Febre maculosa (doença do carrapato em humanos): sintomas, exames e tratamento

O essencial
A febre maculosa é a doença do carrapato que atinge humanos no Brasil: uma infecção por bactérias do gênero Rickettsia, passada pela picada de carrapatos como o carrapato-estrela. Começa com febre alta e dor de cabeça forte e pode ficar grave em poucos dias. O antibiótico, a doxiciclina, deve começar já na suspeita, sem esperar o exame, porque a sorologia costuma dar negativa na primeira semana.
O que é a febre maculosa, em resumo?
- Causa: bactérias Rickettsia transmitidas pela picada de carrapato infectado[7]. A doença não passa de uma pessoa para outra[1].
- Duas formas no Brasil: a febre maculosa brasileira, por Rickettsia rickettsii, grave, registrada no norte do Paraná e nos estados do Sudeste; e a febre maculosa por R. parkeri, mais branda, em áreas de Mata Atlântica do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, da Bahia e do Ceará[7].
- Mesma bactéria da febre das Montanhas Rochosas: nos Estados Unidos, a R. rickettsii causa a Rocky Mountain spotted fever, presente também no México e na América do Sul[5].
- Gravidade: o Ministério da Saúde fala em elevada letalidade[7]; em surtos no México e no Brasil, mais da metade dos doentes pode morrer, quase sempre por tratamento tardio[8].
- Exames: hemograma e bioquímica mostram sinais de alerta; a sorologia (RIFI) e às vezes o PCR confirmam. Nenhum deles deve atrasar o antibiótico[3][13].
- Não é doença de Lyme: a doença de Lyme é outra infecção ligada a carrapatos, com outra bactéria, outra evolução e outros exames (veja abaixo).
Quais são os sintomas da febre maculosa em humanos?
Os sintomas aparecem de 2 a 14 dias depois da picada, em média 7 dias[13]. Nos primeiros dias, o quadro lembra dengue, gripe ou uma virose, e é isso que atrasa o diagnóstico[1][7].
- Frequente Febre alta e repentina, dor de cabeça intensa, dor no corpo, náusea, vômitos, falta de apetite, diarreia e dor na barriga[2][7][13]. Crianças se queixam menos de dor de cabeça[2].
- Frequente Manchas vermelhas na pele (exantema), em geral 2 a 4 dias depois da febre: pequenas, planas, rosadas, primeiro nos punhos, antebraços e tornozelos, depois no tronco e às vezes nas palmas das mãos e nas plantas dos pés[2]. Cerca de 90% dos doentes acabam tendo as manchas, mas menos da metade nos três primeiros dias; os pontinhos vermelho-arroxeados (petéquias) costumam surgir por volta do 5º ou 6º dia[2].
- Possível Inchaço em volta dos olhos e no dorso das mãos nos primeiros dias[2].
- Raro A partir do 5º dia sem tratamento: confusão, falta de ar, rins parando, gangrena nos dedos e nas orelhas, coma[2][7].
Só 55% a 60% dos doentes se lembram da picada[5], porque o carrapato pequeno passa despercebido. Não lembrar da picada e não ter manchas não afasta a doença: manchas tardias ou ausentes estão ligadas a diagnóstico mais demorado e a mais mortes[5].
Quando procurar atendimento depois de uma picada de carrapato?
Quando procurar atendimento
- Emergência: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro se houver febre com confusão ou sonolência fora do normal, falta de ar, pouquíssima urina, ou dedos escuros e frios: são sinais de forma grave[2].
- Em 24 a 48 horas, de preferência no mesmo dia, se aparecer febre, dor de cabeça forte ou manchas na pele até duas semanas depois de uma picada de carrapato ou de passeio em mata, pasto, beira de rio ou lago com capivaras[4][7]. Conte sobre o carrapato e o lugar. O tratamento funciona melhor nos primeiros 5 dias de doença[4].
- Na próxima consulta se você tirou um carrapato e está bem. Antibiótico só por causa da picada não é recomendado: observe se aparece febre ou mancha nas duas semanas seguintes[4].
Como se pega a febre maculosa e quem corre mais risco?
No Sudeste, a febre maculosa brasileira é transmitida sobretudo pelo Amblyomma sculptum[14], do grupo conhecido como carrapato-estrela; outras espécies de Amblyomma também participam[13]. Cavalos, capivaras e gambás têm papel importante no ciclo de transmissão[13], e as capivaras mantêm carrapatos infectados perto de parques, lagos e cidades[8]. Mesmo numa área com casos, poucos carrapatos carregam a bactéria: em Belo Horizonte, a taxa mínima estimada foi de 0,05%[14].
- Frequente Contato com mata, pasto, trilhas e margens de rios onde vivem cavalos e capivaras[8][13].
