Sedimentoscopia: o que é no exame de urina e como ler cada linha do resultado

A sedimentoscopia é a parte do exame de urina (EAS, urina tipo 1, sumário de urina) que descreve o que o laboratório realmente viu ao microscópio depois de centrifugar a sua amostra. A tira reagente dá um retrato químico rápido; a sedimentoscopia olha o material sólido que sobra no fundo do tubo e o conta: hemácias, leucócitos, bactérias, leveduras, cristais, cilindros e células epiteliais. É por isso que uma única amostra de urina pode gerar um laudo com uma dúzia de linhas diferentes, cada uma com sua unidade e seus valores de referência.
Neste artigo você vai entender como o laboratório prepara a lâmina, por que algumas amostras passam pelo microscópio e outras não, e o que significa cada linha do laudo. Cada achado é apresentado rapidamente aqui e tem um link para uma página própria, caso você queira os detalhes. O objetivo é orientar: ao final, você deve conseguir olhar o seu laudo e saber qual linha importa, qual é rotina e qual vale uma conversa com o médico.
O que é a sedimentoscopia no exame de urina
A urina não é só água e sais dissolvidos. Ela também carrega elementos figurados, ou seja, partículas sólidas que mantêm uma forma reconhecível. Alguns são eliminados normalmente pelo revestimento das vias urinárias. Outros só aparecem quando algo está inflamado, infectado, sangrando ou filtrando mal. A sedimentoscopia é a única parte do exame de rotina que identifica essas partículas pela aparência, e não por uma reação química.
Essa diferença importa, porque a química pode ser enganada. A área de sangue da tira pode reagir à hemoglobina liberada por hemácias rompidas, mesmo sem nenhuma célula inteira. O microscópio responde a outra pergunta: as células estão fisicamente lá, quantas são e como elas são.
Onde ela fica no exame de urina completo
O exame de urina completo tem três camadas. O exame físico registra cor, aspecto e densidade. A tira registra cerca de dez áreas químicas, incluindo pH, glicose, cetonas, sangue e proteína. A sedimentoscopia é a terceira camada, e é a que exige um profissional treinado ou um analisador de imagem, e não uma escala de cores. A sigla EAS vem justamente disso: “elementos anormais e sedimentoscopia”. A Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) lista os muitos nomes do mesmo exame no Brasil, como rotina de urina, urina tipo 1, sumário de urina, EAS, EQU e urinálise, e lembra que cada laboratório pode incluir itens um pouco diferentes.
Como o laboratório transforma a sua amostra numa lâmina
O preparo é padronizado, e entendê-lo explica várias manias do laudo. Um volume medido de urina, em geral cerca de 10 a 12 mL, vai para um tubo cônico e é centrifugado por alguns minutos. Os elementos mais pesados se juntam no fundo, formando o sedimento. A maior parte do líquido claro de cima é descartada, o sedimento é ressuspendido no pouco líquido que resta, e uma gota desse concentrado vai para a lâmina.
Segundo a SBPC/ML, o técnico deve avaliar pelo menos 20 campos de grande aumento (400×) para células epiteliais, leucócitos e hemácias, e 20 campos de pequeno aumento (100×) para cilindros, e informar a média por campo. A mesma recomendação lembra que esses resultados são sempre semiquantitativos, porque o volume exato da gota é desconhecido. Como a amostra foi concentrada antes da leitura, as contagens não medem diretamente quantas células havia na sua bexiga. São contagens num campo de visão padronizado de um concentrado padronizado, e é por isso que as unidades parecem estranhas.
Microscópio manual ou analisador automático
Muitos laboratórios hoje passam as amostras num analisador automático de partículas, que fotografa ou separa os elementos por fluxo e os classifica por software. Esses aparelhos são rápidos e reprodutíveis, e os estudos que os comparam com um técnico ao microscópio mostram boa concordância para hemácias, leucócitos e células epiteliais escamosas. A concordância é menor para cilindros e cristais incomuns, e por isso a maioria dos laboratórios mantém regras que mandam algumas amostras para revisão manual. No Brasil, o manual do Serviço de Análises Clínicas da USP de Ribeirão Preto, por exemplo, descreve um exame de rotina com análise química automatizada e microscopia com contraste de fase.
