O essencial

ANCA são anticorpos contra proteínas de dentro dos neutrófilos, um tipo de glóbulo branco. O laudo traz um padrão (c-ANCA ou p-ANCA) e, cada vez mais, a dosagem de dois anticorpos: anti-PR3 e anti-MPO. Um ANCA reagente reforça, mas nunca prova sozinho, uma vasculite de pequenos vasos; ele também aparece na retocolite ulcerativa, em doenças do fígado, em infecções e com alguns remédios. Sangue na urina, creatinina subindo ou tosse com sangue junto com um ANCA reagente pedem avaliação rápida.

ANCA no exame de sangue: como entender o meu laudo?

Um laudo de ANCA pode ter quatro partes: a pesquisa (reagente ou não reagente), o padrão, o título e a dosagem de dois anticorpos[2][3]. Veja um exemplo fictício no formato brasileiro.

Exemplo fictício de linhas de laudo de ANCA (formato brasileiro)
ExameResultadoValor de referênciaSinal
ANCA (anticorpos anticitoplasma de neutrófilos), IFIReagenteNão reagenteA
PadrãoPerinuclear (p-ANCA)Não se aplicaA
Título1/320Inferior a 1/20↑
Anticorpo anti-mieloperoxidase (anti-MPO)68 U/mLInferior a 20 U/mL↑
Anticorpo antiproteinase 3 (anti-PR3)Inferior a 2 U/mLInferior a 20 U/mL-
  1. IFI (imunofluorescência indireta): seu soro é colocado sobre neutrófilos fixados numa lâmina e lido num microscópio de fluorescência[2][13]. No Brasil, o resultado costuma sair como "reagente" ou "não reagente"[14].
  2. Padrão: p-ANCA quer dizer que o brilho fica em volta do núcleo; c-ANCA, que ele preenche o citoplasma; "atípico" não se encaixa em nenhum dos dois[2].
  3. Título: a maior diluição do soro que ainda brilha. Um laboratório de referência americano considera normal abaixo de 1/20[4].
  4. Anti-MPO e anti-PR3: medidos por imunoensaio, são a linha que mais pesa na suspeita de vasculite[6]. A unidade (U/mL, UI/mL ou índice) e o ponto de corte dependem do kit: compare só com a faixa impressa ao lado do seu resultado. Aqui o anti-MPO está alto, o par habitual de um p-ANCA[2].

Um p-ANCA com anti-MPO, ou só um "reagente" sem número? O BloodSense explica cada linha do seu laudo ao lado dos exames de rim e de inflamação e ajuda você a preparar as perguntas para o médico.

Entender meu exame de ANCA

Para que serve o exame ANCA?

O uso principal é ajudar no diagnóstico da vasculite associada ao ANCA, uma inflamação dos pequenos vasos sanguíneos, e às vezes acompanhar a doença durante o tratamento[1]. O médico pede o exame diante de sintomas como febre, perda de peso, sinusite que não melhora, manchas na pele, tosse com sangue, dormência ou sangue e proteína na urina[1]. As vias aéreas superiores e inferiores e os rins são os órgãos mais atingidos, e com mais gravidade[8].

As três doenças são a granulomatose com poliangiite (GPA, antiga granulomatose de Wegener), a poliangiite microscópica (PAM) e a granulomatose eosinofílica com poliangiite (GEPA, antiga síndrome de Churg-Strauss)[1]. Muitos especialistas sugerem agrupá-las pelo anticorpo, como doença anti-PR3 ou anti-MPO, e a GEPA como ANCA positiva ou negativa[8]. As recomendações europeias indicam o ANCA junto com a biópsia para firmar o diagnóstico[9].

O segundo uso é na doença inflamatória intestinal: junto com o anticorpo ASCA, o ANCA pode ajudar a separar a retocolite ulcerativa da doença de Crohn quando o diagnóstico está em dúvida[1][7].

Qual a diferença entre c-ANCA e p-ANCA, anti-PR3 e anti-MPO?

c-ANCA e p-ANCA descrevem o que o laboratório vê no microscópio. Anti-PR3 e anti-MPO dão o nome da proteína que o anticorpo realmente ataca. Em 2017, um consenso internacional concluiu que imunoensaios de boa qualidade para PR3 e MPO podem ser o primeiro exame na suspeita de GPA e PAM, sem necessidade obrigatória da imunofluorescência[6]. Por isso alguns laudos mostram só anti-PR3 e anti-MPO, sem padrão. Outros laboratórios fazem a IFI primeiro e confirmam os positivos com MPO e PR3[13].

Padrões de ANCA, anticorpos-alvo e associações habituais
Padrão (IFI)Alvo habitual (imunoensaio)Mais associado a
c-ANCA (citoplasmático)PR3 em cerca de 85%[2]Granulomatose com poliangiite[2]
p-ANCA (perinuclear)MPO em cerca de 90%[2]Poliangiite microscópica; também GEPA[2]
ANCA atípicoAlvos ainda mal definidos[7]Retocolite ulcerativa, doença autoimune do fígado[2][7]

O padrão pode enganar: os anticorpos antinucleares podem fazer a lâmina parecer ANCA positiva. Por isso alguns laboratórios fazem automaticamente o exame de FAN depois de um ANCA reagente, para descartar esse falso positivo[3].

