Um laudo que fala em sangue na urina, ou hematúria, quer dizer apenas que foram encontradas hemácias (glóbulos vermelhos) na amostra, e esse achado sozinho não diz o que as causou. A palavra cobre duas situações bem diferentes: a urina que você vê vermelha ou marrom, e a urina com aparência totalmente normal, mas com hemácias que só aparecem ao microscópio. As duas merecem atenção, mas levam a próximos passos diferentes, e nenhuma é um diagnóstico por si só.

Neste artigo você vai entender como os laboratórios definem o sangue na urina, por que uma tira positiva precisa ser confirmada ao microscópio antes de qualquer conduta, quais causas são comuns em cada idade, como o médico diferencia um problema nos rins de um problema na bexiga ou na próstata, como as diretrizes de urologia classificam o risco e quais sintomas pedem atendimento sem esperar uma consulta de rotina.

O que significa hematúria no laudo do exame de urina

Os laboratórios informam as hemácias na urina em dois lugares do exame de urina (EAS, urina tipo 1). A tira química dá um resultado para “sangue” ou “hemoglobina”, como negativo, traços ou de uma a três cruzes. A sedimentoscopia, o exame ao microscópio, dá uma contagem. A Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) lembra que a forma de escrever varia: alguns laboratórios informam as hemácias por campo microscópico (média de pelo menos 20 campos de grande aumento), outros usam câmaras de contagem e informam por mm³ ou por mL. Por isso, compare sempre o seu número com os valores de referência impressos no seu próprio laudo.

Nos Estados Unidos, o limite usado é de três ou mais hemácias por campo de grande aumento numa amostra bem colhida. Abaixo disso, o achado costuma ser considerado dentro do normal. Cada parte dessa frase importa: o número, o microscópio e as palavras “bem colhida”. Você pode comparar as linhas do seu laudo lendo o nosso guia de sedimentoscopia.

Por que a forma de coleta muda o resultado

A coleta do jato médio, depois da higiene com água e sabão, reduz a contaminação pela pele, pela região vaginal ou pelo prepúcio. Uma amostra colhida durante ou logo depois da menstruação pode pegar sangue que nunca veio do trato urinário; por isso os laboratórios brasileiros costumam orientar a não colher urina nesse período. Amostras que ficam horas em temperatura ambiente também se degradam: a SBPC/ML cita a redução das hemácias por lise entre as alterações de uma amostra deixada 2 horas fora da geladeira. Se o resultado parece surpreendente, repetir o exame numa amostra nova e bem colhida costuma ser o passo mais útil.

Hematúria macroscópica e hematúria microscópica

Na hematúria macroscópica, o sangue é visível. É preciso muito pouco sangue para mudar a cor da urina, então uma urina rosa, vermelha, cor de chá ou de refrigerante de cola pode vir de um volume bem menor do que a maioria imagina. Isso tranquiliza em termos de perda de sangue, mas não em termos de causa: o sangue visível tem uma chance bem maior de ter uma causa séria por trás do que o achado microscópico, e deve sempre ser avaliado.

A hematúria microscópica é invisível. Em geral é descoberta por acaso, num check-up, num exame admissional, no pré-natal ou numa investigação de outra coisa. A maioria dos casos tem uma explicação benigna, mas uma minoria não, e é exatamente por isso que o achado é acompanhado em vez de ignorado. Mudanças de cor sem nenhuma relação com sangue também são comuns, e você pode revê-las no nosso guia de cor da urina.

Como saber se é sangue na urina ou menstruação?

Fora do período menstrual, sangue no xixi não é normal e merece consulta. Durante ou logo depois da menstruação, é difícil separar as duas coisas, e o mais seguro é repetir o exame de urina alguns dias depois do fim do sangramento, com higiene e coleta do jato médio. Sangue que aparece só no papel higiênico ao se limpar pode vir da vagina, da uretra ou até do ânus, e também merece ser contado ao médico.

