A pielonefrite é uma infecção nos rins, um tipo de infecção urinária em que as bactérias sobem da bexiga e chegam a um ou aos dois rins, em vez de ficarem só na bexiga. Ela costuma começar como uma cistite comum que, sem tratamento ou em situações de maior risco, sobe pelos ureteres até o rim. A Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) chama a pielonefrite de infecção urinária alta e descreve a tríade típica: febre, calafrios e dor lombar. Assusta, porque os sintomas aparecem rápido, mas é uma doença bem conhecida pelos médicos e, na maioria dos casos, responde bem a antibiótico iniciado logo. Este guia explica o que é a pielonefrite, os sintomas, as causas, os exames de urina e de sangue, o tratamento e as pesquisas mais recentes.

O que é pielonefrite?

A pielonefrite é uma infecção de um ou dos dois rins, quase sempre causada por bactérias que sobem pelo trato urinário. A urina normalmente desce dos rins, onde o sangue é filtrado, pelos dois ureteres até a bexiga e sai pela uretra. As bactérias que entram pela uretra podem fazer esse caminho ao contrário: primeiro infectam a bexiga (cistite) e depois chegam aos rins, onde provocam inchaço do tecido e, sem tratamento, podem deixar lesões.

A maioria dos casos é aguda: começa de repente e se resolve com um ciclo de antibiótico. Os médicos chamam de não complicada a pielonefrite numa mulher saudável e não grávida, e de complicada quando há gravidez, diabetes, obstrução urinária, sonda ou imunidade baixa. Uma forma crônica ou de repetição, menos comum, aparece sobretudo em crianças com refluxo vesicoureteral e pode cicatrizar os rins aos poucos. Na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), a pielonefrite aguda está no código N10 e a crônica no N11, códigos que podem aparecer em atestados e guias do plano de saúde. A infecção atinge todas as idades, mas é bem mais comum em mulheres, porque a anatomia facilita a chegada das bactérias à bexiga.

Sintomas de pielonefrite

Os sinais clássicos da pielonefrite são febre, calafrios e dor nas costas ou no lado do corpo, em geral logo abaixo das costelas de um lado, muitas vezes com náusea e vômito. A SBN descreve febre geralmente acima de 38 °C, com calafrios e dor lombar de um ou dos dois lados, presentes na maioria dos casos. Como a maioria começa com uma cistite, costuma haver também ardência ou dor ao urinar, vontade de urinar com mais frequência ou urgência e urina turva, escura, com sangue ou mau cheiro. Os sintomas aparecem rápido, em um ou dois dias.

Em bebês e crianças com menos de 2 anos, a infecção nos rins pode ser bem diferente: febre alta, recusa alimentar, irritação ou pouco ganho de peso, em vez da dor nas costas dos adultos; por isso, febre sem explicação numa criança pequena sempre merece avaliação médica. Em idosos, confusão mental pode ser o sinal mais evidente. Em adultos, sintomas acompanhados de confusão, coração muito acelerado, pressão baixa ou febre que não cede indicam uma infecção mais grave e pedem atendimento rápido, sem esperar em casa.

Quando a pielonefrite vira sepse?

A pielonefrite vira sepse quando a infecção passa para o sangue e o corpo reage de forma exagerada, prejudicando o funcionamento dos órgãos. Os primeiros sinais de alerta são confusão ou sonolência, respiração rápida, coração acelerado, pressão baixa, pele fria ou manchada, pouca urina e febre alta ou temperatura baixa demais. Nessas situações, procure um pronto-socorro ou ligue para o SAMU 192 imediatamente; a sepse é tratada no hospital com antibiótico na veia e suporte intensivo.

O que causa a pielonefrite e os fatores de risco

A grande maioria das pielonefrites é causada pela Escherichia coli (E. coli), uma bactéria que vive normalmente no intestino e pode chegar à abertura da uretra e subir; outras bactérias, como Proteus, Klebsiella, Enterococcus e estafilococos, respondem pela maior parte dos casos restantes. A pielonefrite não é contagiosa como um resfriado ou uma gripe, porque vem das bactérias da própria pessoa que chegam a um lugar onde não deveriam estar, e não da transmissão entre pessoas.

Vários fatores aumentam o risco. A anatomia feminina pesa bastante, porque a uretra mais curta deixa as bactérias mais perto da bexiga. A obstrução das vias urinárias também aumenta o risco, como acontece com a obstrução causada pela pedra no rim, assim como o aumento da próstata, a sonda urinária, a gravidez, o diabetes mal controlado e a imunidade baixa. Nas crianças, o refluxo vesicoureteral, em que a urina volta da bexiga em direção aos rins, é um fator importante para infecções repetidas e cicatrizes nos rins.

