Nefropatia por IgA (doença de Berger): sintomas, exames, tratamento e expectativa de vida

A nefropatia por IgA, também chamada de doença de Berger, é a doença inflamatória dos rins mais comum do mundo, e a maioria das pessoas a descobre depois que um exame de urina de rotina mostra sangue ou proteína onde não deveria haver. O nome vem do mecanismo: ela surge quando uma proteína de defesa chamada imunoglobulina A (IgA) se acumula dentro dos minúsculos filtros dos rins. Muitas pessoas convivem com a doença por anos sentindo-se perfeitamente bem, e é justamente por isso que os números do laboratório importam tanto aqui.
Neste artigo você vai entender como a nefropatia por IgA se comporta, quais sintomas merecem atenção e como os exames de urina e de sangue apontam para o diagnóstico. Explicamos os exames em que os nefrologistas se apoiam, o que a biópsia acrescenta, como o tratamento mudou desde 2023 e que perguntas vale levar à próxima consulta. Também esclarecemos a confusão frequente com a doença de Buerger, outra doença com nome quase idêntico.
O que é a nefropatia por IgA, em palavras simples
Cada rim tem cerca de um milhão de filtros microscópicos chamados glomérulos. O sangue passa por eles, os resíduos e o excesso de água saem como urina, e as proteínas úteis e as células do sangue ficam retidas. Na nefropatia por IgA, uma forma anormal de imunoglobulina A circula no sangue, o sistema imunológico a reconhece como estranha, e os aglomerados que se formam se depositam no mesângio, o tecido de sustentação no centro de cada filtro. O rim reage com uma inflamação de baixo grau. Ao longo dos anos, essa inflamação pode deixar cicatrizes e reduzir lentamente a capacidade de filtração.
É a doença glomerular primária mais comum no mundo. A Mayo Clinic observa que ela costuma aparecer entre a adolescência e os trinta e poucos anos, e que na América do Norte e na Europa Ocidental os homens são afetados cerca de duas vezes mais do que as mulheres. As taxas são bem maiores no Leste Asiático, em parte porque vários países fazem triagem de jovens com fitas de urina de rotina e encontram casos silenciosos que passam despercebidos em outros lugares. A Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) lembra que a doença pode evoluir sem sintomas evidentes, o que torna o exame de urina a principal porta de entrada também no Brasil.
A nefropatia por IgA não evolui da mesma forma em todo mundo. Algumas pessoas mantêm a função dos rins estável por décadas apenas com controle da pressão e acompanhamento, enquanto a Cleveland Clinic relata que cerca de um em cada quatro adultos acaba chegando à falência renal, com necessidade de diálise ou transplante. Uma revisão publicada no Brazilian Journal of Nephrology descreve a mesma variabilidade: evolução benigna na maioria, com insuficiência renal terminal se desenvolvendo lentamente em 20 % a 30 % dos casos ao longo de 10 a 20 anos. O melhor indicador de qual caminho a pessoa está seguindo não é como ela se sente, mas quanta proteína os rins deixam escapar ao longo do tempo.
Doença de Berger não é doença de Buerger
Os dois nomes soam iguais e são confundidos o tempo todo, mas não têm nada em comum além da grafia parecida. A doença de Berger é uma doença imunológica dos rins, batizada em homenagem ao patologista francês Jean Berger; a doença de Buerger é uma doença dos vasos sanguíneos dos braços e pernas, fortemente ligada ao tabagismo, batizada em homenagem ao médico norte-americano Leo Buerger. A comparação abaixo separa as duas.