Por que a tira positiva precisa ser confirmada ao microscópio

A área de sangue da tira não detecta hemácias diretamente. Ela detecta o grupo heme, a parte da hemoglobina que contém ferro. Qualquer coisa que carregue heme deixa a área positiva, haja ou não hemácias inteiras. A SBPC/ML lembra que a área reage tanto às hemácias íntegras (hematúria) quanto à hemoglobina livre (hemoglobinúria) e que não é específica para hemoglobina, dando positivo também com mioglobina. Isso torna a tira sensível, mas pouco específica, e produz uma lista previsível de positivos enganosos.

A hemoglobina livre, liberada quando as hemácias se rompem dentro do sangue, deixa a área positiva. A mioglobina também, a proteína que carrega oxigênio liberada pelo músculo lesado depois de um esmagamento, de uma convulsão ou de um esforço extremo; quando essa possibilidade surge, o médico muitas vezes dosa a proteína correspondente no sangue, descrita no nosso guia de mioglobina no exame de sangue. Urina concentrada, restos de antissépticos e alguns produtos de limpeza oxidantes também podem distorcer a leitura.

Há ainda as causas que nem são positivos, mas que assustam. Beterraba, amora, ruibarbo e corantes de alimentos podem deixar a urina avermelhada sem nenhuma hemácia. A rifampicina, a fenazopiridina, o sene e alguns laxantes fazem o mesmo. Em todas essas situações, o microscópio resolve a dúvida, porque ou encontra hemácias ou não.

O que produziu o resultadoÁrea de sangue da tiraHemácias ao microscópio
Sangramento verdadeiro no trato urinárioPositivaPresentes, acima da referência do laboratório
Hemoglobina livre por rompimento de hemáciasPositivaPoucas ou nenhuma
Mioglobina por lesão muscularPositivaNenhuma
Contaminação da amostra por menstruaçãoPositivaPresentes, muitas vezes com células epiteliais escamosas
Beterraba, amora, rifampicina, fenazopiridinaNegativaNenhuma
Exercício intenso nos dias anterioresPositivaPresentes, em geral somem na repetição

O que causa sangue na urina, conforme a idade e o sexo

A lista de causas possíveis é longa, mas a pergunta prática é quais são comuns em alguém como você. A infecção urinária é a explicação mais frequente nas mulheres em idade reprodutiva e costuma vir com ardência, urgência ou vontade frequente de urinar; o quadro está descrito no nosso guia de sintomas e exames da infecção urinária. Os outros achados da tira muitas vezes apontam na mesma direção, e por isso o médico lê o sangue junto com o resultado explicado no nosso guia de esterase leucocitária.

As pedras são a causa clássica de sangue com dor súbita, forte, de um lado só, que vem em ondas e pode irradiar para a virilha. O nosso guia de sintomas e tratamento da pedra nos rins mostra o que costuma vir depois desse quadro. Nos homens acima de 50 anos, o aumento benigno da próstata é uma explicação benigna frequente, mas nunca dispensa descartar outras causas.

Causas que precisam ser descartadas, e não presumidas

O câncer urotelial da bexiga ou das vias urinárias altas é pouco comum em números absolutos, mas é a razão de existir de toda a investigação. Ele é muito mais provável depois dos 50 anos, nos homens e, sobretudo, em fumantes e ex-fumantes, e muitas vezes aparece como sangue visível sem dor. O nosso guia de sinais e diagnóstico do câncer de bexiga mostra como essa possibilidade é investigada. Os cânceres de rim e de próstata também podem sangrar na urina.

As doenças das unidades de filtração dos rins formam uma categoria à parte. A nefropatia por IgA é a doença glomerular primária mais comum no mundo e classicamente dá sangue visível um ou dois dias depois de uma dor de garganta ou outra infecção; você pode seguir esse fio no nosso guia de doença de Berger (nefropatia por IgA). Condições herdadas, como a doença da membrana basal fina, o traço falciforme e os distúrbios de sangramento ou de coagulação, completam a lista.

O que pode causar sangue na urina de uma criança?

Nas crianças, as causas mais comuns são a infecção urinária, as pancadas e quedas, o esforço físico intenso e as doenças dos glomérulos que aparecem depois de uma infecção de garganta ou de pele. Pedras são menos comuns do que nos adultos, e o câncer é raro. Sangue visível na urina de uma criança, sobretudo com urina escura, inchaço ou pressão alta, deve ser avaliado pelo pediatra logo.