Como é feito o diagnóstico da pielonefrite

O médico costuma suspeitar de pielonefrite pela combinação de febre, dor lombar e sintomas urinários, e confirma com exames de urina e de sangue. No exame físico, a região do rim afetado costuma doer ao toque (sinal de Giordano), e em grávidas ou pessoas com risco de infecção complicada a investigação costuma ser mais completa desde o início.

ExameO que mostra
Exame de urina tipo 1 (EAS)Procura leucócitos, esterase leucocitária, nitrito, sangue e bactérias na urina
Urocultura com antibiogramaCultiva as bactérias da urina para identificar a causa exata e quais antibióticos funcionam
Exames de sangueHemograma com leucócitos altos, marcadores de inflamação e função dos rins
Imagem (ultrassom ou tomografia)Usada na doença grave, quando não há melhora ou quando se suspeita de obstrução, pedra ou abscesso

Como ler o EAS, a urocultura e a função dos rins

O exame de urina tipo 1 costuma ser a pista mais rápida e muitas vezes sai em poucas horas. Uma fita que acusa nitrito positivo na urina e esterase leucocitária positiva sugere a presença de bactérias e glóbulos brancos, e encontrar piúria, ou leucócitos aumentados na urina, confirma que o organismo está reagindo; cilindros leucocitários, quando aparecem, apontam especificamente para o rim, e não só para a bexiga. Para confirmar a bactéria e quais antibióticos funcionam, é preciso fazer a urocultura com antibiograma, de preferência colhida antes de começar o antibiótico, com resultado em geral em um a três dias. Como os próprios rins estão envolvidos, a equipe também vai olhar o exame de creatinina, a dosagem de ureia no sangue e a taxa de filtração glomerular (TFG) para ver como os rins estão filtrando e qual a gravidade da infecção.

Tratamento da pielonefrite

O antibiótico iniciado logo é o tratamento principal da pielonefrite, e a escolha entre comprimido e soro na veia depende sobretudo de quão doente a pessoa está. A maioria das infecções não complicadas, especialmente em adultos saudáveis e não grávidos que conseguem manter líquidos e remédios, é tratada em casa com antibiótico por via oral, escolhido conforme a resistência local e, quando disponível, o resultado da urocultura. Se uma obstrução, como uma pedra no rim ou o aumento da próstata, estiver contribuindo, resolvê-la, às vezes com um procedimento, é tão importante quanto o antibiótico.

AbordagemPara que serve
Antibiótico por via oralTratamento padrão da maioria das infecções não complicadas, feito em casa
Antibiótico na veiaUsado na doença grave, na sepse, em complicações da gravidez ou quando não é possível tomar comprimido, muitas vezes com internação
DesobstruçãoLibera o ureter bloqueado por pedra ou por aumento da próstata, às vezes com um procedimento de drenagem
Cuidados de suporteLíquidos, repouso e controle da febre e da dor enquanto o antibiótico faz efeito

A internação e o antibiótico na veia ficam em geral reservados para quem parece muito doente, tem sinais de sepse, como coração disparado ou pressão baixa, está grávida, não consegue tomar remédio pela boca ou tem uma condição que complica o quadro, como diabetes descontrolado ou obstrução urinária; o tratamento costuma passar para comprimidos quando há melhora. Alguns sinais pedem atendimento de emergência, e não uma consulta de rotina: febre alta que não responde ao remédio, confusão, desmaio, não conseguir manter nenhum líquido ou dor forte e piorando; grávidas com esses sintomas também devem ser vistas logo. A maioria das pessoas se sente bem melhor em um ou dois dias com o antibiótico certo, e os tratamentos de hoje costumam ser mais curtos que as duas semanas que eram rotina. Antibiótico só com receita médica: nunca use sobras de tratamentos antigos.

Convivendo com a pielonefrite: prognóstico

Com tratamento rápido, a maioria das pessoas se recupera totalmente da pielonefrite, sem efeito duradouro na função dos rins. O principal risco é demorar a procurar ajuda: a pielonefrite grave ou sem tratamento pode levar a abscesso renal, sepse, perda temporária ou, às vezes, permanente da função renal e, raramente, a uma infecção grave com formação de gás, que atinge sobretudo pessoas com diabetes. Esses desfechos são incomuns quando o tratamento começa cedo, e por isso é importante terminar o antibiótico mesmo depois de se sentir melhor.

