Mpox (varíola dos macacos): sintomas, exame, clados, vacina e tratamento

O essencial
A mpox, doença antes chamada de varíola dos macacos, é uma infecção viral que causa lesões dolorosas na pele, muitas vezes com febre e ínguas. Ela passa sobretudo pelo contato próximo pele com pele, inclusive no sexo, e costuma melhorar em 2 a 4 semanas. A confirmação é feita por um teste molecular (PCR) da secreção ou da crosta de uma lesão, não por um exame de sangue comum. No Brasil, o SUS vacina os grupos de maior risco com a MVA-BN (Jynneos).
O que é a mpox, em resumo?
- Causa: o vírus Mpox (MPXV), do gênero Orthopoxvirus, parente do vírus que causava a varíola. A mpox é bem mais leve e continua circulando[1].
- Dois clados: clado I (subclados Ia e Ib) e clado II (IIa e IIb). O surto mundial de 2022 foi causado pelo clado IIb[1].
- Quantos casos no mundo: de janeiro de 2025 a julho de 2026, 105 países notificaram à OMS 65.784 casos confirmados e 264 mortes[2].
- E no Brasil: 665 casos confirmados em 2026, 94% a menos que em 2022, quando o país passou de 10 mil casos[15].
- Mpox é perigosa? A maioria das pessoas se recupera em casa. Em julho de 2026, 0,5% dos casos confirmados no mundo morreram[2]; as mortes acontecem sobretudo em pessoas com a imunidade muito baixa[7].
- Exame-chave: PCR da secreção da lesão[1][14], em geral junto com testes de HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis[7].
Mpox: quais são os primeiros sintomas?
O Ministério da Saúde indica uma incubação de 3 a 16 dias, podendo chegar a 21[14]; num estudo com 528 pessoas do surto de 2022, a mediana foi de 7 dias[10].
- Comum Lesões na pele, presentes em 95% das pessoas desse estudo. Muitas vezes eram poucas (10 ou menos em 64%) e na região genital ou anal (73%)[10]. Elas também podem surgir no rosto, nas mãos, nos pés, no peito ou na boca[1].
- Comum Febre (62%), cansaço (41%), dores musculares (31%) e dor de cabeça (27%), muitas vezes antes das lesões; ínguas (gânglios inchados) em 56%[10].
- Possível Dor de garganta, dor nas costas[1] e dor ou sangramento no ânus quando há lesões dentro do reto[5].
- Raro Lesões nos olhos, inflamação do coração (miocardite) ou lesão dos rins; cada uma motivou internação em 2 das 528 pessoas[10].
Como as lesões evoluem. Cada lesão passa por fases: manchas, elevações, bolhas, pústulas com uma depressão no centro e crostas. A fase de pústula dura cerca de 5 a 7 dias, e as crostas ficam cerca de uma semana antes de cair[5]. A doença costuma durar de 2 a 4 semanas[5][14]. A pessoa transmite desde o início dos sintomas até que todas as lesões cicatrizem e uma pele nova se forme[1][14].
As lesões da mpox se confundem facilmente com herpes genital, sífilis, catapora, herpes-zóster, molusco contagioso ou escabiose (sarna)[7]. Só o exame diferencia.
Quando procurar atendimento com suspeita de mpox?
Quando procurar atendimento
- Emergência: ligue 192 (SAMU) se houver falta de ar, confusão, rigidez na nuca, dor no peito, olho vermelho e dolorido ou alteração da visão, impossibilidade de engolir ou de urinar, ou lesões que se espalham rápido em alguém com a imunidade baixa.
- Em até 24 a 48 horas, numa UBS ou outro serviço de saúde, se surgirem lesões na pele com febre ou ínguas, feridas na região genital, anal ou na boca, ou depois de contato próximo com um caso suspeito ou confirmado[14]. Até a avaliação, evite contato próximo e use máscara no caminho[4]. Quem tem mais risco de complicações (HIV/aids, gestação, transplante, câncer, crianças, idosos) não deve esperar[14].