| Característica | Doença de Berger (nefropatia por IgA) | Doença de Buerger (tromboangeíte obliterante) |
|---|---|---|
| Órgão afetado | Os rins, especificamente as unidades de filtração | Artérias e veias pequenas e médias das mãos e dos pés |
| O que dá errado | Complexos imunes com imunoglobulina A se depositam nos filtros do rim | Inflamação e coágulos bloqueiam o fluxo de sangue para os membros |
| Principal fator de risco | Predisposição genética e imunológica; história familiar em alguns casos | Tabagismo, presente em quase todos os casos |
| Sinais típicos | Sangue ou proteína na urina, urina espumosa, inchaço, pressão subindo | Dor nos dedos das mãos e dos pés, sensibilidade ao frio, feridas, perda de tecido |
| Exames que apontam para ela | Exame de urina, relação proteína/creatinina, creatinina e TFG, biópsia renal | Exames de imagem dos vasos, angiografia, exame clínico dos membros |
| Idade de início | Muitas vezes da adolescência aos trinta e poucos anos | Geralmente antes dos 45, quase sempre em fumantes |
Nefropatia por IgA: sintomas e primeiros sinais
A apresentação mais característica é sangue visível na urina um ou dois dias depois de uma dor de garganta, um resfriado ou uma infecção intestinal. A urina fica rosada, cor de chá ou cor de refrigerante de cola, e depois volta ao normal em alguns dias. Esse momento é típico: diferente da infecção urinária, em que o sangramento vem uma semana ou mais depois da infecção, aqui os dois chegam quase juntos. Muitas pessoas contam vários episódios assim, com anos de intervalo, antes de alguém investigar.
Fora desses episódios, a doença costuma ser silenciosa, com sangue presente apenas em quantidade que só o laboratório detecta. Por isso o exame de rotina encontra tantos casos. Quando há sintomas, eles costumam incluir:
- Urina espumosa, com espuma que persiste depois de dar descarga, sinal de que há proteína escapando pelos filtros
- Inchaço nos tornozelos, pés, mãos ou ao redor dos olhos, principalmente no fim do dia
- Dor surda nas costas, abaixo das costelas
- Pressão arterial que começa a subir em quem nunca teve pressão alta
- Cansaço fora do comum ou falta de apetite à medida que a função dos rins cai
Como os episódios visíveis vêm e vão, as pessoas costumam achar que o problema se resolveu sozinho. Raramente é o caso: a fase silenciosa entre os episódios é quando as cicatrizes se acumulam, e o acompanhamento laboratorial é o único sinal confiável nesse período. Quem viu sangue na urina, mesmo uma única vez, precisa de exames de seguimento, e muitos pacientes depois consultam o resultado da pesquisa de sangue na urina para entender o que o laboratório encontrou.
Como é o xixi de quem tem problema nos rins?
Na nefropatia por IgA, a urina pode ficar avermelhada, marrom ou cor de cola durante as crises de sangramento, e espumosa quando há muita proteína escapando. Na insuficiência renal mais avançada, de qualquer causa, a pessoa pode urinar menos do que antes ou levantar várias vezes à noite para urinar. Mas a cor e a espuma enganam: uma urina de aspecto normal não exclui doença renal, e só o exame de urina com dosagem de proteína responde de fato.
O que causa a nefropatia por IgA?
A causa é uma falha em cadeia do sistema imunológico, que os pesquisadores descrevem em quatro etapas. O corpo produz uma imunoglobulina A diferente, à qual falta parte do seu revestimento normal de açúcar. O sistema imunológico reconhece essa área “descoberta” e fabrica anticorpos contra ela. Os dois se unem em complexos imunes que circulam no sangue. Esses complexos então se depositam nos filtros do rim e desencadeiam inflamação. Cada etapa isolada não faz mal; é a sequência completa que causa a doença.
A imunoglobulina A anormal se origina principalmente nas mucosas da garganta e do intestino, o que explica por que as crises vêm depois de infecções nesses locais e por que um dos tratamentos mais novos age no tecido imunológico do intestino, e não no rim.
Nefropatia por IgA é uma doença autoimune?