- Possível Forma grave é mais provável com tratamento tardio, idade abaixo de 10 anos e deficiência de G6PD (uma deficiência hereditária de uma enzima das hemácias)[2]. Nos Estados Unidos, crianças são menos de 6% dos casos, mas 22% das mortes[2].
- Possível Cães também pegam R. rickettsii e podem trazer carrapatos infectados para perto das pessoas[8].
Na febre maculosa por R. parkeri, mais leve, pode haver uma casquinha escura no lugar da picada[5]. A febre maculosa do Mediterrâneo, que pode atingir viajantes no sul da Europa, também deixa essa marca, a “tache noire”[9], que é rara na forma brasileira grave[5].
É a mesma coisa que a “doença do carrapato” do cachorro? Não. Quando se fala em doença do carrapato no cachorro, em geral se trata de infecções próprias dos cães, como a erliquiose. Em humanos, a doença grave transmitida por carrapato no Brasil é a febre maculosa[7].
E a doença de Lyme? As duas vêm de carrapatos, mas a febre maculosa pode ficar grave em poucos dias e é tratada já na suspeita[4][5]. A Lyme, causada por outra bactéria, evolui mais devagar, costuma começar com uma mancha em alvo e usa outra estratégia de exames: veja nosso guia da doença de Lyme.
Quais exames de sangue são feitos na febre maculosa e como ler o resultado?
Os exames de rotina não provam a febre maculosa, mas mostram um padrão típico: plaquetas baixas, transaminases um pouco altas, às vezes sódio baixo quando a doença avança, e glóbulos brancos normais ou pouco aumentados[5]. O Ministério da Saúde cita anemia e queda das plaquetas no hemograma[7]. No começo, tudo pode estar normal[2]. Veja um laudo inventado.
| Exame | Resultado | Valores de referência | Alerta |
|---|---|---|---|
| Plaquetas (hemograma) | 92.000 /mm³ | 150.000 a 400.000 /mm³ | ↓ Baixo |
| Sódio | 131 mEq/L | 135 a 145 mEq/L | ↓ Baixo |
| TGO (AST) | 78 U/L | 8 a 33 U/L | ↑ Alto |
| Sorologia para Rickettsia rickettsii IgG (RIFI) | Não reagente (título inferior a 1/64) | Não reagente |
- Plaquetas, marcadas como baixas: abaixo de 150.000 por mm³ é plaquetopenia[10], achado típico da febre maculosa[5][7].
- Sódio, marcado como baixo: uma queda leve combina com infecção avançando[5], mas vômito, diarreia e alguns remédios também baixam o sódio[11].
- TGO, marcada como alta: uma subida leve da TGO e da TGP combina com o quadro[5], mas não é específica: hepatite, lesão muscular ou remédios fazem o mesmo[12].
- Sorologia não reagente: esperado na primeira semana; não descarta a infecção[3]. O título de corte mostrado é um exemplo.
- Valores de referência: exemplos da MedlinePlus[10][11][12]. Vale a faixa impressa no laudo do seu laboratório.
Plaquetas baixas, sódio baixo e TGO alta no mesmo laudo? A BloodSense lê cada linha do seu exame completo, mostra quais resultados combinam entre si e ajuda a preparar as perguntas para o seu médico.
Quero entender meu exame completoÉ um padrão, não um diagnóstico. O Ministério da Saúde lista dengue, leptospirose, hepatites virais, malária e meningite entre as doenças parecidas[7], e infecções graves como a sepse também derrubam as plaquetas. Veja nossas páginas sobre plaquetas no hemograma, sódio baixo e TGO e TGP altos. No hospital, podem ser pedidos creatinina para os rins, tempo de protrombina e exame de urina[6]. Os resultados de laboratório não devem decidir o início do tratamento[5].
Como é o exame que confirma a febre maculosa (RIFI e PCR)?
O exame de referência é a pesquisa de anticorpos IgG por reação de imunofluorescência indireta, a RIFI, feita numa amostra de sangue[3][7]. Três armadilhas:
- Cedo demais: os anticorpos muitas vezes ainda não aparecem na primeira semana; um primeiro exame negativo nunca justifica parar o tratamento[3].
- Uma amostra não basta: no Paraná, colhe-se a primeira no início dos sintomas e a segunda 14 a 21 dias depois[13]; a confirmação exige que o título suba pelo menos quatro vezes entre as duas[3][5]. Um único resultado alto nunca confirma uma infecção recente[5].
- Anticorpos antigos e reações cruzadas: os anticorpos podem ficar altos por até quatro anos, 10% ou mais das pessoas saudáveis de algumas regiões têm níveis elevados, e a maioria dos laboratórios não distingue as espécies de Rickettsia[3].