- Na próxima consulta para saber se você faz parte de um grupo que pode receber a vacina, ou para programar testes regulares de HIV e de IST.
Mpox é contagiosa? Como se pega e quem corre mais risco?
Sim. O vírus passa pelo contato próximo com uma pessoa infectada: pele com pele, boca com pele ou boca com boca (como no beijo) e contato face a face. Também pode passar por roupas, toalhas ou lençóis contaminados, por animais e da mãe para o bebê na gravidez ou no parto[1].
- Comum Contato sexual. Em 2022, suspeitou-se de transmissão sexual em 95% dos casos, quase todos entre homens gays ou bissexuais[10]. Ter várias parcerias sexuais aumenta o risco[1].
- Possível Contato dentro de casa, que muitas vezes vem depois da transmissão sexual e pode levar a surtos na comunidade[2].
- Raro Acidentes com agulha em serviços de saúde, ou mordidas e arranhões de animais infectados[1].
Mais risco de forma grave: pessoas com a imunidade muito baixa (por exemplo, HIV com CD4 abaixo de 200 ou transplante de órgão), pessoas com eczema ou outras doenças de pele, crianças, gestantes e mulheres que amamentam[7].
O que são os clados I e II, e a mpox ainda é emergência em 2026?
A OMS declarou a mpox emergência de saúde pública de importância internacional (ESPII) em 2022, pelo clado IIb, e em agosto de 2024, pelo clado I na África[1]. A segunda terminou em 5 de setembro de 2025, após queda dos casos; a OMS avisou que a ameaça não tinha passado[3].
Em setembro de 2026, a OMS ainda tratava o surto como emergência graduada, com recomendações prorrogadas até agosto de 2027. Em julho de 2026, 32 países notificaram 1.370 casos, cerca de três quartos na África. Todos os clados circulam; o clado Ib já passa na comunidade em vários países europeus, e o risco global é considerado moderado[2].
No Brasil, o Ministério da Saúde encerrou em junho de 2025 o Centro de Operações de Emergências para mpox, e a resposta voltou à vigilância de rotina do SUS[17]. Em novembro de 2026, com aumento de casos no Rio de Janeiro (218 no ano), o ministério enviou mais 2 mil doses de vacina ao estado[16] e autorizou a compra de até 20 mil doses pela Opas[15].
Os dois clados têm a mesma aparência na pele e são testados, tratados e prevenidos da mesma forma[5].
Qual é o exame de mpox, e como ler o resultado?
O exame preferido detecta o DNA do vírus por PCR (teste molecular). A melhor amostra é a secreção da lesão; quando as lesões já estão secas, podem ser enviadas as crostas[14]. Swabs de garganta ou do ânus servem quando não há lesões de pele[1]. No Brasil, os 27 Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACEN) fazem o teste molecular[17]. Veja um laudo inventado.
| Exame | Resultado | Valor de referência | Situação |
|---|---|---|---|
| Mpox vírus (MPXV), DNA por PCR em tempo real (secreção de lesão, virilha) | Detectado | Não detectado | A |
| Clado do MPXV, PCR | Clado II | Não se aplica | |
| HIV 1/2, anticorpos e antígeno p24 (4ª geração) | Não reagente | Não reagente | |
| Sífilis, teste treponêmico | Não reagente | Não reagente | |
| Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae, biologia molecular (urina) | Não detectado | Não detectado |
- DNA do MPXV, marcado A (alterado): "detectado" confirma a mpox[6]. Alguns laboratórios escrevem "Orthopoxvirus", a família do vírus da mpox. Se o resultado for "não detectado", pergunte se outra causa das lesões foi pesquisada.
- Clado: nem sempre é feito. Um segundo swab é guardado caso seja preciso identificar o clado[6].
- HIV, sífilis, clamídia e gonorreia: o CDC recomenda esses testes para todo adulto e adolescente sexualmente ativo com mpox suspeita ou confirmada[7]. Em 2022, 29% das pessoas testadas tinham outra IST ao mesmo tempo[10]. Veja nossos guias sobre o exame de HIV e os exames de IST.