Ela é imunomediada, o que é parecido com autoimune, mas não idêntico. O corpo não ataca diretamente o tecido do próprio rim: ele produz anticorpos contra uma forma anormal da sua própria imunoglobulina A, e os complexos resultantes se alojam nos filtros do rim e causam inflamação ali. O rim é mais uma vítima de passagem do que o alvo. Essa diferença importa para o tratamento, porque as terapias novas miram o local onde o anticorpo defeituoso é produzido, em vez de suprimir o sistema imunológico de forma ampla.
Quem tem mais chance de desenvolver
- História familiar: parentes têm risco maior, e vários genes de suscetibilidade são conhecidos, embora nenhum gene isolado cause a doença
- Ancestralidade: as taxas são mais altas no Leste Asiático e mais baixas em pessoas de ascendência africana
- Sexo: nos países ocidentais, os homens são diagnosticados com mais frequência do que as mulheres
- Idade: o início se concentra na adolescência e no começo da vida adulta, embora o diagnóstico seja possível em qualquer idade
- Outras doenças: cirrose hepática, doença celíaca, doença inflamatória intestinal e algumas infecções crônicas podem produzir uma forma secundária
Nada na alimentação, na quantidade de água que você bebe ou na sua rotina de exercícios causa a nefropatia por IgA. Isso importa, porque muitos pacientes chegam à primeira consulta com o nefrologista convencidos de que fizeram algo errado. Não fizeram. O estilo de vida influencia a velocidade com que a doença avança, não o fato de ela começar.
Os exames que revelam a nefropatia por IgA
Nenhum exame de sangue, sozinho, diagnostica a nefropatia por IgA. A IgA no sangue está aumentada apenas numa minoria dos pacientes, e um valor normal não exclui nada. O diagnóstico é montado a partir de um padrão em vários exames de urina e de sangue, acompanhados ao longo de meses, e não lidos uma única vez.
O que o exame de urina mostra
O exame de urina comum, chamado no Brasil de EAS, urina tipo 1 ou sumário de urina, é a porta de entrada. Ele detecta sangue invisível a olho nu e estima a perda de proteína. Ao microscópio, dois achados pesam bastante: hemácias com formato deformado (dismórficas), sinal de que se danificaram ao passar espremidas por filtros inflamados, e não de sangramento da bexiga; e aglomerados cilíndricos moldados dentro dos túbulos do rim. O técnico confirma esses achados na sedimentoscopia da urina, e os laudos às vezes apontam cilindros hemáticos como sinal de origem glomerular.
Depois vem a quantificação da proteína. A fita dá apenas uma estimativa grosseira, por isso os médicos usam uma relação que corrige o quanto a amostra está diluída. Os nefrologistas acompanham com mais frequência a relação albumina/creatinina na urina e a sua “prima”, a relação proteína/creatinina, numa amostra da primeira urina da manhã. Alguns serviços ainda pedem a proteinúria de 24 horas, e as consultas de seguimento repetem a dosagem de proteína na urina para ver se o tratamento está funcionando.
O que o exame de sangue acrescenta
O exame de sangue mede consequências, e não a causa. Os laboratórios informam o valor da creatinina no sangue, um resíduo que se acumula quando a filtração diminui, e a convertem em taxa de filtração glomerular estimada (TFG), o número usado para classificar a função dos rins. As diretrizes do Ministério da Saúde para a doença renal crônica no SUS definem a doença renal crônica como TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² por pelo menos três meses, ou presença de marcador de lesão renal, como albuminúria acima de 30 mg/24 h ou relação albumina/creatinina acima de 30 mg/g. Os painéis renais também medem a ureia no sangue, além de potássio, bicarbonato e albumina. Anticorpos antinucleares (FAN), complemento e sorologias para hepatite são pedidos principalmente para excluir outras causas de inflamação glomerular.