O exame de anticorpos IgM é menos específico que o de anticorpos IgG e não deve ser usado sozinho[3][5]. O PCR procura o DNA da bactéria: no sangue é menos sensível que numa biópsia da pele com manchas, um resultado negativo não descarta a doença e a doxiciclina reduz sua sensibilidade[3][5]. A imuno-histoquímica e a cultura também existem, em serviços de referência[7]. A confirmação muitas vezes chega quando você já melhorou, e serve para a vigilância em saúde[3].
Quais exames são repetidos durante e depois do tratamento?
Com a doxiciclina, a febre costuma ceder em 24 a 48 horas[4]. No hospital, hemograma, sódio, rins e fígado podem ser repetidos para acompanhar a recuperação. A segunda amostra de sorologia, semanas depois, fecha o diagnóstico[3][13].
A maioria das pessoas sem lesão precoce dos vasos se recupera por completo, e a R. rickettsii não causa infecção crônica[2]. Depois de uma forma grave, algumas pessoas ficam com sequelas nos nervos, perda auditiva, lesão de órgãos ou precisam de amputação[1][2], e precisam de acompanhamento mais longo.
Febre maculosa tem cura? Como é o tratamento?
Tem, quando o antibiótico começa cedo. Não damos doses aqui: quem escolhe o tratamento é o médico.
- Doxiciclina já na suspeita: é o antibiótico de primeira escolha, em qualquer idade e gravidade; o tratamento começa na suspeita, sem esperar a confirmação do laboratório[4][13]. Quem é tratado depois do 5º dia morre mais; entre os tratados no 8º ou 9º dia, 40% a 50% morreram[5].
- Crianças: cursos curtos de doxiciclina não mancharam os dentes num estudo com 89 crianças[5].
- Duração: segundo o Ministério da Saúde, 7 dias, mantendo por 3 dias depois do fim da febre[7]. O tratamento está disponível no SUS[7].
- Quando a doxiciclina não pode ser usada: o cloranfenicol é a alternativa citada pela Secretaria da Saúde do Paraná[13]. Na gravidez, riscos e benefícios são conversados; uma alergia pode ser contornada por dessensibilização supervisionada[4].
- Evite sulfas: esses antibióticos podem piorar a doença[4]. As formas graves precisam de internação[7].
Como prevenir a febre maculosa?
Não existe vacina[1]. A prevenção é evitar a picada em você, nas crianças e nos animais[1].
- Em trilhas, pastos e beira de rios, use calça e manga comprida e roupas claras, que ajudam a ver o carrapato, que é escuro[7]; use repelente.
- Examine o corpo, o das crianças e o dos cães depois do passeio; proteja o cachorro com o produto contra carrapatos indicado pelo veterinário[1].
- Se encontrar um carrapato preso, retire-o com uma pinça[7], puxando de forma firme e contínua[6]. Retirar rápido reduz o risco de infecção[7].
- Anote a data e o lugar da picada e observe febre ou manchas por duas semanas[4].
Perguntas para fazer ao médico
- Minha febre pode ser febre maculosa? Devo começar a doxiciclina agora?
- Quais resultados do meu hemograma e dos exames bioquímicos combinam com essa infecção?
- Quando devo colher a segunda amostra da sorologia?
- Quais sinais devem me fazer ir direto ao pronto-socorro?
- Minhas plaquetas, o sódio ou a TGO e a TGP precisam ser repetidos? Quando?
- As pessoas que estavam comigo, ou meu cachorro, devem ser examinadas para carrapatos?
Perguntas frequentes
Febre maculosa passa de uma pessoa para outra?
Não. Ela só é transmitida pela picada do carrapato, não de pessoa para pessoa[1].
Qual a chance de um carrapato-estrela estar infectado?
Pequena, mas não zero. Num parque de Belo Horizonte com casos da doença, a taxa mínima de carrapatos infectados foi estimada em 0,05%[14]. Como não dá para saber qual carrapato está infectado, toda febre depois de uma picada merece atenção.
Devo tomar antibiótico logo depois da picada de carrapato?
Não. Antibiótico depois da picada não é recomendado para prevenir a doença. Observe se aparece febre ou mancha nas duas semanas seguintes e procure atendimento se aparecer[4].
Um exame antigo positivo explica uma febre nova?
Os anticorpos de uma infecção antiga podem ficar altos por até quatro anos[3], e um resultado isolado não prova uma infecção recente[5]. Por isso, uma nova febre depois de outra picada é avaliada como qualquer suspeita.
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- Guias de doençasTodos os nossos guias de doenças
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- Centers for Disease Control and Prevention. Clinical signs and symptoms of Rocky Mountain spotted fever. 15 maio 2024. cdc.gov (em inglês; acesso em 5 nov. 2026)
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Este artigo traz informações gerais de saúde. Ele não substitui a avaliação do médico, que interpreta seus resultados junto com os sintomas, o contato com carrapatos e o exame físico.