Para quem tem infecções nos rins repetidas, ou crianças com uma causa estrutural como o refluxo vesicoureteral, o cuidado de longo prazo busca encontrar e corrigir a causa, porque infecções repetidas aumentam a chance de cicatrizes nos rins. Beber água suficiente, urinar quando sentir vontade em vez de segurar e tratar logo qualquer cistite antes que suba ajudam a evitar um novo episódio. Quem tem infecções frequentes, uma alteração urinária conhecida ou teve um episódio grave deve perguntar ao médico sobre exames de controle para confirmar que a função dos rins continua normal.

O que dizem as pesquisas mais recentes sobre pielonefrite

As pesquisas recentes se concentram em quanto tempo o antibiótico precisa realmente durar. Segundo pesquisas indexadas no PubMed, uma revisão sistemática viva com metanálise de 2025, que reuniu 16 ensaios randomizados e 4.643 adultos com pielonefrite ou infecção urinária complicada, mostrou que ciclos de 5 a 7 dias foram tão eficazes quanto o antigo padrão de 10 a 14 dias, com taxas semelhantes de cura, recaída e efeitos colaterais (Zahavi et al., 2025). O que isso significa para você: se o médico receitar um ciclo mais curto do que você esperava, não é um atalho; a evidência atual mostra que ele funciona igual, e continua sendo essencial tomar todas as doses.

Outras pesquisas avaliam quais antibióticos são a melhor primeira escolha à medida que a resistência muda. Um estudo de 2024 com 851 adultos liberados para casa a partir de 11 prontos-socorros dos Estados Unidos encontrou falha de tratamento em 14 dias de 17,2% com uma cefalosporina oral, contra 22,5% com as quinolonas ou o sulfametoxazol-trimetoprima tradicionalmente preferidos pelas diretrizes, diferença que deixou de ser estatisticamente relevante quando outros fatores foram considerados (Koehl et al., 2024). O que isso significa para você: receber uma cefalosporina em vez de um antibiótico “clássico” não é um tratamento inferior; pode refletir a resistência local e a evidência do mundo real. Uma análise de 2025 de 130.514 amostras de urina com E. coli na comunidade mostrou que a resistência aos antibióticos de primeira linha para cistite estava muito ligada à resistência aos antibióticos para pielonefrite, com resistência prevista à amoxicilina-clavulanato acima de 50% em alguns modelos (Williams et al., 2025). O que isso significa para você: contar ao médico quais antibióticos você tomou recentemente ajuda a escolher um com mais chance de funcionar, e é exatamente por isso que a urocultura com antibiograma é tão importante.

Glossário da pielonefrite

TermoDefinição
Infecção do trato urinário (ITU)Infecção em qualquer ponto do sistema urinário, da uretra aos rins.
CistiteInfecção limitada à bexiga, o tipo mais comum de infecção urinária.
UroculturaExame que cultiva as bactérias da urina para identificá-las e orientar a escolha do antibiótico.
PiúriaPresença de leucócitos (glóbulos brancos) na urina, sinal de que o corpo combate uma infecção ou inflamação.
SepseReação perigosa do corpo inteiro a uma infecção que se espalhou para o sangue.
Refluxo vesicoureteralCondição, sobretudo em crianças, em que a urina volta da bexiga em direção aos rins.
Abscesso renalAcúmulo de pus que pode se formar dentro ou ao redor de um rim muito infectado.

Perguntas frequentes sobre pielonefrite

O que a pielonefrite causa no corpo?

A pielonefrite causa inflamação no rim, com febre, calafrios, dor lombar, náusea e mal-estar. Se não for tratada, pode levar a abscesso renal, sepse e perda da função dos rins. Com tratamento rápido, a maioria das pessoas se recupera sem sequelas.

Qual a diferença entre pielonefrite e infecção urinária comum (cistite)?

A pielonefrite é a infecção urinária que chegou aos rins, enquanto a cistite fica na bexiga. As duas costumam ser causadas pelas mesmas bactérias, mas, na pielonefrite, elas subiram mais, e o quadro fica mais sério: além dos sintomas urinários, aparecem febre e dor nas costas ou no lado do corpo. A SBN lembra que, na cistite, a febre geralmente não está presente.

Quais são os primeiros sinais de infecção nos rins?

Os primeiros sinais costumam ser febre, calafrios e dor nas costas ou no lado do corpo abaixo das costelas, às vezes com náusea ou vômito. Muitas pessoas também têm ardência ao urinar, vontade de urinar toda hora e urina turva, escura ou com sangue. Os sintomas se instalam rápido, em um ou dois dias.