Pistas de origem nos rins e pistas de origem urológica

Uma das distinções mais úteis de toda a investigação é onde, ao longo do trato urinário, o sangramento começou. O sangue que vem dos glomérulos, os filtros microscópicos dentro do rim, se comporta de forma diferente do sangue que vem dos ureteres, da bexiga, da próstata ou da uretra, e a própria urina traz as provas.

Três achados apontam para os filtros dos rins. Os cilindros hemáticos são moldes cilíndricos de hemácias formados dentro dos túbulos e, quando aparecem, são quase conclusivos; o nosso guia de cilindros na urina explica como eles são informados. As hemácias dismórficas, com formatos distorcidos e irregulares adquiridos ao se espremer pelo filtro, apontam na mesma direção. A SBPC/ML recomenda que o laboratório informe a “presença de dismorfismo eritrocitário” quando há hemácias dismórficas ou acantócitos acima de 10 por campo de grande aumento ou de 10.000 por mL, e considera a hematúria glomerular quando há 40 % ou mais de hemácias dismórficas, 5 % ou mais de acantócitos ou cilindros hemáticos. As diretrizes do Ministério da Saúde para a doença renal crônica usam o mesmo raciocínio: a hematúria de origem glomerular é definida pelos cilindros hemáticos ou pelo dismorfismo no EAS. O terceiro sinal é a proteína em quantidade importante junto com o sangue, e você pode ver como ela é medida no nosso guia de proteína na urina. A função dos rins é então avaliada com o exame de sangue do nosso guia de creatinina no sangue.

O sangramento urológico tem outra cara. As hemácias são uniformes e de formato normal, não há cilindros, a proteína é mínima ou explicada pelo próprio sangue, e podem aparecer coágulos visíveis, já que coágulos não se formam dentro do glomérulo. O tipo de dor também ajuda: dor em cólica no flanco sugere pedra, ardência ao urinar sugere infecção, e sangue visível sem dor num adulto mais velho torna a investigação de câncer prioritária. Quando há suspeita de infecção, o exame de confirmação está no nosso guia de urocultura.

Como as categorias de risco guiam a investigação da hematúria microscópica

Antes de 2020, nos Estados Unidos, todo mundo com hematúria microscópica tendia a receber a mesma investigação intensiva, o que significava muita imagem e cistoscopia para pessoas de risco muito baixo. A Associação Americana de Urologia (AUA) e a SUFU substituíram essa abordagem por uma diretriz baseada em risco, publicada em 2020 e atualizada em 2025. Ela classifica os adultos pela idade, pelo sexo, pelo histórico de tabagismo, pelo número de hemácias encontradas, por qualquer episódio anterior de sangue visível e por outros fatores de risco, como radioterapia pélvica ou exposição a produtos químicos. Essa diretriz é americana, mas é amplamente usada como referência pelos urologistas no Brasil.

A tabela abaixo resume a estrutura. Ela descreve como os médicos costumam conduzir cada categoria; o seu plano depende da sua história e deve ser definido com o seu médico.

Categoria de riscoQuem costuma se encaixarO que a investigação costuma envolver
Baixo riscoAdultos mais jovens, que nunca fumaram ou fumaram pouco, com poucas hemácias num único exame, sem sangue visível e sem outros fatores de riscoDecisão compartilhada entre repetir o exame de urina em até seis meses ou fazer cistoscopia e ultrassom dos rins, se a pessoa preferir ter certeza
Risco intermediárioAdultos de meia-idade, histórico moderado de tabagismo, contagens de hemácias mais altas ou achados que persistem na repetiçãoCistoscopia, uma câmera fina passada até a bexiga, junto com ultrassom dos rins e da bexiga
Alto riscoAdultos mais velhos, muito tabagismo, contagens altas de hemácias, qualquer episódio anterior de sangue visível ou outros fatores de risco estabelecidosCistoscopia e exame de imagem detalhado das vias urinárias altas, em geral urotomografia (tomografia com contraste em várias fases)
Qualquer sangue visívelQualquer pessoa com hematúria macroscópica, em qualquer idadeTratado como situação à parte, que exige avaliação rápida em vez de “esperar para ver”

Por que um resultado normal ainda é útil

Uma grande parte das investigações não encontra nada. Esse resultado não é esforço perdido: ele estabelece um ponto de partida, afasta as possibilidades mais graves e muda a forma como qualquer achado futuro é interpretado. As diretrizes em geral sugerem repetir o exame de urina depois de uma investigação negativa, em vez de exames sem fim, e um resultado normal nessa repetição costuma encerrar o processo.