Qual o valor de referência do exame ANCA?

O normal é não reagente: nenhum padrão, título abaixo do ponto de corte do laboratório e anti-PR3 e anti-MPO abaixo dos limites. Os números mudam de um laboratório para outro:

Valores de referência do ANCA em diferentes laboratórios
ExameNormal (negativo)Fonte
ANCA por IFINão reagenteRede D'Or (Brasil)[14]
ANCA por IFINegativoLabcorp (Estados Unidos)[3]
Título de ANCA por IFIInferior a 1/20, nenhum padrão detectadoARUP Laboratories (Estados Unidos)[4]
Anti-MPO (FEIA)Abaixo de 3,5 UI/mL; de 3,5 a 5 indeterminado; acima de 5 positivoLaboratório do Hospital Niguarda (Itália)[5]
Anti-PR3 (FEIA)Abaixo de 2; de 2 a 3 indeterminado; acima de 3 positivoLaboratório do Hospital Niguarda (Itália)[5]

O mesmo número pode ser negativo num kit e positivo em outro: vale a faixa do seu laboratório.

ANCA reagente: quais as causas?

  • Frequente Doença inflamatória intestinal: o ANCA, em geral um p-ANCA atípico, é mais comum na retocolite ulcerativa do que na doença de Crohn[1][2].
  • Possível Outras doenças autoimunes: artrite reumatoide, lúpus e síndrome de Sjögren podem ter p-ANCA ou anti-MPO sem vasculite[2].
  • Possível Vasculite associada ao ANCA (GPA, PAM, GEPA). O ANCA aparece em cerca de 90% das pessoas com GPA[2].
  • Possível Doença autoimune do fígado, como hepatite autoimune ou colangite esclerosante primária[2][7].
  • Possível Infecções, como infecções do pulmão e a infecção das válvulas do coração (endocardite). O ANCA surge em cerca de 10% das pessoas com endocardite[2][10].
  • Possível Remédios: numa série americana de 30 pacientes com anti-MPO muito alto, 33% tinham usado hidralazina (remédio para pressão) e 10% propiltiouracila (remédio para tireoide)[11]. A Rede D'Or cita também a minociclina[14]. Nunca pare um remédio por conta própria.
  • Possível Cocaína misturada com levamisol: o levamisol, um vermífugo, foi encontrado em cerca de 71% das amostras de cocaína nos Estados Unidos. Ele pode causar uma vasculite ANCA com lesões na pele, nos rins e nos pulmões[12].
  • Rara Doença anti-MBG (antimembrana basal glomerular), que atinge rins e pulmões e na qual os especialistas aconselham dosar também anti-PR3 e anti-MPO[7].

Dá para ter ANCA positivo sem vasculite?

Sim. Sem sintomas de vasculite, o consenso internacional de 2020 não recomenda pedir ANCA de rotina na maioria das situações acima[7]. No contexto clínico certo, anti-PR3 e anti-MPO são muito sensíveis e específicos; fora dele, podem enganar[10]. O diagnóstico se apoia nos sintomas, nos exames de urina e de rim, nos exames de imagem e, muitas vezes, numa biópsia[1][9].

Junto com o ANCA, o médico costuma olhar a creatinina e a taxa de filtração glomerular, o exame de urina (EAS), o VHS, a proteína C reativa (PCR) e o hemograma completo[2][14]. Na suspeita de GEPA, a contagem de eosinófilos também é verificada.

Precisa de jejum para o exame ANCA?

Em geral não há preparo especial; o jejum só vale se outro exame colhido junto exigir[1]. Alguns laboratórios brasileiros aconselham 4 horas de jejum[13]: siga a orientação do seu. Antes da coleta, confira esta lista:

  • Leve a lista completa dos seus remédios, inclusive os usados nos últimos meses, como hidralazina ou propiltiouracila[11], e avise se toma biotina (vitamina B7)[14].
  • Conte ao médico se usa drogas recreativas; isso muda a leitura do resultado[12].
  • Fale de uma infecção recente ou de um problema nas válvulas do coração.
  • Leve os laudos de ANCA anteriores: só o mesmo laboratório e o mesmo método se comparam bem.

Dicas práticas estão no nosso guia de como é a coleta de sangue.

Quando um ANCA reagente é urgente?

Quando procurar atendimento

  • Emergência: ligue 192 (SAMU) se você tossir sangue, tiver falta de ar ou estiver urinando muito pouco, qualquer que seja o resultado do ANCA.
  • Em 24 a 48 horas se um anti-PR3 ou anti-MPO positivo vier junto com sangue na urina, proteína na urina, creatinina mais alta do que no último exame, inchaço novo nas pernas, manchas na pele que se espalham ou dormência. Sem tratamento, essa doença tem mau prognóstico; o tratamento melhorou muito a sobrevida[8].
  • Na próxima consulta se você se sente bem e tem um p-ANCA atípico com anti-PR3 e anti-MPO negativos.