Quando o laboratório acrescenta o exame ao microscópio
Você pode ter notado que alguns exames de urina antigos tinham a parte da sedimentoscopia e outros paravam na tira. Isso pode ser de propósito, principalmente em laboratórios que usam a chamada triagem pela tira. Em vez de colocar toda amostra no microscópio, o laboratório define regras: se a tira passa de certos limites, o exame ao microscópio é feito automaticamente na mesma amostra, sem você precisar voltar. No Brasil, o EAS costuma trazer a sedimentoscopia, como o próprio nome do exame indica.
Os gatilhos habituais são a área de sangue positiva, a de proteína positiva, a de nitrito positiva e a de esterase leucocitária positiva. Duas dessas áreas merecem ser entendidas sozinhas: explicamos o produto das bactérias por trás de uma delas no nosso guia de nitrito na urina e a enzima dos glóbulos brancos por trás da outra no nosso guia de esterase leucocitária. A proteína positiva também é um gatilho comum, e você pode ver o que essa área detecta no nosso guia de proteína na urina.
O médico também pode pedir a sedimentoscopia diretamente, independentemente da tira, quando tem uma pergunta específica, como acompanhar uma doença renal conhecida ou investigar sangue visível.
Qual o valor normal da sedimentoscopia: como ler o laudo linha por linha
Esta é a parte que a maioria das pessoas procura. A tabela abaixo percorre cada linha que você provavelmente vai ver, como o laboratório a informa, o que costuma ser considerado normal e para o que um resultado alto pode apontar. Os valores de referência mudam entre laboratórios, e os brasileiros informam as células por campo, por mm³ ou por mL; leia sempre o seu laudo comparando com a faixa impressa ao lado.
| Achado | Como é informado | Normal típico | Para o que um resultado alto pode apontar |
|---|---|---|---|
| Hemácias | Número por campo de grande aumento, ou por mL | De 0 a cerca de 3 por campo (ou o limite do seu laboratório) | Infecção, pedras, exercício intenso, contaminação menstrual, doença da bexiga ou dos rins |
| Leucócitos (piócitos) | Número por campo de grande aumento, ou por mL | De 0 a cerca de 5 por campo | Infecção urinária, irritação, inflamação dos rins |
| Bactérias | Ausentes, raras, algumas, numerosas, ou por microlitro | Ausentes ou raras | Infecção verdadeira, ou contaminação da amostra pela pele e pela região genital |
| Leveduras | Ausentes ou presentes (raras, algumas, numerosas) | Ausentes | Candidíase, contaminação, diabetes, antibióticos recentes |
| Células epiteliais escamosas | Raras, algumas, numerosas | Raras ou algumas | Em geral uma amostra mal colhida, e não doença |
| Células epiteliais tubulares renais | Número por campo de grande aumento | Raras ou ausentes | Lesão dos túbulos de filtração dos rins |
| Cilindros hialinos | Número por campo de pequeno aumento | De 0 a poucos | Desidratação, febre, exercício pesado; muitas vezes não é sinal de doença |
| Cilindros celulares ou granulosos | Número por campo de pequeno aumento | Ausentes | Doença renal ativa nos filtros ou nos túbulos |
| Cristais | Tipo nomeado e depois raros, alguns ou numerosos | Alguns cristais comuns podem ser normais | Tendência a formar pedras, distúrbios metabólicos, alguns remédios |
| Filamentos de muco | Ausentes ou presentes (+ a +++) | Pequenas quantidades são normais | Irritação ou contaminação; raramente importa sozinho |
| Espermatozoides | Ausentes ou presentes | Podem estar presentes, não é achado de doença | Ejaculação recente; anotado só para completar |
Como as contagens são informadas
Duas unidades dominam. O campo de grande aumento (às vezes escrito “400x” ou “p/c”) é o que o técnico vê no aumento maior, usado para elementos pequenos como hemácias, leucócitos e células tubulares. O campo de pequeno aumento é uma visão mais ampla, usada para estruturas maiores, como cilindros e placas de células escamosas. Os analisadores automáticos muitas vezes informam células por microlitro ou por mL, e o laboratório converte ou imprime as duas formas. Como as unidades mudam, nunca compare um número de um laboratório diretamente com o de outro sem conferir qual unidade foi usada.