Quando o sangue na urina é preocupante e pede atendimento imediato

A maioria dos achados microscópicos pode ser conduzida numa consulta de rotina, na Unidade Básica de Saúde (UBS), pelo plano de saúde ou de forma particular. Algumas situações não devem esperar:

  • Urina visivelmente vermelha, rosa, marrom ou cor de refrigerante de cola, mesmo uma única vez e mesmo que clareie no dia seguinte.
  • Sangue com coágulos, ou dificuldade para urinar por causa dos coágulos.
  • Sangue com febre, calafrios ou dor no flanco ou nas costas, o que pode indicar infecção nos rins.
  • Sangue com dor forte de um lado só que vem em ondas.
  • Sangue com impossibilidade total de urinar, que é uma emergência.
  • Sangue depois de uma queda, de uma pancada na barriga ou nas costas, ou de um acidente de trânsito.
  • Sangue com inchaço evidente das pernas ou do rosto, ou queda importante na quantidade de urina, o que aponta para os filtros dos rins.

Em qualquer dessas situações, procure um pronto-socorro ou ligue para o SAMU (192). Usar um anticoagulante não explica o sangue na urina. O anticoagulante pode revelar o sangramento de uma lesão que já estava lá, então a investigação segue do mesmo jeito.

Avanços científicos recentes

As pesquisas publicadas nos últimos três anos se concentraram menos em exames novos e mais em saber se o modelo de risco atual funciona na prática. Segundo o PubMed, quatro achados se destacam para os pacientes.

O maior deles revisou mais de quatro mil adultos com hematúria microscópica que fizeram imagem e cistoscopia, e perguntou se as categorias da AUA realmente previam o que se encontrava. Previam, para os cânceres da bexiga e das vias de drenagem: as pessoas do grupo de alto risco tiveram uma taxa claramente maior desses tumores do que as dos grupos intermediário e baixo, e cada ingrediente do escore, idade, sexo masculino, tabagismo e número de hemácias, teve peso. As mesmas categorias não previram os tumores do rim, que apareceram numa taxa parecida em todos os grupos. Os autores também observaram que mulheres com 70 anos ou mais tiveram uma taxa de câncer de bexiga alta o bastante para justificar tratá-las como alto risco. O que isso significa para você: a categoria de risco é um bom guia para a urgência de examinar a bexiga e um guia mais fraco para o que a imagem dos rins vai mostrar, e esse é um dos motivos pelos quais a imagem continua no plano.

Dois outros estudos avaliaram se a diretriz é de fato seguida. Uma revisão de pacientes da atenção primária mostrou que a maioria das pessoas, inclusive as do grupo de maior risco, nunca chegou a um urologista, e que só uma minoria das investigações feitas seguiu o que a diretriz recomenda. Uma revisão de prontuários num serviço de saúde preventiva mostrou que menos da metade dos adultos com contagem alta de hemácias repetiu o exame de urina em até seis meses. O que isso significa para você é prático: se um resultado falou em sangue na urina, vale confirmar qual é o plano de acompanhamento, em vez de supor que ele já está em andamento. Os dois são estudos retrospectivos, ou seja, os pesquisadores olharam registros existentes em vez de acompanhar pacientes para a frente, então descrevem o que aconteceu em serviços específicos, e não provam o que acontece em todo lugar.

Uma quarta linha de trabalho trata do rim, e não da bexiga. Uma revisão de 2026 defendeu que, na nefropatia por IgA, o sangue microscópico na urina é um sinal pouco usado de inflamação ativa nos filtros, e que acompanhá-lo junto com a proteína pode descrever a atividade da doença melhor do que a proteína sozinha. É uma revisão de evidências acumuladas, e não um ensaio, então reflete uma visão em formação, e não uma mudança firme na prática. O que isso significa para você: quando sangue e proteína aparecem juntos, o nefrologista pode acompanhar os dois ao longo do tempo, em vez de olhar só a proteína.