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Quero meu laudo explicadoPor que o exame de sangue não é o principal. A OMS não recomenda exame de sangue para diagnosticar a mpox[1]: o vírus fica sobretudo nas lesões, por isso o swab vem primeiro. Os testes de anticorpos (IgM e IgG) podem não ajudar, porque não distinguem a mpox de outros ortopoxvírus[1]. Um hemograma completo ou a proteína C reativa podem ser pedidos num quadro grave ou numa infecção da pele, mas esses resultados não confirmam nem descartam a mpox. Saiba mais sobre como funciona o PCR no nosso guia do exame de PCR.
Notificação: todo caso suspeito deve ser notificado em até 24 horas no sistema e-SUS Sinan, conforme a Portaria GM/MS nº 3.328/2022[14].
Que acompanhamento é preciso depois da mpox?
A maioria das pessoas é acompanhada por telefone ou no serviço de saúde até que todas as lesões tenham cicatrizado e uma pele nova tenha se formado, momento em que deixa de transmitir[1]. O acompanhamento olha a dor, os sinais de infecção da pele, os olhos, a boca e o ânus. Se o teste de HIV der positivo, o tratamento antirretroviral deve começar em até 7 dias após o diagnóstico; quem já toma deve continuar[1]. Depois da cura, a OMS orienta usar camisinha por precaução nas relações sexuais durante 12 semanas[1].
Mpox tem cura? Como é o tratamento?
Sim: a maioria dos casos melhora entre 2 e 4 semanas[14]. Não indicamos doses: a equipe médica decide.
- Tratamento de suporte: alívio da dor e da febre, cuidado com as lesões, hidratação e antibiótico se as feridas infeccionarem. A maioria se recupera só com isso[1][8]. O Ministério da Saúde informa que não há medicamento específico aprovado para a mpox[14].
- Tecovirimat: um antiviral aprovado nos Estados Unidos para a varíola[13]. Dois grandes estudos mostraram que ele não acelera a cura. Na mpox de clado I, na República Democrática do Congo, as lesões sumiram em mediana de 7 dias com o remédio e de 8 dias com placebo[12]. Na mpox de clado II, 83% dos pacientes com tecovirimat e 84% com placebo estavam curados no 29º dia[13].
Como prevenir a mpox, e quem pode tomar a vacina?
A vacina MVA-BN (Jynneos) é aplicada em 2 doses, com intervalo de 28 dias[9][15]. Num estudo nos Estados Unidos, duas doses tiveram efetividade de 66% contra a mpox, e uma dose, de 36%[11]. A OMS recomenda vacinar as pessoas de alto risco, sobretudo durante surtos[1].
No SUS, a prioridade são as pessoas vivendo com HIV/aids com CD4 abaixo de 100 células/mm³, que devem procurar o Centro de Referência onde já fazem acompanhamento para cadastro e agendamento. Doses remanescentes podem ir para pessoas com HIV e CD4 abaixo de 200, usuários de PrEP e profissionais de laboratório que manipulam amostras de mpox[15].
- Depois de um contato de médio ou alto risco, procure um serviço de saúde: a vacinação pós-exposição é indicada de preferência nos primeiros 4 dias, e ainda pode ser feita até 14 dias, com menos efeito contra a infecção[14][15].
- Complete as 2 doses: a segunda protege mais[11].
- Com mpox, cumpra o isolamento, evite sexo e contato próximo, cubra as lesões e não compartilhe toalhas, lençóis, roupas nem utensílios até a pele nova se formar[1][14].
Perguntas para fazer ao médico
- Essas lesões podem ser mpox, ou outra infecção como herpes ou sífilis?
- De quais lesões vai ser colhido o material, e quando sai o resultado?
- Devo fazer também os testes de HIV, sífilis, clamídia e gonorreia?
- Até quando preciso ficar isolado, e como proteger quem mora comigo?
- Eu ou minhas parcerias podemos tomar a vacina pelo SUS?
Perguntas frequentes
Mpox é a mesma coisa que varíola dos macacos?