| Exame | O que avalia | Por que importa na nefropatia por IgA |
|---|---|---|
| EAS (urina tipo 1) com sedimentoscopia | Sangue, proteína e forma das células numa amostra de urina | Detecta sangramento invisível e diferencia sangue do rim de sangue da bexiga |
| Relação albumina/creatinina na urina | Perda de albumina corrigida pela concentração da urina | O melhor marcador isolado de risco e de resposta ao tratamento ao longo do tempo |
| Relação proteína/creatinina na urina | Perda total de proteína numa amostra isolada | Usada para definir e acompanhar as metas de tratamento sem coleta de 24 horas |
| Creatinina no sangue | Resíduo muscular eliminado pelos rins | Sobe quando a capacidade de filtração cai; é a base do cálculo da TFG |
| Taxa de filtração glomerular estimada | Capacidade de filtração calculada | Classifica a função renal e acompanha a velocidade da queda de um ano para o outro |
| Medidas de pressão arterial | Pressão dentro das artérias | É ao mesmo tempo consequência da lesão renal e motor de mais lesão |
| Biópsia renal | O próprio tecido do rim ao microscópio | Única forma de confirmar os depósitos de IgA e graduar a lesão |
Como o diagnóstico é confirmado
A biópsia renal continua sendo o único exame definitivo para a nefropatia por IgA. Com anestesia local e guiado por ultrassom, o especialista retira um ou dois fragmentos finos como um fio, geralmente num procedimento de um dia. O patologista aplica uma coloração fluorescente (imunofluorescência) que faz a imunoglobulina A “acender” no mesângio. Esse padrão luminoso é o diagnóstico; tudo o que vem antes é suspeita.
A biópsia também gradua a lesão com uma pontuação de cinco itens que os patologistas chamam de MEST-C. Em termos simples, ela registra o quanto as células de sustentação do filtro estão aglomeradas, quanta inflamação existe dentro das alças do filtro, quanta cicatriz está presente e se surgiram áreas em forma de crescente, sinal de lesão agressiva. Duas pessoas com exames de urina idênticos podem ter pontuações muito diferentes, e a pontuação define com que intensidade o tratamento começa.
A diretriz internacional KDIGO, atualizada em 2025, incentiva uma postura mais aberta em relação à biópsia, já que vários tratamentos eficazes só passam a ser indicados quando o tecido confirma o diagnóstico. Quando a biópsia tem risco alto demais, por exemplo em pessoas que usam anticoagulante, os nefrologistas podem conduzir o caso pelo padrão clínico, com acompanhamento de perto.
Nefropatia por IgA tem cura? O que o tratamento busca
A nefropatia por IgA não tem cura, mas o objetivo do tratamento é concreto: reduzir ao máximo a perda de proteína na urina e mantê-la baixa. A diretriz internacional de 2025 estabelece como meta menos de 0,5 grama por dia, de preferência menos de 0,3 grama, junto com uma capacidade de filtração estável. Atingir essa meta está fortemente associado à preservação da função renal a longo prazo.
Cuidados de base para todos
- Um inibidor da ECA ou um bloqueador do receptor da angiotensina (BRA), receitado mesmo quando a pressão está normal, porque esses remédios diminuem a pressão dentro dos filtros e reduzem a perda de proteína
- Controle da pressão arterial, em geral com meta de pressão sistólica perto de 120 mmHg, quando tolerado
- Um inibidor de SGLT2, classe criada para o diabetes que também protege os rins de quem não tem diabetes
- Redução do sal, que torna o remédio da pressão mais eficaz
- Parar de fumar, controlar o peso e tratar o colesterol alto quando indicado
- Cuidado com o uso frequente de anti-inflamatórios para dor
Muitas pessoas com nefropatia por IgA que mantêm a perda de proteína baixa só com essa base não precisam de mais nada. Quem não conhece os termos costuma pesquisar sobre hipertensão arterial antes da primeira consulta com o nefrologista.