Uma revisão clínica ampla publicada em 2025 juntou esses fios e destacou um ponto que vale guardar: sangue visível, anemia, sintomas persistentes ou queda da função dos rins são os sinais que devem acelerar a investigação, qualquer que seja o lugar em que o sangue foi notado pela primeira vez.

Glossário

TermoDefinição
HematúriaHemácias presentes na urina, visíveis a olho nu ou detectáveis só ao microscópio.
Campo de grande aumentoUma visão circular pelo microscópio em grande aumento. As hemácias são contadas por campo e se faz a média de vários campos.
Tira reagenteFita plástica com áreas químicas que se mergulha na urina. A área de sangue reage ao heme, e não às células inteiras, então pode dar positivo sem hemácias.
GloméruloUm dos cerca de um milhão de filtros microscópicos de cada rim. O sangramento que começa aqui é chamado glomerular.
Cilindro hemáticoMolde cilíndrico de hemácias formado dentro de um túbulo do rim. A presença dele aponta fortemente para sangramento dos filtros.
Hemácias dismórficasHemácias com formatos distorcidos e irregulares, adquiridos ao passar pelo filtro glomerular.
MioglobinaProteína do músculo que carrega oxigênio. Liberada numa lesão muscular, deixa positiva a área de sangue da tira sem hemácias na urina.
CistoscopiaExame em que uma câmera fina e flexível é passada pela uretra para ver o interior da bexiga.
UrotomografiaTomografia feita em várias fases com contraste, feita para mostrar em detalhe os rins, os ureteres e a bexiga.
Carcinoma urotelialCâncer que nasce do revestimento da bexiga, dos ureteres ou da pelve renal. É o principal tumor que a investigação quer encontrar.

Perguntas frequentes

Sangue na urina é perigoso?

O achado em si não faz mal, e a quantidade de sangue quase nunca basta para causar anemia. O que importa é a causa. A maioria dos casos vem de algo benigno, como infecção, pedra, aumento da próstata ou exercício intenso. Uma minoria reflete uma doença que se beneficia muito do diagnóstico precoce, e é por isso que o achado é investigado em vez de só observado. O sangue visível tem mais chance de ter uma causa importante do que o achado microscópico e deve sempre ser contado ao médico, mesmo que aconteça uma única vez e passe sozinho.

É perigoso sangue na urina feminina?

Nas mulheres antes da menopausa, a infecção urinária é de longe a explicação mais frequente, em geral com ardência, urgência ou desconforto no pé da barriga. A contaminação pelo sangue menstrual é o outro motivo muito comum de um exame positivo, e por isso o médico muitas vezes repete o exame fora do período menstrual. Depois da menopausa, a lista de causas se amplia: o afinamento dos tecidos em volta da uretra, as pedras e, com menos frequência, o câncer de bexiga ficam mais relevantes. A idade muda mais a explicação provável do que o sexo.

É perigoso sangue na urina no homem?

No homem, sobretudo depois dos 50 anos, as causas mais comuns são o aumento benigno da próstata, as pedras e as infecções, incluindo a prostatite, uma inflamação da próstata que pode causar sangue na urina. Mas, como os homens e os fumantes têm mais risco de câncer de bexiga, qualquer sangue visível ou hematúria microscópica persistente num homem adulto merece investigação com o médico ou o urologista.

Hematúria microscópica é sempre câncer?

Não, e na maioria das pessoas não é. Em grandes séries de adultos investigados por sangue microscópico na urina, os cânceres da bexiga e das vias de drenagem aparecem numa pequena porcentagem dos casos, e a taxa é menor em pessoas jovens que nunca fumaram. A investigação existe porque esses cânceres têm ótimo tratamento quando descobertos cedo, e não porque sejam o achado esperado. A classificação de risco é justamente a ferramenta que evita exames intensivos em pessoas de baixo risco que dificilmente se beneficiariam deles.

Exercício pode causar sangue na urina?