O que significa +++ no exame de urina?
As cruzes são uma forma de graduar a quantidade de um elemento ou de uma substância: uma cruz (+) é pouco, duas (++) é moderado e três (+++) é bastante. No sedimento, elas aparecem com frequência para muco, bactérias, leveduras e cristais. Três cruzes de muco ou de cristais comuns raramente importam sozinhas; três cruzes de bactérias junto com muitos leucócitos já sugerem infecção, e o médico costuma pedir uma urocultura.
Para o que os achados alterados podem apontar
Sangue e inflamação
Hemácias acima da referência se chamam hematúria, e o microscópio acrescenta algo que a tira não consegue: o formato das células. Hemácias redondas e uniformes costumam vir de algum ponto das vias de drenagem, como uma pedra ou a parede da bexiga. Hemácias distorcidas e irregulares, as dismórficas, sugerem que o sangue passou pelo próprio filtro do rim; a SBPC/ML recomenda que o laudo informe a “presença de dismorfismo eritrocitário” quando elas passam de 10 por campo ou de 10.000 por mL. Explicamos os dois padrões no nosso guia de sangue na urina. Os leucócitos aumentados têm um guia próprio, o de leucócitos na urina, e, quando a contagem está claramente alta, o laudo pode usar uma palavra só para isso, definida no nosso guia de piúria.
Infecção
Bactérias na lâmina sugerem, mas não confirmam, porque a amostra pode pegar germes no caminho. A combinação que tem peso é bactérias com leucócitos e uma tira compatível. Explicamos como os laboratórios graduam esse achado no nosso guia de bactérias na urina, e o equivalente com fungos no nosso guia de leveduras na urina. Quando a infecção é de fato suspeita, a sedimentoscopia é uma triagem, e o exame de confirmação é a cultura, explicada no nosso guia de urocultura.
Pistas que vêm dos rins
Os cilindros são o que há de mais específico dos rins no laudo. Eles se formam dentro dos pequenos túbulos do rim, tomando a forma cilíndrica do túbulo, e prendem o que estava flutuando lá dentro. Um cilindro cheio de hemácias é uma forte evidência de que o sangramento começou no rim, e não na bexiga. Descrevemos cada tipo no nosso guia de cilindros na urina. Os cristais são outra história, já que muitos se formam depois que a amostra esfria, e não dentro de você; separamos os inofensivos dos importantes no nosso guia de cristais na urina. As células epiteliais ficam no meio do caminho, porque a origem delas decide o significado, como explica o nosso guia de células epiteliais na urina.
Por que o horário e a coleta mudam o resultado
A sedimentoscopia é muito sensível à forma como a amostra foi manuseada, e isso explica muitos resultados que parecem assustadores, mas não são. A coleta do jato médio, feita depois da higiene com água e sabão e desprezando o primeiro jato, reduz muito as células escamosas e as bactérias da pele. Uma amostra urinada direto no frasco, sem esse cuidado, muitas vezes mostra muitas células escamosas, e o laboratório que vê muitas delas frequentemente anota que a amostra pode estar contaminada.
O tempo importa tanto quanto. Em temperatura ambiente, a urina muda: as bactérias se multiplicam, as hemácias e os cilindros frágeis se desfazem e os cristais podem se formar enquanto a amostra esfria. A SBPC/ML lista a redução das hemácias, dos leucócitos e dos cilindros entre as alterações de uma amostra deixada 2 horas fora da geladeira, e o manual da USP de Ribeirão Preto pede a entrega em até 1 hora, ou em até 4 horas sob refrigeração. Se a sua amostra ficou no carro ou numa sala de espera, uma contagem baixa de hemácias ou um cilindro perdido pode refletir o atraso, e não os seus rins. A página da Mayo Clinic sobre o exame de urina faz a mesma observação sobre colher uma amostra limpa.
Como saber se o resultado do exame de urina está normal?
Compare cada linha com os valores de referência impressos ao lado e procure os itens que o próprio laboratório destaca, em negrito, com asterisco ou com uma seta, conforme o padrão de cada um. Um exame de rotina normal costuma ter tira negativa para proteína, glicose, sangue, nitrito e esterase, e sedimento com poucos leucócitos e hemácias, poucas células escamosas e nenhum cilindro além de raros hialinos. Uma linha fora da faixa não significa, por si só, uma doença; leve o laudo completo ao seu médico.
