O essencial

A hantavirose é transmitida por roedores silvestres, quase sempre pela poeira contaminada com urina, fezes ou saliva deles. No Brasil, ela aparece como síndrome cardiopulmonar por hantavírus: começa como uma gripe forte e, em poucos dias, pode encher os pulmões de líquido. Quatro em cada dez pacientes confirmados morreram entre 2013 e 2023. Plaquetas baixas e hematócrito alto no hemograma são pistas importantes; a sorologia confirma. Falta de ar depois de contato com rato é emergência.

O que é hantavirose, em resumo?

  • Causa: uma zoonose viral aguda (Orthohantavirus) cujo reservatório são roedores silvestres, que eliminam o vírus na urina, saliva e fezes sem adoecer[1].
  • Forma no Brasil: síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH)[1]. Na Europa e na Ásia predomina outra forma, a febre hemorrágica com síndrome renal[3].
  • Quantos casos: 758 casos confirmados de 2013 a 2023, com 299 mortes (letalidade de 39,4%)[2].
  • Onde: a Região Sul concentra cerca de 41,8% dos casos, seguida do Sudeste (20,9%); Santa Catarina e Paraná lideram[2].
  • Passa de pessoa para pessoa? Raramente, e só com o hantavírus Andes, na Argentina e no Chile[1].
  • Exames-chave: hemograma completo, função dos rins, exame de urina e sorologia (IgM e IgG).

Hantavirose: quais são os sintomas iniciais e como evolui?

O período de incubação é, em média, de 1 a 5 semanas, variando de 3 a 60 dias[1].

  • Comum Fase inicial: febre, dores nas articulações, dor de cabeça, dor lombar e abdominal, náuseas, vômitos ou diarreia[1]. Parece gripe ou dengue.
  • Comum Fase cardiopulmonar: tosse seca, dificuldade para respirar, respiração e coração acelerados, pressão baixa[1]. Ela costuma surgir 4 a 10 dias depois da fase inicial[4].
  • Possível Em menos de 24 horas após a primeira consulta, queda de pressão, líquido nos pulmões e falta de oxigênio, muitas vezes com necessidade de ventilação mecânica[5].
  • Raro Comprometimento leve dos rins na forma pulmonar[5].

Sem tratamento adequado, a maioria das mortes acontece nas primeiras 24 a 48 horas da fase cardiopulmonar[5]. Por isso o tempo conta.

Quando procurar atendimento com suspeita de hantavirose?

Quando procurar atendimento

  • Emergência: ligue 192 (SAMU) se houver febre com falta de ar, tosse que piora rápido, tontura forte ou desmaio, depois de contato com roedores, mata, paiol ou galpão[1][5].
  • No mesmo dia ou em até 24 horas se houver febre e dores no corpo nas semanas seguintes à limpeza de um local fechado, à colheita, ao corte de mato ou a um acampamento em área rural. Conte ao médico sobre o contato com ratos.
  • Na próxima consulta para rever exames de controle depois da alta, ou para tirar dúvidas após uma exposição sem sintomas.

Como se pega hantavirose, e quem corre mais risco?

A principal forma de contágio é respirar aerossóis formados a partir de urina, fezes e saliva de roedores infectados; também pode ocorrer por mordidas, por feridas na pele ou por mãos contaminadas levadas à boca, nariz ou olhos[1].

  • Comum Trabalho rural: 81,3% dos casos com local informado se infectaram em zona rural, 47,2% no ambiente de trabalho[2]: limpeza de paióis, galpões e casas fechadas, colheita, armazenamento de grãos.
  • Possível Época do ano: no Sul, os casos aparecem sobretudo de setembro a janeiro; no Sudeste, na estação seca[2].
  • Raro De pessoa para pessoa: só com o vírus Andes[1]. Em 2026, um surto no navio de cruzeiro MV Hondius, que partiu de Ushuaia, na Argentina, somava 7 casos e 3 mortes em 4 de maio; a OMS considerou o risco para a população baixo[6].

Quais exames de sangue mostram a hantavirose, e como ler os resultados?