Tratamento direcionado quando a perda de proteína persiste
Quando a proteinúria continua acima da meta apesar de todos os cuidados de base, os nefrologistas acrescentam terapias dirigidas à doença. Os corticoides sistêmicos foram por muito tempo a escolha padrão, mas têm riscos reais, como infecções e perda óssea, por isso hoje o uso é mais seletivo. As opções mais novas atuam em etapas específicas da doença: uma cápsula que libera budesonida na parte do intestino onde o anticorpo anormal é produzido; remédios que bloqueiam os receptores de endotelina para aliviar a pressão dentro dos filtros; inibidores do complemento, que desligam um braço da cascata imunológica; e anticorpos que neutralizam os sinais que levam as células B a fabricar a imunoglobulina A defeituosa. Vários chegaram ao mercado dos Estados Unidos nos últimos anos, incluindo uma aprovação acelerada concedida em julho de 2026. No Brasil, a disponibilidade de cada um depende do registro na ANVISA e da cobertura pelo SUS ou pelo plano de saúde; o nefrologista é quem sabe o que está acessível no seu caso.
Se a função dos rins acabar falhando, a diálise e o transplante funcionam bem. Os depósitos de imunoglobulina A podem reaparecer no rim transplantado, por isso quem recebe um transplante continua acompanhando a urina depois. Algumas pessoas nessa situação também convivem com doença renal crônica de mais de uma causa ao mesmo tempo.
Quando procurar o médico
- Urina que fica rosa, vermelha, marrom ou cor de cola, mesmo uma única vez e sem dor
- Urina que continua espumosa por vários dias
- Inchaço novo nos tornozelos, nas mãos ou no rosto, principalmente com ganho de peso
- Pressão alta recém-descoberta em alguém com menos de 40 anos
- Diminuição da quantidade de urina, falta de ar ou enjoo persistente
O que a doença de Berger pode causar e qual a expectativa de vida
A doença de Berger pode causar sangue e proteína na urina, pressão alta, inchaço e, numa parte dos casos, perda lenta da função dos rins até a necessidade de diálise ou transplante. Ainda assim, a maioria das pessoas diagnosticadas tem expectativa de vida normal. O resultado depende muito de quanta proteína os rins perdem e de a capacidade de filtração se manter estável. Quem tem perda mínima de proteína e função normal no diagnóstico, e mantém a pressão controlada, muitas vezes nunca chega à falência renal. Cerca de um quarto dos adultos acaba precisando de diálise ou transplante, em geral depois de muitos anos, e os dois tratamentos funcionam bem nesse grupo. Como a variação é grande, os seus números pessoais valem muito mais do que as estatísticas gerais.
A vida com nefropatia por IgA no dia a dia
Na nefropatia por IgA, o acompanhamento substitui os sintomas como guia. Quando a situação está estável, a maioria das pessoas faz controles a cada três a seis meses, com mais frequência depois de uma mudança de tratamento. Cada consulta costuma juntar uma dosagem de proteína na urina, creatinina, TFG e uma medida de pressão. A tendência ao longo de várias consultas revela muito mais do que um resultado isolado: um número levemente alterado que fica estável por anos é muito diferente do mesmo número subindo sem parar.
Alguns hábitos práticos ajudam. Sal moderado, atividade física regular, tratamento rápido de infecções de garganta e intestino e evitar o cigarro diminuem o esforço dos filtros. Restringir proteína não é recomendado de rotina e pode fazer mal sem acompanhamento. A gravidez geralmente é possível, mas deve ser planejada com o nefrologista, porque alguns remédios usados na doença não são seguros na gestação. Quem acompanha os próprios números costuma guardar os resultados do exame de urina de rotina junto com as medidas de pressão. No Brasil, os laudos ficam no site ou aplicativo do laboratório, e alguns resultados podem aparecer também no Meu SUS Digital.
O prognóstico da nefropatia por IgA melhorou de verdade. Uma geração atrás, cuidados de base e corticoide eram todo o arsenal. Hoje, alguém com a perda de proteína bem controlada e capacidade de filtração normal tem uma perspectiva realista de nunca precisar de diálise, e as opções continuam aumentando.
