Imunoglobulinas (IgG, IgA, IgM, IgE): como entender o exame completo

O essencial
O exame de imunoglobulinas mede seus principais anticorpos, IgG, IgA e IgM, às vezes junto com a IgE total. O que importa é o conjunto: vários valores baixos sugerem falta de anticorpos, quase sempre causada por um remédio ou por outra doença, enquanto um único valor muito alto com os outros baixos pede uma eletroforese de proteínas. Um valor isolado um pouco alterado costuma apenas ser repetido.
No seu laudo aparecem três ou quatro linhas que começam com "Ig", e uma ou duas vêm marcadas. As imunoglobulinas são os anticorpos produzidos pelos plasmócitos, um tipo de glóbulo branco. Dosá-las juntas, a chamada dosagem de imunoglobulinas, mostra como o seu corpo está fabricando anticorpos[1]. Este guia lê o exame inteiro: o que cada linha quer dizer, quais combinações importam e o que costuma vir depois. Cada anticorpo também tem uma página própria, a começar pelo nosso guia da imunoglobulina G (IgG), a mais abundante.
Como aparece a dosagem de imunoglobulinas no laudo?
A maioria dos laboratórios brasileiros informa IgG, IgA e IgM em mg/dL. A IgE total costuma ser pedida à parte, quando há suspeita de alergia, e vem em UI/mL. O exemplo abaixo mostra uma combinação que muitas vezes leva a uma consulta de retorno.
| Exame | Resultado | Valores de referência | Sinalização |
|---|---|---|---|
| Imunoglobulina G (IgG) | 540 mg/dL | 700 a 1.600 mg/dL | ↓ baixo |
| Imunoglobulina A (IgA) | 62 mg/dL | 103 a 501 mg/dL | ↓ baixo |
| Imunoglobulina M (IgM) | 85 mg/dL | 40 a 230 mg/dL | |
| IgE total | 45 UI/mL | até 214 UI/mL |
- IgG baixa: o principal anticorpo do sangue, responsável pela proteção de longo prazo. Estar abaixo da referência é o dado central deste laudo.
- IgA baixa: o anticorpo que protege as mucosas das vias respiratórias e do intestino. Baixa junto com a IgG, torna mais provável uma falta real de anticorpos do que um erro.
- IgM normal: os primeiros anticorpos contra um micróbio novo. Uma IgM normal não anula os outros dois resultados.
- IgE total normal: ligada a alergias e parasitas. Não faz parte de todo pedido e não mede as suas defesas em geral.
- Valores de referência: os de IgG, IgA e IgM são valores habituais em adultos[2]; o limite da IgE vem de um laboratório de referência[3]. Crianças têm faixas por idade: compare sempre com os valores do seu laboratório.
Recebeu uma dosagem de imunoglobulinas com um ou dois valores marcados, junto com outros exames? A BloodSense lê o laudo completo com você, linha por linha, e ajuda a preparar as perguntas para a próxima consulta.
Entender minhas imunoglobulinasIgG, IgA, IgM e IgE: o que cada uma mostra?
Os quatro anticorpos têm funções diferentes, então a mesma marcação não significa a mesma coisa em cada linha. A tabela traz os valores habituais em adultos e o guia completo de cada um.
| Anticorpo | Função principal | Valores habituais em adultos | Guia completo |
|---|---|---|---|
| IgG | A mais abundante no sangue; proteção duradoura depois de uma infecção ou vacina | 700 a 1.600 mg/dL (7,0 a 16,0 g/L)[2] | Imunoglobulina G |
| IgA | Protege vias respiratórias, intestino, saliva, lágrimas e leite materno[1] | 103 a 501 mg/dL (1,0 a 5,0 g/L)[2] | Imunoglobulina A |
| IgM | Primeiros anticorpos contra um micróbio novo | 40 a 230 mg/dL (0,40 a 2,3 g/L)[2] | IgM no exame |
| IgE total | Alergia e defesa contra parasitas | até 214 UI/mL[3] | IgE total |
Para converter mg/dL em g/L, divida por 100 (540 mg/dL = 5,4 g/L). Na IgE total, UI/mL e kU/L indicam o mesmo valor.
Como interpretar as combinações de IgG, IgA e IgM?