Quando procurar o médico
Uma única linha alterada na sedimentoscopia raramente é uma emergência sozinha, mas algumas combinações merecem atenção rápida em vez de “esperar para ver”. Procure um médico sem demora se você vir sangue na urina, se tiver febre com dor nas costas ou no flanco, se tiver ardência ao urinar que está piorando ou se estiver urinando muito pouco; em caso de emergência, ligue para o SAMU (192). Marque uma consulta sem urgência, na Unidade Básica de Saúde (UBS), pelo seu plano de saúde ou de forma particular, se hemácias aparecerem em duas amostras diferentes, se forem informados cilindros que não sejam hialinos, se aparecerem células epiteliais tubulares renais, ou se bactérias e leucócitos estiverem aumentados sem nenhum sintoma. Leve o laudo impresso ou em PDF, porque as contagens e as unidades exatas orientam o próximo passo muito melhor do que a lembrança da conclusão.
Avanços científicos recentes
As pesquisas publicadas nos últimos três anos se concentraram menos em achados novos ao microscópio e mais em tornar o exame atual confiável e mais bem direcionado. Veja o que mudou, em termos simples.
Os especialistas europeus em medicina laboratorial publicaram em 2024 uma atualização completa da sua diretriz de exame de urina, a primeira grande revisão em mais de duas décadas. Ela define como as amostras devem ser colhidas, como as partículas devem ser contadas e como o laboratório deve conferir um novo aparelho automático contra o microscópio antes de confiar nele. O que isso significa para você: as unidades e os limites impressos no seu laudo estão se aproximando entre os países, então a contagem de um laboratório acreditado deve, cada vez mais, querer dizer o mesmo que a de outro.
Uma equipe da Johns Hopkins testou o que acontece quando a amostra de urina espera. Com amostras de pacientes de terapia intensiva, eles mediram a mesma urina várias vezes ao longo de seis horas e viram que as bactérias aumentaram, enquanto as hemácias e os cilindros anormais diminuíram. A maioria dos outros componentes ficou estável. O que isso significa para você é simples e prático: uma amostra que fica parada pode exagerar a infecção e esconder sangramento ou achados dos rins, então entregar logo, ou repetir a amostra se houve uma demora longa, melhora de verdade a resposta. Foi um estudo pequeno, num único cenário, então aponta uma direção sem fechar a questão.
Um grupo hospitalar no Brasil estudou quais resultados da tira deveriam levar uma pessoa a olhar o sedimento ao microscópio em pacientes de nefrologia. Revisando várias centenas de amostras, viram que proteína na tira de uma cruz ou mais, ou sangue de duas cruzes ou mais, pegavam cerca de sete em cada dez amostras que tinham achados ligados aos rins, ainda filtrando a maior parte das outras. O que isso significa para você: a regra que decide se a sua amostra vai ao microscópio está passando a ser definida por evidência, e não por hábito, embora cada laboratório ainda a ajuste aos pacientes que atende.
Do lado dos aparelhos, uma equipe belga e finlandesa avaliou um analisador de fluxo mais novo, uma máquina que fotografa as partículas enquanto elas passam diante de uma câmera, comparando-o com um técnico usando microscopia de contraste de fase em mais de mil amostras frescas. A concordância foi muito boa para hemácias, leucócitos e células escamosas, e claramente melhor que a de aparelhos antigos para diferenciar os tipos de cristal. Foi mais fraca para os cilindros. O que isso significa para você: a automação já é confiável para as linhas do dia a dia do laudo, enquanto as linhas específicas dos rins ainda se beneficiam da revisão humana.
Por fim, uma revisão numa revista de química clínica avaliou como a inteligência artificial está sendo aplicada ao exame de urina, da classificação de imagens do sedimento à triagem de infecção urinária. Os autores concluíram que os resultados são animadores, mas vêm quase todos de estudos que olham para trás, em dados guardados, e que ainda faltam grandes estudos que acompanhem pacientes para a frente. O que isso significa para você: essas ferramentas estão chegando aos laboratórios, mas apoiam o técnico em vez de substituí-lo, e o médico continua interpretando o resultado no contexto dos seus sintomas.
Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Sedimento | Material sólido que se junta no fundo do tubo depois que a urina é centrifugada. É a parte colocada na lâmina e lida ao microscópio. |
| Elementos figurados | Qualquer partícula da urina que mantém uma forma reconhecível, incluindo células, cilindros, cristais e microrganismos. |
| Campo de grande aumento | O círculo de visão no aumento maior (400×). Elementos pequenos, como hemácias e leucócitos, são contados por campo. |
| Campo de pequeno aumento | O círculo de visão mais amplo, no aumento menor (100×), usado para contar estruturas maiores, como cilindros. |
| Cilindro | Molde de proteína formado dentro de um túbulo do rim, que pode carregar células presas. Indica que o achado veio do próprio rim. |
| Hemácia dismórfica | Hemácia com formato distorcido, o que sugere que ela foi danificada ao passar pelo filtro do rim. |
| Piócitos | Nome antigo, ainda usado em alguns laudos, para os leucócitos vistos no sedimento. |
| Jato médio | Forma de coleta em que se faz a higiene e se despreza o primeiro jato, reduzindo a contaminação da amostra. |
| Microscopia de contraste de fase | Ajuste do microscópio que aumenta o contraste de estruturas transparentes, facilitando ver cilindros pálidos e contornos de células. |
| Célula epitelial escamosa | Célula grande e achatada que se solta da abertura da uretra ou da pele genital. Muitas delas em geral indicam amostra contaminada. |
Perguntas frequentes
Qual é o valor normal da sedimentoscopia?
Muitos laboratórios consideram normal até cerca de 3 hemácias e até cerca de 5 leucócitos por campo de grande aumento, com cilindros ausentes, exceto alguns hialinos ocasionais. Bactérias, leveduras e células tubulares costumam estar ausentes ou raras, enquanto algumas células escamosas e alguns cristais comuns são aceitáveis. Esses números vêm de intervalos de referência que cada laboratório valida para seus aparelhos e sua população, e muitos laudos brasileiros usam valores por mL; por isso, a faixa impressa ao lado do seu resultado é a que vale para você.
O que são piócitos no exame de urina?
Piócitos é um termo antigo, ainda usado em alguns laudos, para os leucócitos vistos no sedimento. Não significa pus visível na urina. A contagem é lida como qualquer contagem de leucócitos, por campo ou por mL, e a interpretação é a mesma: alguns podem ser normais, enquanto um número claramente alto sugere infecção ou inflamação em algum ponto do trato urinário. Se o seu laudo usa essa palavra, leia como a linha dos leucócitos.
O que significa uma sedimentoscopia alterada?
Significa que um ou mais elementos foram vistos em número acima da referência, ou que apareceu algo que deveria estar ausente. Sozinho, isso é um sinal para olhar mais, e não um diagnóstico. O mesmo achado pode vir de uma infecção, de uma pedra, de um treino pesado recente, da menstruação, de um remédio ou simplesmente de uma amostra mal colhida ou lida tarde. O médico pesa o padrão de todas as linhas, os seus sintomas e os resultados anteriores antes de decidir se é preciso fazer algo.
Preciso de urocultura além da sedimentoscopia?
Nem sempre. A sedimentoscopia pode sugerir infecção quando bactérias e leucócitos aparecem juntos, mas não consegue dizer qual é o germe nem prever qual antibiótico vai funcionar. A urocultura com antibiograma faz as duas coisas e costuma ser acrescentada quando os sintomas apontam para infecção, quando o sedimento e a tira concordam, na gravidez ou quando um tratamento anterior falhou. Se o sedimento está limpo e você não tem sintomas, muitas vezes a urocultura não é necessária.
Por que as células epiteliais vieram altas?
Na maioria das vezes, pela forma como a amostra foi colhida, e não porque há algo errado. As células escamosas se soltam da pele em volta da abertura da uretra, então uma amostra colhida sem higiene, ou sem desprezar o primeiro jato, as recolhe em quantidade. Os laboratórios muitas vezes marcam essas amostras como possivelmente contaminadas e podem pedir uma nova. As células epiteliais tubulares renais são outra história e são investigadas, já que vêm de dentro do rim.