Sim. A OMS mudou o nome da doença para "mpox"[1], e o Ministério da Saúde usa esse nome[14]. Nos Estados Unidos, algumas agências voltaram a usar "monkeypox"[4].
Mpox passa pelo beijo?
Pode passar. O contato boca com boca e boca com pele, como no beijo, está entre as formas de transmissão, assim como a conversa muito de perto[1]. Lesões na boca e a saliva podem transmitir o vírus[14].
A camisinha protege contra a mpox?
Em parte. A camisinha reduz o risco, mas não impede a transmissão pelo contato pele com pele ou boca com pele[1]. Ela continua importante contra outras IST.
Dá para pegar mpox depois de vacinado?
Sim, é possível, porque nenhuma vacina é 100% eficaz. Mesmo assim, a vacina pode ajudar a evitar formas graves, internações e mortes[9].
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Referências
- Organização Mundial da Saúde. Mpox. Fact sheet, 26 de agosto de 2024. who.int (acesso em 7 de novembro de 2026)
- Organização Mundial da Saúde. Multi-country outbreak of mpox. External situation report nº 69. 14 de setembro de 2026. who.int (acesso em 7 de novembro de 2026)
- Organização Mundial da Saúde. Director-General's opening remarks at the media briefing, 5 de setembro de 2025. who.int (acesso em 7 de novembro de 2026)
- CDC (Estados Unidos). Signs and symptoms of monkeypox. 22 de janeiro de 2026. cdc.gov (acesso em 7 de novembro de 2026)
- CDC (Estados Unidos). Clinical signs and symptoms of monkeypox. 14 de janeiro de 2026. cdc.gov (acesso em 7 de novembro de 2026)
- CDC (Estados Unidos). Diagnostic testing for monkeypox. 6 de fevereiro de 2026. cdc.gov (acesso em 7 de novembro de 2026)
- CDC (Estados Unidos). Clinical overview of monkeypox. Atualizado em 19 de agosto de 2026. cdc.gov (acesso em 7 de novembro de 2026)
- CDC (Estados Unidos). Clinical treatment of monkeypox. 15 de janeiro de 2026. cdc.gov (acesso em 7 de novembro de 2026)
- CDC (Estados Unidos). Monkeypox vaccines. 22 de janeiro de 2026. cdc.gov (acesso em 7 de novembro de 2026)
- Thornhill JP, Barkati S, Walmsley S, et al. Monkeypox virus infection in humans across 16 countries, April-June 2022. N Engl J Med. 2022;387(8):679-691. doi:10.1056/NEJMoa2207323 (acesso em 7 de novembro de 2026)
- Deputy NP, Deckert J, Chard AN, et al. Vaccine effectiveness of JYNNEOS against mpox disease in the United States. N Engl J Med. 2023;388(26):2434-2443. doi:10.1056/NEJMoa2215201 (acesso em 7 de novembro de 2026)
- PALM007 Writing Group. Tecovirimat for clade I MPXV infection in the Democratic Republic of Congo. N Engl J Med. 2025;392(15):1484-1496. doi:10.1056/NEJMoa2412439 (acesso em 7 de novembro de 2026)
- Zucker J, Fischer WA 2nd, Zheng L, et al. Tecovirimat for the treatment of mpox. N Engl J Med. 2026;394(9):884-895. doi:10.1056/NEJMoa2506495 (acesso em 7 de novembro de 2026)
- Ministério da Saúde (Brasil). Mpox. Saúde de A a Z. gov.br (acesso em 7 de novembro de 2026)
- Ministério da Saúde (Brasil). Ministério da Saúde autoriza aquisição de 20 mil doses da vacina contra mpox por meio da Opas. 5 de novembro de 2026. gov.br (acesso em 7 de novembro de 2026)
- Ministério da Saúde (Brasil). Ministério da Saúde reforça vacinação e vigilância da mpox no Rio de Janeiro. 4 de novembro de 2026. gov.br (acesso em 7 de novembro de 2026)
- Ministério da Saúde (Brasil). Centro de Operações de Emergências: Mpox. gov.br (acesso em 7 de novembro de 2026)
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