Dois fenômenos explicam as alterações: vasos que deixam vazar o plasma e uma queda brusca das plaquetas[8]. Veja um laudo inventado.

Exemplo fictício de laudo (formato de laboratório brasileiro)
ExameResultadoValor de referênciaSituação
Plaquetas58.000 /mm³150.000 a 400.000 /mm³↓
Hematócrito52%37 a 48% (homens)↑
Leucócitos15.300 /mm³4.500 a 11.000 /mm³↑
Creatinina1,5 mg/dL0,7 a 1,3 mg/dL (homens)↑
Sorologia para hantavírus IgM (ELISA)ReagenteNão reagente
  1. Plaquetas ↓: abaixo de 150.000 é plaquetopenia[9]. No Brasil, de 2013 a 2023, ela apareceu em 52,4% dos pacientes que se curaram e em 64,2% dos que morreram[2].
  2. Hematócrito ↑: o plasma sai dos vasos e o sangue fica concentrado (hemoconcentração). Hematócrito acima de 45% foi visto em 55,5% das curas e em 81,5% dos óbitos[2].
  3. Leucócitos ↑: com desvio à esquerda em 25,8% das curas e 51,5% dos óbitos; linfócitos atípicos em cerca de um quarto. TGO e TGP alteradas em dois terços dos casos[2].
  4. Creatinina ↑: aumento de ureia e creatinina em 36,1% das curas e 67,5% dos óbitos[2].
  5. IgM reagente: indica infecção recente[5]. Valores de referência de exemplo[9][10]: vale o do seu laboratório.

Plaquetas baixas, hematócrito alto e leucócitos aumentados no mesmo laudo? A BloodSense lê cada linha do seu laudo completo, mostra quais resultados combinam entre si e ajuda você a preparar as perguntas para o médico.

Quero meu laudo explicado

Esse padrão é uma pista, não um diagnóstico. A OMS lista gripe, covid-19, pneumonia viral, leptospirose, dengue e sepse entre as doenças parecidas[3]; a dengue também baixa as plaquetas. Saiba mais sobre plaquetas, hematócrito, leucócitos, creatinina e proteína na urina, que se altera na forma renal.

Como se confirma a hantavirose: IgM, IgG e RT-PCR?

  • Sorologia: no Brasil, o diagnóstico é feito basicamente por sorologia, em laboratórios de referência, com kits fornecidos pelo Ministério da Saúde[1].
  • IgM: o teste padrão para infecção recente, por ELISA[5]. IgM e IgG aparecem logo depois do início dos sintomas[7].
  • IgG: conta quando positiva com aumento de título entre duas amostras[5].
  • RT-PCR: detecta o RNA do vírus no sangue na fase aguda[3]; o vírus circula por pouco tempo, então um resultado negativo não descarta a doença[11]. Veja como ler um exame de PCR.

O tratamento de suporte não espera o resultado: a suspeita de SCPH já pede atendimento de emergência[5].

Quais exames são repetidos durante a recuperação?

No hospital, acompanham-se hemograma, creatinina, eletrólitos, volume de urina e oxigenação (veja saturação e gasometria); um lactato acima de 4,0 mmol/L indica evolução grave[5]. A recuperação completa pode levar semanas a meses[4].

Como é o tratamento da hantavirose?

Não indicamos doses: a equipe médica decide.

  • Não há tratamento específico: usam-se medidas de suporte, definidas caso a caso[1]. O acesso precoce à terapia intensiva melhora o resultado[3].
  • Na SCPH: oxigênio, hidratação cuidadosa, ventilação mecânica se necessário e antibióticos de amplo espectro enquanto o diagnóstico não sai; a ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea), iniciada no primeiro sinal de piora, tem 80% de sobrevida. A ribavirina não mostrou eficácia[5].
  • Transporte: com acompanhamento médico e o paciente estável, com oxigênio, ventilação se preciso e medicamentos para a pressão[1].

Como prevenir a hantavirose?