Sim. O esforço intenso ou prolongado, sobretudo a corrida, pode causar sangue passageiro na urina, que costuma sumir em poucos dias de descanso. Marchas ou corridas longas também podem romper hemácias e lesar músculos, o que coloca hemoglobina ou mioglobina na urina e deixa a tira positiva sem hemácias. Como os achados ligados ao exercício desaparecem, o habitual é repetir o exame de urina depois de alguns dias sem treino pesado, em vez de começar logo os exames de imagem.

Qual infecção sexualmente transmissível pode causar sangue na urina?

Algumas infecções sexualmente transmissíveis, como a gonorreia e a clamídia, podem inflamar a uretra e causar ardência, secreção e, às vezes, um pouco de sangue na urina. Esse tipo de infecção não aparece na urocultura comum e precisa de exames próprios. Se houve risco de exposição, conte ao médico; no SUS, a testagem e o tratamento das IST são feitos na rede de atenção básica.

O que acontece quando a hematúria microscópica persiste sem infecção?

Hemácias persistentes com urocultura negativa é exatamente a situação para a qual a diretriz baseada em risco foi escrita. Os próximos passos dependem da sua categoria: repetição para o baixo risco, cistoscopia com ultrassom para o risco intermediário e cistoscopia com imagem detalhada para o alto risco. Se aparecem proteína, cilindros hemáticos ou hemácias dismórficas junto com o sangue, o encaminhamento costuma ir para o nefrologista, e não para o urologista, porque esses achados apontam para os filtros, e não para as vias de drenagem.

O sangue na urina pode sumir sozinho?

Muitas vezes parece que sim. O sangue de uma infecção para quando ela é tratada, o de uma pedra para quando ela sai, e o do exercício some com descanso. A dificuldade é que o sangue de um tumor também pode ir e voltar, então um episódio que passou não prova que não havia nada. Um único episódio de sangue visível já basta para justificar a investigação, mesmo que a urina tenha voltado ao normal.

Fontes

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  • Cleveland Clinic (EUA) — Sangue na urina (hematúria): causas, diagnóstico e tratamento — Cleveland Clinic Health Library, revisado em 2025 — my.clevelandclinic.org
  • MedlinePlus, National Library of Medicine (EUA) — Urina com sangue (Urine, bloody) — MedlinePlus Medical Encyclopedia, revisado em 2025 — medlineplus.gov
  • American Urological Association e SUFU — Micro-hematúria: diretriz AUA/SUFU (2020, atualizada em 2025) — American Urological Association, 2025 — auanet.org
  • Udedibia E, Solosky K, Macdonald EJ, et al. — Análise crítica das diretrizes AUA 2020/2025 de hematúria microscópica na previsão de neoplasias uroteliais, mas não corticais renais — The Journal of Urology, 2025 — doi.org/10.1097/JU.0000000000004854
  • An C, Jeong J, Chiu C, et al. — Estratificação de risco e investigação diagnóstica de pacientes com hematúria microscópica na atenção primária — Journal of General and Family Medicine, 2024 — doi.org/10.1002/jgf2.740
  • Munroe D, O’Keefe J, Wang D, Moore MA — Avaliação das diretrizes de 2020 da AUA para hematúria microscópica na prática clínica: revisão retrospectiva de prontuários — JMIR Formative Research, 2025 — doi.org/10.2196/75929
  • Floege J, Fervenza FC, Coppo R — Hematúria microscópica na nefropatia por IgA: um biomarcador de atividade da doença — Clinical Kidney Journal, 2026 — doi.org/10.1093/ckj/sfag003
  • Szymkiewicz S — Significado clínico, diagnóstico diferencial e manejo inicial da hematúria na emergência e no ambulatório — Cureus, 2025 — doi.org/10.7759/cureus.91639
  • Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) — Recomendações da SBPC/ML: realização de exames em urina (hemoglobina na tira; dismorfismo eritrocitário e hematúria glomerular) — Manole, 2017 — controllab.com
  • Ministério da Saúde — Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao Paciente com Doença Renal Crônica (DRC) no Sistema Único de Saúde (hematúria glomerular no EAS) — Brasília, 2014 — docs.bvsalud.org

Leituras recomendadas

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