Quanto tempo demora o resultado da sedimentoscopia?
O exame em si leva minutos depois que a amostra chega à bancada, e muitos laboratórios liberam o exame de urina completo, com a sedimentoscopia, no mesmo dia ou no dia seguinte, no site ou no aplicativo do laboratório. O laboratório deve informar no comprovante de atendimento a data prevista de entrega do laudo. Como o sedimento muda em poucas horas em temperatura ambiente, os laboratórios preferem ler logo ou refrigerar a amostra, então entregar o frasco rápido ajuda tanto na rapidez quanto na precisão do resultado.
Fontes
- A.D.A.M. Health Solutions — Exame de urina (Urinalysis) — MedlinePlus Medical Encyclopedia, National Library of Medicine (EUA), revisado em 2025 — medlineplus.gov
- Cleveland Clinic (EUA) — Exame de urina: o que é, finalidade, procedimento, resultados e tipos (Urinalysis) — Cleveland Clinic Diagnostics and Testing, revisado em 2024 — my.clevelandclinic.org
- Mayo Clinic (EUA) — Exame de urina (Urinalysis) — Mayo Clinic Tests and Procedures, 2025 — mayoclinic.org
- Kouri TT, Hofmann W, Falbo R, Oyaert M, et al. — Diretriz europeia EFLM de exame de urina 2023 — Clinical Chemistry and Laboratory Medicine, 2024 — doi.org/10.1515/cclm-2024-0070
- Parikh PC, Souza SD, Obeid W — Mudanças na composição da urina em seis horas, pela tira e pela microscopia automatizada — BMC Nephrology, 2025 — doi.org/10.1186/s12882-024-03933-z
- Freitas PAC, da Silva YDS, Poloni JAT, Veronese FJV, Goncalves LFS — Proteinúria e hematúria na tira como gatilhos para revisão microscópica manual em pacientes de nefrologia — Journal of Clinical Medicine, 2025 — doi.org/10.3390/jcm14134522
- Oyaert M, Kouri T, Carton E, Deprez S, Lambrecht S, Speeckaert M — Avaliação do analisador de morfologia em célula de fluxo AUTION EYE AI-4510 para contagem de partículas na urina — Clinical Chemistry and Laboratory Medicine, 2025 — doi.org/10.1515/cclm-2024-1163
- De Bruyne S, De Kesel P, Oyaert M — Aplicações da inteligência artificial no exame de urina: o futuro já chegou? — Clinical Chemistry, 2023 — doi.org/10.1093/clinchem/hvad136
- Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) — Recomendações da SBPC/ML: realização de exames em urina (nomenclatura do exame; cap. 8: sedimentoscopia e expressão dos resultados) — Manole, 2017 — controllab.com
- Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP) — Manual de Exames do Serviço de Análises Clínicas: Urina Rotina (coleta, prazo de entrega e métodos) — Prefeitura de Ribeirão Preto — ribeiraopreto.sp.gov.br
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) — Resolução RDC nº 978, de 6 de junho de 2025 (funcionamento dos serviços de exames de análises clínicas; comprovante com data prevista de entrega do laudo) — Diário Oficial da União, 2025 — lacen.saude.sc.gov.br
Leituras recomendadas
- Confira o quanto a sua amostra estava concentrada antes de julgar qualquer contagem no nosso guia de densidade urinária.
- Compare o que você vê no frasco com o que o laboratório mede no nosso guia de cor da urina.
- Conheça a infecção que mais explica bactérias e leucócitos altos no nosso guia de infecção urinária.
- Entenda por que certos cristais importam no nosso guia de sintomas e tratamento da pedra nos rins.
- Acompanhe um laudo com cilindros ou células tubulares no nosso guia de doença renal crônica.
Entenda seus exames com a BloodSense
A sedimentoscopia é uma lista de contagens e unidades, e o significado está em como essas linhas se encaixam, e não num número isolado. A BloodSense lê o seu exame de urina junto com resultados relacionados, como a proteína na urina, a creatinina urinária e a urocultura, e explica em linguagem simples o que cada linha descreve e quais vale levar ao seu médico. Ela ajuda você a entender o seu laudo e a preparar perguntas melhores; ela não faz diagnóstico e não substitui o seu médico.