Perguntas para fazer ao médico

  1. Meu laudo traz só o padrão ou também anti-PR3 e anti-MPO?
  2. Meu exame de urina e minha creatinina mostram algum sinal nos rins?
  3. Algum dos meus remédios pode explicar esse resultado?
  4. Vou precisar de biópsia, e quando devo repetir o exame?

Perguntas frequentes

ANCA negativo descarta vasculite?

Torna uma vasculite autoimune pouco provável[2], mas não impossível: a GEPA, em especial, também existe numa forma ANCA negativa[8].

O nível de ANCA prevê uma recaída?

Sozinho, não de forma confiável. Os níveis sobem e descem, e o valor de repetir o exame ainda é discutido; ele pode ajudar mais em quem tem os rins atingidos ou é tratado com rituximabe[2][10].

ANCA é a mesma coisa que FAN?

Não. O FAN mira o núcleo da célula e é usado sobretudo no lúpus e doenças parecidas; o ANCA mira o citoplasma dos neutrófilos. Um FAN reagente pode, porém, deixar uma lâmina de ANCA falsamente positiva[3].

Exames relacionados

  1. MedlinePlus. Antineutrophil Cytoplasmic Antibodies (ANCA) Test. US National Library of Medicine. medlineplus.gov (acesso em 5 nov. 2026)
  2. Testing.com. Antineutrophil Cytoplasmic Antibodies (ANCA, MPO, PR3). testing.com (acesso em 5 nov. 2026)
  3. Labcorp. Anti-Neutrophil Cytoplasmic Ab (ANCA) by Indirect Immunofluorescence (IFA) (test 520090). labcorp.com (acesso em 5 nov. 2026)
  4. ARUP Laboratories. Anti-Neutrophil Cytoplasmic Antibody, IgG by IFA (test 3003747). ltd.aruplab.com (acesso em 5 nov. 2026)
  5. ASST Grande Ospedale Metropolitano Niguarda. p-ANCA e c-ANCA, fichas de exames de laboratório. ospedaleniguarda.it (acesso em 5 nov. 2026)
  6. Bossuyt X, Cohen Tervaert JW, Arimura Y, et al. Position paper: Revised 2017 international consensus on testing of ANCAs in granulomatosis with polyangiitis and microscopic polyangiitis. Nat Rev Rheumatol. 2017;13(11):683-692. doi:10.1038/nrrheum.2017.140 (acesso em 5 nov. 2026)
  7. Moiseev S, Cohen Tervaert JW, Arimura Y, et al. 2020 international consensus on ANCA testing beyond systemic vasculitis. Autoimmun Rev. 2020;19(9):102618. doi:10.1016/j.autrev.2020.102618 (acesso em 5 nov. 2026)
  8. Kitching AR, Anders HJ, Basu N, et al. ANCA-associated vasculitis. Nat Rev Dis Primers. 2020;6(1):71. doi:10.1038/s41572-020-0204-y (acesso em 5 nov. 2026)
  9. Hellmich B, Sanchez-Alamo B, Schirmer JH, et al. EULAR recommendations for the management of ANCA-associated vasculitis: 2022 update. Ann Rheum Dis. 2024;83(1):30-47. doi:10.1136/ard-2022-223764 (acesso em 5 nov. 2026)
  10. Kallenberg CG. Usefulness of antineutrophil cytoplasmic autoantibodies in diagnosing and managing systemic vasculitis. Curr Opin Rheumatol. 2016;28(1):8-14. doi:10.1097/BOR.0000000000000233 (acesso em 5 nov. 2026)
  11. Choi HK, Merkel PA, Walker AM, Niles JL. Drug-associated antineutrophil cytoplasmic antibody-positive vasculitis: prevalence among patients with high titers of antimyeloperoxidase antibodies. Arthritis Rheum. 2000;43(2):405-413. doi:10.1002/1529-0131(200002)43:2<405::AID-ANR22>3.0.CO;2-5 (acesso em 5 nov. 2026)
  12. Jin Q, Kant S, Alhariri J, Geetha D. Levamisole adulterated cocaine associated ANCA vasculitis: review of literature and update on pathogenesis. J Community Hosp Intern Med Perspect. 2018;8(6):339-344. doi:10.1080/20009666.2018.1536242 (acesso em 5 nov. 2026)
  13. Diagnósticos do Brasil. ANCA: anticorpos anticitoplasma de neutrófilos C e P. Guia de Exames. gde.diagnosticosdobrasil.com.br (acesso em 5 nov. 2026)
  14. Rede D'Or São Luiz. Anti Neutrófilo ANCA: o que é, como é feito e qual o preparo. rededorsaoluiz.com.br (acesso em 5 nov. 2026)

Este artigo traz informações gerais de saúde. Ele não substitui a consulta médica: o médico interpreta seus resultados junto com seus sintomas, sua história e o exame clínico. Em caso de tosse com sangue ou falta de ar, ligue 192.