastrointestinal (PCR): demais alvosNão detectadosNão detectado
Calprotectina fecal186 µg/ginferior a 50 µg/g↑ Alto
Elastase pancreática fecal412 µg/gsuperior a 200 µg/g
  1. O aspecto vem primeiro. Cor e consistência não têm número. “Líquida” apenas descreve a diarreia que você já sabe que tem.
  2. Negativo, Não detectado, Ausentes, Não foram encontrados: todos querem dizer que o laboratório não achou aquele item nesta amostra, não que ele nunca possa estar lá.
  3. “Alterado” marca os resultados do tipo sim ou não; “↑ Alto”, os números acima da faixa. O sinal nunca substitui a leitura do laudo inteiro.
  4. A história deste laudo: uma bactéria foi encontrada, há leucócitos e a calprotectina subiu. Juntos, esses dados combinam com uma infecção bacteriana do intestino, que sozinha já pode elevar a calprotectina[4].
  5. Unidades: calprotectina e elastase saem em microgramas por grama de fezes (µg/g); compare sempre com a faixa impressa pelo seu laboratório.

Recebeu um laudo de fezes cheio de blocos e sinais? O BloodSense lê o laudo inteiro com você, linha por linha, e lista as perguntas que vale a pena levar ao médico.

Explicar meu exame de fezes

Quais são os tipos de exame de fezes?

Nenhum laboratório faz todos os exames em todas as amostras. O médico escolhe conforme os sintomas, as viagens, os remédios e a idade. A tabela mostra a resposta “normal” mais comum; a faixa do seu laboratório é a que vale.

Principais exames de fezes, o que procuram e o resultado normal mais comum
ExameO que procuraResultado normal mais comumGuia completo
Exame macroscópico: cor, consistência, muco, sangue visívelA aparência das fezesCastanhas e formadas, sem sangue; um pouco de muco pode ser normal[7]Cor das fezes, escala de Bristol
Pesquisa de sangue oculto (FIT ou guáiaco)Sangue que não se vê a olho nuNegativo[3]Sangue oculto nas fezes
Pesquisa de leucócitos e hemáciasSinais de intestino inflamado ou sangrando, ao microscópioAusentes[7]Leucócitos nas fezes
Parasitológico de fezes (EPF ou PPF)Vermes, protozoários e seus ovos ou cistosNegativo[2]Parasitológico de fezes
CoproculturaBactérias como Salmonella, Shigella ou CampylobacterSem crescimento de bactérias patogênicas[1]Coprocultura
Painel molecular gastrointestinal (PCR multiplex)O material genético de muitas bactérias, vírus e parasitas de uma vezNão detectadoPainel molecular
Toxina ou gene do C. difficileDiarreia depois de antibiótico ou de internaçãoNegativo ou não detectadoExame de Clostridium difficile
Calprotectina fecalInflamação da parede do intestinoAbaixo de 50 µg/g dos 4 aos 49 anos[7]; mais alta em crianças pequenasCalprotectina fecal
Elastase pancreáticaSe o pâncreas produz enzimas digestivas suficientesAcima de 200 µg/g[5]Elastase pancreática fecal
Pesquisa de gordura (Sudan III) ou gordura fecal de 72 horasGordura que não foi absorvidaColeta de 72 horas: menos de 6 g por dia[7]Gordura nas fezes
Antígeno fecal de H. pyloriA bactéria do estômago por trás de muitas úlcerasNegativo[6]H. pylori no exame de fezes
pH e substâncias redutorasAçúcares que não foram absorvidos, sobretudo em criançaspH de 7,0 a 7,5; abaixo de 5,5 é ácido[7]pH das fezes

Vale separar dois grupos. Os exames de rastreamento (FIT, teste do guáiaco, FIT-DNA) procuram o câncer de intestino em pessoas sem sintomas[10]; desde maio de 2026, o FIT é o exame de referência do SUS para quem tem de 50 a 75 anos e não tem sintomas[11]. Os exames diagnósticos (coprocultura, PCR, parasitológico, calprotectina, elastase) procuram a causa de sintomas que você já tem.

Como ler os resultados do exame de fezes juntos?

Uma linha sozinha raramente dá a resposta. Estas são as combinações que os médicos mais procuram.

Micróbio encontrado e sinais de inflamação

Uma coprocultura ou um PCR positivo com leucócitos aponta para infecção bacteriana: os leucócitos são típicos da diarreia por bactérias, e não da diarreia por vírus ou parasitas[7]. A calprotectina também pode subir em algumas infecções bacterianas[4], então um valor alto durante uma infecção não quer dizer doença de Crohn. Muitas vezes o médico só repete a dosagem algumas semanas depois[4].