Qual a bactéria mais perigosa do trato urinário?

A bactéria mais comum é a E. coli, responsável pela grande maioria das infecções. O perigo depende menos do nome da bactéria e mais da resistência aos antibióticos e do estado da pessoa: bactérias resistentes, frequentes em quem usou muitos antibióticos ou esteve internado, são mais difíceis de tratar. Por isso a urocultura com antibiograma é tão útil.

Uma infecção urinária pode causar suor excessivo?

Sim, quando a infecção chega aos rins. A febre alta com calafrios da pielonefrite costuma vir acompanhada de suor intenso quando a febre baixa. Suor frio com confusão, tontura ou coração disparado pode indicar sepse e exige atendimento de emergência.

Pielonefrite é contagiosa?

Não. A pielonefrite vem das bactérias da própria pessoa que chegam ao rim, e não passa de uma pessoa para outra como uma gripe. A relação sexual pode favorecer a cistite em algumas mulheres, por levar bactérias para perto da uretra, mas isso não é contágio da pielonefrite.

Quantos dias de antibiótico são necessários?

O antibiótico é escolhido conforme a bactéria provável ou confirmada e a resistência local. A maioria das pessoas toma comprimidos em casa, e quem está mais doente recebe antibiótico na veia até melhorar e passar para comprimidos. Muitas pessoas hoje precisam de cerca de 5 a 7 dias, e não dos 10 a 14 dias de antes, mas o médico ajusta a duração para cada caso.

Pielonefrite pode ser tratada em casa?

A maioria das pielonefrites não complicadas em adultos saudáveis e não grávidos pode ser tratada em casa com comprimidos, desde que a pessoa consiga comer, beber e tomar o remédio e não esteja muito doente. A internação costuma ser necessária na gravidez, quando não dá para tomar remédio pela boca, quando há sinais de sepse ou uma condição complicadora, como obstrução urinária ou diabetes descontrolado.

Quais são as sequelas da pielonefrite?

Na maioria das pessoas tratadas a tempo, não há sequelas. Sem tratamento, a pielonefrite pode causar abscesso renal, sepse e perda temporária ou permanente da função dos rins. Infecções repetidas ou mal tratadas, sobretudo em crianças com refluxo vesicoureteral, podem cicatrizar os rins aos poucos; o tratamento rápido torna esses desfechos incomuns.

Fontes

  • Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) — Infecção urinária — Orientações e tratamentos, consultado em 2026 — sbn.org.br
  • Organização Mundial da Saúde — Classificação Internacional de Doenças, CID-10 (N10-N16, doenças renais túbulo-intersticiais) — OMS, versão 2019 (em inglês) — icd.who.int
  • National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases — Kidney Infection (Pyelonephritis): Symptoms & Causes — NIDDK, 2023 (em inglês) — niddk.nih.gov
  • Cleveland Clinic — Kidney Infection (Pyelonephritis) — Cleveland Clinic Health Library, 2024 (em inglês) — my.clevelandclinic.org
  • Mayo Clinic — Kidney infection — Mayo Clinic, 2023 (em inglês) — mayoclinic.org
  • Zahavi I, Kunwar D, Olchowski J, et al. — Short vs. long antibiotic treatment for pyelonephritis and complicated urinary tract infections: a living systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials — Clinical Microbiology and Infection, 2025 (em inglês) — doi.org/10.1016/j.cmi.2025.04.008
  • Koehl J, Spolsdoff D, Negaard B, et al. — Cephalosporins for Outpatient Pyelonephritis in the Emergency Department: COPY-ED Study — Annals of Emergency Medicine, 2024 (em inglês) — doi.org/10.1016/j.annemergmed.2024.10.013
  • Williams P, Barton E, Bhamber R, et al. — Co-resistance between oral antibiotics for pyelonephritis and those for cystitis — applying an escalation antibiogram model to local community data — JAC-Antimicrobial Resistance, 2025 (em inglês) — doi.org/10.1093/jacamr/dlaf204

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A pielonefrite é confirmada e acompanhada sobretudo pelos exames, e não só pelos sintomas. O exame de urina tipo 1 e a urocultura identificam a infecção e a bactéria responsável, e os exames de função dos rins, como creatinina, ureia e taxa de filtração glomerular, mostram se a infecção está afetando a filtragem. Ver esses valores juntos, e acompanhar como mudam com o tratamento, torna muito mais fácil entender a gravidade da infecção e saber quando os rins voltaram ao normal. A BloodSense explica cada marcador do seu laudo em linguagem simples. As informações desta página têm caráter educativo e não substituem uma consulta médica.

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