Avanços científicos recentes
Os últimos três anos mudaram o tratamento da nefropatia por IgA mais do que os trinta anteriores. Veja o que as pesquisas mais recentes encontraram e o que isso significa se você ou alguém próximo convive com o diagnóstico.
A meta de tratamento ficou mais baixa
Uma revisão de 2025 que reuniu vinte e três estudos com mais de quinze mil pacientes mostrou que mesmo uma perda modesta de proteína, em níveis antes considerados aceitáveis, estava ligada a uma perda mais rápida da função renal. O que isso significa para você: o objetivo não é mais só baixar a proteína, mas levá-la o mais baixo que o tratamento permitir com segurança e mantê-la ali. A diretriz internacional de 2025 reflete isso com uma meta mais rigorosa e biópsia mais precoce.
Uma cápsula que age no intestino, e não no rim
Um estudo randomizado de dois anos, em que os participantes foram sorteados para receber o remédio ou uma cápsula sem princípio ativo para que a comparação fosse justa, testou uma cápsula de budesonida feita para se liberar na parte final do intestino delgado, onde o anticorpo defeituoso é produzido. A perda de proteína caiu e a função dos rins se manteve melhor do que só com os cuidados de base. O que isso significa para você: tratar o tecido imunológico do intestino passou a ser uma forma aceita de frear a doença, evitando muitos efeitos colaterais do corticoide no corpo todo.
Remédios que aliviam a pressão dentro dos filtros
Um grande estudo com atrasentana, que bloqueia um hormônio que contrai os vasos sanguíneos, mostrou queda clara da perda de proteína além da terapia padrão. O que isso significa para você: essa classe oferece uma forma não imunológica de proteger os filtros, útil para quem não tolera remédios que baixam a imunidade. A retenção de líquido é o efeito colateral que os médicos vigiam.
Desligando um braço do sistema imunológico
O iptacopan bloqueia uma etapa da cascata do complemento, a parte do sistema imunológico que amplifica a inflamação. A análise completa de dois anos, publicada em 2026, mostrou que a função renal caiu mais devagar com o remédio do que com placebo. O que isso significa para você: é um dos primeiros tratamentos novos com evidência sobre a própria capacidade de filtração, e não só sobre o número da proteína que a representa.
Anticorpos que miram a origem da proteína defeituosa
Três estudos de fase 3, a etapa de testes em larga escala antes da aprovação ampla, publicaram resultados intermediários de remédios que neutralizam os sinais que mandam as células B produzir imunoglobulina A anormal: sibeprenlimabe e atacicepte em 2025, telitacicepte em 2026. Os três reduziram bastante a perda de proteína. O que isso significa para você: diminuir a produção na origem, em vez de só limpar o estrago, agora tem apoio consistente em estudos independentes. São resultados intermediários, então o efeito a longo prazo na sobrevida dos rins ainda precisa ser confirmado, e um desses remédios chegou ao mercado norte-americano em 2026 por uma via acelerada que exige mais evidências depois.
Comparando as opções diretamente
Uma análise em rede de 2025, método que compara indiretamente tratamentos nunca testados frente a frente, reuniu cinquenta e sete estudos com dezenove intervenções. Ela reforçou que os cuidados de base combinados com um remédio direcionado funcionam melhor do que qualquer um dos dois sozinho. O que isso significa para você: nenhum tratamento serve para todo mundo, e a escolha depende da biópsia, da função renal e da tolerância. A pesquisa continua com estudos em recrutamento, incluindo um estudo de fase 3 com felzartamabe aberto em 2025.
Todas essas evidências vêm de estudos em adultos com nefropatia por IgA confirmada e níveis específicos de perda de proteína. Elas alimentam a conversa com o nefrologista; não a substituem.
Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Glomérulo | Cada um dos cerca de um milhão de filtros microscópicos dentro de cada rim. |
| Imunoglobulina A (IgA) | Anticorpo que normalmente defende as superfícies das vias respiratórias e do intestino. Uma forma anormal dele está por trás desta doença. |
| Mesângio | Tecido de sustentação no centro de cada filtro do rim, onde os complexos imunes se depositam. |
| Hematúria | Sangue na urina. Pode ser visível a olho nu ou detectável só no exame de laboratório. |
| Proteinúria | Proteína escapando para a urina, sinal de que os filtros do rim estão lesados. A urina espumosa é a pista do dia a dia. |
| Relação albumina/creatinina (RAC) | Medida na urina que compara a albumina com a creatinina, para que o resultado seja comparável independentemente da diluição da amostra. |
| Taxa de filtração glomerular estimada (TFG) | Valor calculado que mostra quanto sangue os rins filtram por minuto. É usado para classificar a função renal. |
| Biópsia renal | Procedimento que retira com agulha um pequeno fragmento do rim para o patologista examinar ao microscópio. |
| Pontuação MEST-C | Classificação em cinco itens do que a biópsia mostra, descrevendo inflamação e cicatrizes. Ajuda a prever a evolução da doença. |
| Síndrome nefrótica | Padrão de perda de proteína muito intensa, com inchaço e albumina baixa no sangue, visto numa minoria dos casos. |
Perguntas frequentes
Nefropatia por IgA é grave?
Pode ser, mas na maioria das pessoas não é. A gravidade depende principalmente da quantidade de proteína perdida na urina, da pressão arterial e da evolução da TFG. Muitas pessoas têm uma forma leve, que só exige acompanhamento e controle da pressão; uma parte menor evolui para doença renal crônica avançada ao longo de anos. Por isso o acompanhamento regular com o nefrologista é o que separa uma doença controlada de uma surpresa tardia.
A nefropatia por IgA é hereditária?
Não da forma como é uma doença causada por um único gene. A maioria dos casos ocorre em pessoas sem parentes afetados. Ainda assim, existem agrupamentos familiares, e os pesquisadores identificaram vários genes que aumentam a suscetibilidade. Ter pai, mãe ou irmão com a doença aumenta um pouco o seu risco, motivo suficiente para contar isso ao médico e fazer exame de urina. O teste genético de rotina não faz parte do cuidado padrão.
A alimentação muda a evolução da doença?
A alimentação ajuda o tratamento, mas não o substitui. Reduzir o sal é a mudança com benefício mais claro, porque faz o remédio da pressão funcionar melhor e diminui a perda de proteína. Um padrão alimentar equilibrado, rico em verduras e legumes e pobre em ultraprocessados, ajuda a pressão e o colesterol. Restringir muito a proteína não é recomendado de rotina e pode fazer mal sem acompanhamento de nutricionista. Se a função renal cair, o nutricionista pode ajustar potássio, fósforo ou líquidos de acordo com os seus exames.
A doença pode desaparecer sozinha?
Os episódios de sangramento visível se resolvem sozinhos em alguns dias, o que muitas vezes dá a impressão de que o problema passou. O processo de fundo, porém, geralmente continua em silêncio. Uma minoria, sobretudo crianças e pessoas com perda mínima de proteína, entra numa remissão duradoura, sem nenhuma alteração detectável. Para a maioria, a doença persiste em nível baixo e precisa de acompanhamento periódico, e não de tratamento ativo. Parar o acompanhamento porque se sente bem é o erro evitável mais comum.
De quanto em quanto tempo os exames dos rins devem ser repetidos?
Quando a situação está estável, a maioria dos nefrologistas repete proteína na urina, creatinina, TFG e pressão a cada três a seis meses. Os controles ficam mais próximos logo depois do diagnóstico, após qualquer mudança de remédio ou se a perda de proteína aumentar. Se tudo estiver igual há anos e a perda de proteína for mínima, um controle anual pode ser suficiente. O seu calendário deve vir do especialista que acompanha você, porque depende da biópsia e dos seus números atuais.