PCR positivo e coprocultura pedida também

Os painéis de PCR são rápidos e estão substituindo a cultura em muitos laboratórios[1]. Quando o painel encontra uma bactéria, a diretriz da sociedade americana de doenças infecciosas (IDSA) recomenda cultivar a mesma amostra, para a vigilância em saúde pública e quando a escolha do antibiótico depende do antibiograma[8]. Uma coprocultura pedida depois de um PCR positivo é rotina, não sinal de que algo deu errado.

Nenhum micróbio, calprotectina alta e que continua alta

Inflamação sem infecção, confirmada num segundo exame, é o quadro que leva ao gastroenterologista, muitas vezes com colonoscopia, para procurar colite ulcerativa ou doença de Crohn. A calprotectina também pode ficar um pouco alta com anti-inflamatórios, doença celíaca ou câncer colorretal[4].

Tudo normal, mas os sintomas continuam

Calprotectina normal torna pouco provável uma inflamação do intestino[4]. Para a diarreia aquosa que se arrasta, a sociedade americana de gastroenterologia recomenda calprotectina ou lactoferrina, antígeno ou PCR de Giardia em vez do parasitológico de rotina (salvo depois de viagem) e exames de sangue para doença celíaca antes de concluir que é síndrome do intestino irritável[9].

Elastase baixa com gordura nas fezes

Fezes gordurosas e malcheirosas, elastase abaixo de 200 µg/g e excesso de gordura apontam para o pâncreas. Entre 100 e 200 µg/g sugere insuficiência pancreática exócrina moderada, e abaixo de 100 µg/g, grave; fezes líquidas podem baixar o resultado falsamente[5]. A pancreatite crônica é uma das causas.

Sangue oculto positivo

Um FIT positivo quer dizer sangramento em algum ponto do tubo digestivo, não necessariamente câncer[3]. No SUS, quem tem sangue oculto detectado no rastreamento é encaminhado para exames complementares, e a colonoscopia é o padrão-ouro para examinar o intestino[11]. Sangue que se vê é outra situação: leia a nossa página sobre fezes com sangue.

Parasitológico negativo, mas a suspeita continua

Um parasitológico negativo pode significar que havia poucos parasitas naquela amostra[2]. Por isso os laboratórios costumam pedir três amostras colhidas em dias diferentes[12], e a Giardia só aparece numa amostra única em 50 a 70% dos casos[7]. Se você viu algo se mexendo, o nosso guia sobre verme nas fezes explica qual exame faz sentido.

Como coletar fezes para exame e o que não fazer antes?

A maioria dos exames de fezes não pede preparo nem jejum[2][3]. Alguns pedem. Confira cada item com quem pediu o exame e nunca pare um remédio por conta própria.

  • Coleta: evacue num recipiente limpo e seco ou sobre um plástico, sem misturar urina nem a água do vaso, que pode ter desinfetante, e passe uma porção para o frasco sem passar da metade[1][12].
  • Parasitológico: nada de laxante ou supositório, e contraste de radiografia na véspera atrapalha; a amostra fica na geladeira, sem congelar, e deve ser colhida mesmo se vier líquida, com muco, pus ou sangue[12].
  • Coprocultura: o laboratório costuma entregar um tubo com meio de transporte (Cary Blair), que deve chegar em até 24 horas, sem ir à geladeira; laxantes e antibióticos interferem no resultado[12].
  • Sangue oculto pelo método antigo (guáiaco): pede três dias de dieta sem carne e sem alguns vegetais e frutas, evita anti-inflamatórios, aspirina, ferro e vitamina C, e não deve ser colhido até 3 dias depois da menstruação nem com sangramento de gengiva, nariz ou hemorroida[12]. O FIT não pede dieta nem preparo, e uma amostra basta[11].
  • Antígeno de H. pylori: alguns remédios precisam ser suspensos de duas semanas a um mês[6], em geral os antibióticos por 4 semanas e os inibidores da bomba de prótons (como o omeprazol) por 1 a 2 semanas[7].
  • Calprotectina: avise se usa anti-inflamatórios (aspirina, ibuprofeno, naproxeno) ou inibidores da bomba de prótons, que podem alterar o resultado[4].
  • Elastase: o ideal é uma amostra sólida ou pastosa; as cápsulas de enzimas pancreáticas podem precisar de pausa[5].
  • Conte ao laboratório sobre viagens, antibióticos e internações recentes: eles mudam quais exames fazem sentido[8].

Quando procurar um médico?

Quando procurar atendimento

  • Emergência: ligue 192 (SAMU) em caso de fezes pretas como piche ou vômito com sangue acompanhados de tontura, desmaio ou coração disparado, ou de dor forte e repentina na barriga que não passa[6]. O SAMU atende 24 horas por dia, todos os dias[14].
  • Em 24 a 48 horas se houver sangue ou pus nas fezes[4], diarreia com febre ou cólicas fortes[8], sinais de desidratação (muita sede, pouca urina, vômitos repetidos)[13] ou um micróbio detectado no laudo com sintomas piorando.
  • Na próxima consulta para uma calprotectina alta, uma elastase baixa, um sangue oculto positivo (para marcar a colonoscopia) ou uma diarreia que volta sempre com exames normais.