  • Roçar o terreno em volta da casa, dar destino adequado a entulhos e guardar alimentos em recipientes fechados, à prova de roedores[1].
  • Arejar paióis e casas fechadas antes de entrar; não varrer nem aspirar fezes de rato a seco: molhar antes com desinfetante[3].
  • Quem trabalha exposto deve usar máscara PFF3, luvas, avental e óculos de proteção[1].
  • Lavar bem as mãos depois[3].

Perguntas para fazer ao médico

  1. Minha febre pode ser hantavirose, por causa do contato com ratos ou do trabalho no paiol?
  2. Minhas plaquetas e meu hematócrito combinam com essa doença?
  3. A sorologia foi pedida e quando sai o resultado?
  4. Que sinais de falta de ar exigem voltar na hora?
  5. Quais exames devo repetir depois da alta?
  6. Como limpar com segurança o local onde fui exposto?

Perguntas frequentes

Hantavirose é transmissível de pessoa para pessoa?

Raramente. Só o hantavírus Andes, na Argentina e no Chile, já passou de uma pessoa para outra[1], em contato próximo e prolongado[3].

Hantavirose tem cura?

Sim, muitos pacientes se recuperam com tratamento de suporte precoce, de preferência em UTI. Mas a letalidade no Brasil foi de 39,4% entre 2013 e 2023[2], por isso não se deve esperar.

Hantavirose precisa de isolamento?

Os vírus que circulam no Brasil não passam entre pessoas[1]. O isolamento vale para o vírus Andes: no surto de 2026, a OMS pediu que passageiros fossem acompanhados por 45 dias[6].

Qual rato transmite a hantavirose?

No Brasil, roedores silvestres, que vivem no mato e nas plantações e se aproximam de paióis e casas rurais[1].

Artigos relacionados

Referências

  1. Ministério da Saúde (Brasil). Hantavirose. Saúde de A a Z. gov.br (acesso em 6 de novembro de 2026)
  2. Ministério da Saúde (Brasil). Boletim Epidemiológico. Hantavirose no Brasil, 2013 a 2023. Vol. 56, nº 4, 12 de fevereiro de 2025. gov.br (acesso em 6 de novembro de 2026)
  3. Organização Mundial da Saúde. Hantavirus. Fact sheet, 6 de maio de 2026. who.int (acesso em 6 de novembro de 2026)
  4. Centers for Disease Control and Prevention. About hantavirus. 13 de maio de 2024. cdc.gov (acesso em 6 de novembro de 2026)
  5. Centers for Disease Control and Prevention. Clinical overview of hantavirus pulmonary syndrome. cdc.gov (acesso em 6 de novembro de 2026)
  6. Organização Mundial da Saúde. Disease Outbreak News: Hantavirus cluster linked to cruise ship travel, multi-country. 4 de maio de 2026. who.int (acesso em 6 de novembro de 2026)
  7. Jonsson CB, Figueiredo LT, Vapalahti O. A global perspective on hantavirus ecology, epidemiology, and disease. Clin Microbiol Rev. 2010;23(2):412-441. doi:10.1128/CMR.00062-09 (acesso em 6 de novembro de 2026)
  8. Avšič-Županc T, Saksida A, Korva M. Hantavirus infections. Clin Microbiol Infect. 2019;21S:e6-e16. doi:10.1111/1469-0691.12291 (acesso em 6 de novembro de 2026)
  9. MedlinePlus. Platelet count. Revisado em 3 de fevereiro de 2025. medlineplus.gov (acesso em 6 de novembro de 2026)
  10. MedlinePlus. Creatinine blood test. Revisado em 13 de julho de 2025. medlineplus.gov (acesso em 6 de novembro de 2026)
  11. RIVM (Países Baixos). LCI-richtlijn Orthohantavirusinfectie. 9 de janeiro de 2026, atualizado em 15 de maio de 2026. lci.rivm.nl (acesso em 6 de novembro de 2026)

Esta página traz informação geral. Ela não substitui a avaliação de um médico, que interpreta seus resultados com os sintomas, o contato com roedores e o exame clínico.