Fontes
- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases — IgA Nephropathy — niddk.nih.gov (em inglês)
- Mayo Clinic — IgA nephropathy (Berger disease): Symptoms and causes — mayoclinic.org (em inglês)
- Cleveland Clinic — IgA Nephropathy (Berger Disease): Symptoms and Treatment — my.clevelandclinic.org (em inglês)
- Floege J, et al. — Executive summary of the KDIGO 2025 Clinical Practice Guideline for the Management of Immunoglobulin A Nephropathy and Immunoglobulin A Vasculitis — doi.org (em inglês)
- Yamaguchi Y, et al. — The Association between Low-Grade Proteinuria and Adverse Kidney Outcomes in IgA Nephropathy: A Systematic Review and Meta-Analysis — doi.org (em inglês)
- Lafayette R, et al. — Efficacy and safety of a targeted-release formulation of budesonide in patients with primary IgA nephropathy (NefIgArd): 2-year results from a randomised phase 3 trial — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov (em inglês)
- Heerspink HJL, et al. — Atrasentan in Patients with IgA Nephropathy — doi.org (em inglês)
- Barratt J, et al. — Iptacopan in IgA Nephropathy: Final 24-Month Data — doi.org (em inglês)
- Perkovic V, et al. — Sibeprenlimab in IgA Nephropathy: Interim Analysis of a Phase 3 Trial — doi.org (em inglês)
- Lafayette R, et al. — A Phase 3 Trial of Atacicept in Patients with IgA Nephropathy — doi.org (em inglês)
- Lv J, et al. — Telitacicept for IgA Nephropathy: Interim Analysis of a Phase 3 Trial — doi.org (em inglês)
- Chen B, et al. — Efficacy and safety of agents for IgA nephropathy: a network meta-analysis of randomized controlled trials — doi.org (em inglês)
- ClinicalTrials.gov — A Phase 3, Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Study of Felzartamab in Adults With IgA Nephropathy (PREVAIL), NCT06935357 — clinicaltrials.gov (em inglês)
- U.S. Food and Drug Administration — FDA Approves New Treatment to Reduce Proteinuria in Adults with Primary Immunoglobulin A Nephropathy — fda.gov (em inglês)
- Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) — Você já ouviu falar em Nefropatia por IgA (IgAN)? — sbn.org.br, 2026 — sbn.org.br
- Brazilian Journal of Nephrology — Tratamento da Nefropatia por IgA — Sociedade Brasileira de Nefrologia — bjnephrology.org (em inglês)
- Ministério da Saúde — Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao paciente com Doença Renal Crônica (DRC) no Sistema Único de Saúde — Brasília, 2014 — docs.bvsalud.org (em inglês)
- Ministério da Saúde — Meu SUS Digital — gov.br — gov.br
Leituras recomendadas
- Quem compara o aspecto da urina com os resultados do laboratório costuma consultar o guia sobre a cor da urina.
- Quem investiga dor nas costas com sangue na urina também deve ler a visão geral sobre pedra no rim.
- Quem tem exames que sugerem um problema imunológico mais amplo pode querer a explicação sobre o lúpus e seus marcadores.
- Febre com dor lombar aponta para outra direção, e muitos leitores então consultam o resumo dos sintomas da pielonefrite.
- Quem acompanha uma perda de proteína inicial vai achar útil ler a página sobre o resultado de microalbuminúria.
Entenda seus exames com a BloodSense
A nefropatia por IgA é acompanhada quase toda por números: quanto sangue e proteína aparecem na urina, o que a creatinina e a TFG mostram sobre a filtração e se esses valores se mantêm de uma consulta para a outra. Os laudos raramente explicam isso em palavras que o paciente consiga usar. A BloodSense lê seus resultados de urina e de sangue e os traduz em linguagem clara, para você chegar à consulta sabendo quais valores mudaram e o que perguntar. O relatório de IA ajuda a entender os resultados; ele não faz diagnóstico e não substitui o seu médico.