Para fezes pretas sem esses sinais, veja fezes escuras: causas e exames.

Perguntas para fazer ao médico

  1. Quais exames de fezes o senhor ou a senhora pediu, e que pergunta cada um responde?
  2. Quantas amostras preciso colher, e em quantos dias?
  3. Devo parar algum remédio antes da coleta, e por quanto tempo?
  4. Se for encontrado um micróbio, ele vai precisar de tratamento ou passa sozinho?
  5. Se a minha calprotectina vier alta, quando devo repetir?
  6. Este é um exame de rastreamento? Se der positivo, qual é o próximo passo?

Perguntas frequentes

Quanto tempo posso guardar as fezes para o exame?

Depende do exame. Para o parasitológico, a amostra fica na geladeira, sem congelar; para o sangue oculto, ela pode ir ao laboratório no mesmo dia ou no dia seguinte se guardada na geladeira; a coprocultura no meio de transporte deve chegar em até 24 horas e não vai à geladeira[12]. Siga sempre o prazo do seu laboratório.

O exame de fezes detecta câncer de intestino?

Os exames de rastreamento procuram sangue oculto (FIT) ou sangue e DNA alterado (FIT-DNA). Eles não fazem o diagnóstico: um resultado positivo leva a uma colonoscopia[10][11]. Veja o nosso guia sobre o câncer de intestino.

O exame de fezes substitui a colonoscopia?

Não exatamente. A colonoscopia vê todo o intestino grosso e retira pólipos durante o exame; o FIT é feito em casa, sem preparo intestinal, e serve para escolher quem precisa da colonoscopia[11]. Fora de um programa organizado, ele deve ser repetido regularmente[10].

Preciso repetir o exame de fezes depois do tratamento?

Na maioria das infecções intestinais, não: repetir o exame não é recomendado quando a diarreia passou, salvo se uma regra local exigir para creche ou para certos trabalhos[8]. O H. pylori é uma exceção: um exame depois do tratamento confirma que a bactéria sumiu[6].

Por que pediram só uma amostra para C. difficile?

Para o C. difficile, uma amostra de fezes diarreicas basta; amostras extras não encontram mais casos[8].

Exames e guias relacionados

Referências

  1. MedlinePlus Medical Encyclopedia. Fecal culture. medlineplus.gov (acesso em 29 out. 2026)
  2. MedlinePlus. Ova and parasite test. medlineplus.gov (acesso em 29 out. 2026)
  3. MedlinePlus. Fecal occult blood test (FOBT). medlineplus.gov (acesso em 29 out. 2026)
  4. MedlinePlus. Calprotectin stool test. medlineplus.gov (acesso em 29 out. 2026)
  5. MedlinePlus. Stool elastase. medlineplus.gov (acesso em 29 out. 2026)
  6. MedlinePlus. Helicobacter pylori (H. pylori) tests. medlineplus.gov (acesso em 29 out. 2026)
  7. Kasırga E. The importance of stool tests in diagnosis and follow-up of gastrointestinal disorders in children. Turk Pediatri Ars. 2019;54(3):141-148. PMID: 31619925 (acesso em 29 out. 2026)
  8. Shane AL, Mody RK, Crump JA, et al. 2017 Infectious Diseases Society of America clinical practice guidelines for the diagnosis and management of infectious diarrhea. Clin Infect Dis. 2017;65(12):e45-e80. doi:10.1093/cid/cix669 (acesso em 29 out. 2026)
  9. Smalley W, Falck-Ytter C, Carrasco-Labra A, Wani S, Lytvyn L, Falck-Ytter Y. AGA clinical practice guidelines on the laboratory evaluation of functional diarrhea and diarrhea-predominant irritable bowel syndrome in adults (IBS-D). Gastroenterology. 2019;157(3):851-854. doi:10.1053/j.gastro.2019.07.004 (acesso em 29 out. 2026)
  10. Centers for Disease Control and Prevention. Screening for colorectal cancer. cdc.gov (acesso em 29 out. 2026)
  11. Instituto Nacional de Câncer (INCA). SUS adota novo exame para detectar câncer de intestino antes de sintomas. 21 maio 2026. gov.br/inca (acesso em 29 out. 2026)
  12. Prefeitura de São Paulo, Secretaria Municipal da Saúde. Manual de coleta laboratorial, capítulo 3: 7.3 Exames de fezes. prefeitura.sp.gov.br (acesso em 29 out. 2026)
  13. Ministério da Saúde. Doenças diarreicas agudas (DDA). gov.br/saude (acesso em 29 out. 2026)
  14. Ministério da Saúde. SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. gov.br/saude (acesso em 29 out. 2026)

Este artigo traz informações gerais de saúde. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Se houver fezes pretas ou com sangue, febre alta, dor forte ou desidratação, procure atendimento sem esperar.