O médico compara os valores entre si e com os seus sintomas. A dosagem de imunoglobulinas sozinha não fecha diagnóstico, e um resultado alterado costuma levar a outros exames[1].
| Combinação | O que costuma indicar | Próximo passo habitual |
|---|---|---|
| Todas dentro da referência | Produção normal de anticorpos para a idade | Nada, salvo infecções de repetição |
| IgG baixa, com IgA e/ou IgM baixas | Falta de anticorpos (hipogamaglobulinemia), quase sempre secundária a um remédio, um câncer do sangue ou perda de proteínas[4]; raramente uma doença de nascença como a imunodeficiência comum variável[5] | Repetir, buscar a causa, avaliar a resposta a vacinas |
| IgA muito baixa ou indetectável, IgG e IgM normais | Deficiência seletiva de IgA, a imunodeficiência de nascença mais comum, muitas vezes sem sintomas[6][7] | Registrar no prontuário, principalmente antes de uma transfusão |
| Várias altas ao mesmo tempo (aumento policlonal) | Sistema imunológico muito ativo: infecção crônica, doença autoimune, hepatite ou cirrose[1] | Buscar a causa; a eletroforese mostra uma faixa larga |
| Uma muito alta e as outras baixas | Possível proteína monoclonal de um único clone de plasmócitos: MGUS, mieloma, linfoma ou macroglobulinemia de Waldenström[1][9] | Eletroforese de proteínas e imunofixação |
| Só a IgM alta | Infecção recente, como a mononucleose; menos vezes linfoma ou Waldenström[2] | Repetir depois da infecção; mais exames se continuar alta |
| Só a IgE alta | Alergia, dermatite atópica, asma ou verminose | Ver o guia da IgE total; testes de alergia se preciso |
Imunoglobulinas baixas: quais as causas?
Com poucos anticorpos, as infecções ficam mais frequentes, sobretudo sinusites, otites, bronquites ou diarreias que voltam, às vezes sempre com o mesmo micróbio[1]. As causas adquiridas ao longo da vida são muito mais comuns que as de nascença[4]:
- Frequente Remédios: imunossupressores e tratamentos que atingem os linfócitos B, as células que viram fábricas de anticorpos[4]. Nunca suspenda um tratamento por conta própria.
- Frequente Cânceres do sangue e seu tratamento: a leucemia linfoide crônica e o mieloma múltiplo costumam baixar os anticorpos normais[4].
- Possível Perda ou falta de proteínas: doença renal, queimaduras graves, má absorção ou desnutrição[1]. Proteínas totais ou albumina baixas no mesmo laudo reforçam essa hipótese.
- Possível Deficiência seletiva de IgA: muitas pessoas não têm sintomas; outras têm mais infecções respiratórias e intestinais, alergias ou doenças autoimunes[6][7]. Ela também muda a leitura dos exames para doença celíaca, como explica nosso guia da imunoglobulina A.
- Raro Imunodeficiência comum variável (IDCV): IgG e IgA baixas, às vezes também IgM, com pouca proteção das vacinas; atinge cerca de 1 em cada 25 mil a 50 mil pessoas[5].
Diante de uma IgG baixa, o médico costuma pedir um hemograma completo com a contagem de linfócitos, procurar perda de proteínas pelos rins ou pelo intestino e medir a resposta a vacinas que você já tomou[5]. Quem tem deficiência completa de IgA pode produzir anticorpos contra a IgA, com reações graves a hemoderivados: isso precisa constar no prontuário[6].
Imunoglobulinas altas: aumento policlonal ou monoclonal?
Um aumento de anticorpos pode ter duas formas bem diferentes, que a eletroforese separa[8]:
- Frequente Aumento policlonal: muitas famílias de plasmócitos produzem mais ao mesmo tempo. IgG, IgA e IgM sobem juntas e a faixa gama fica larga. Causas: infecção crônica (por exemplo o HIV, investigado no exame de HIV, ou uma hepatite), cirrose, artrite reumatoide ou lúpus[1][2].
- Possível Proteína monoclonal: um único clone de plasmócitos fabrica um anticorpo idêntico. O típico é uma imunoglobulina alta com as outras diminuídas[1][9]. Na maioria das vezes é uma MGUS (gamopatia monoclonal de significado indeterminado), presente em 3,2% das pessoas com 50 anos ou mais[10], que pede acompanhamento regular.
- Raro Câncer do sangue: mieloma múltiplo, linfoma ou macroglobulinemia de Waldenström, confirmados por outros exames e nunca só por esta dosagem[1].
Quando há suspeita de proteína monoclonal, o protocolo do Ministério da Saúde para o mieloma reúne, na investigação inicial, a eletroforese de proteínas, as imunoglobulinas e as cadeias leves[11]. Na prática, os próximos passos são a eletroforese de proteínas, a imunofixação, que identifica o tipo de anticorpo, e a relação kappa/lambda[8][9]. Nossa página sobre a gama globulina explica a faixa onde esses anticorpos aparecem.
Precisa de preparo para o exame de imunoglobulinas?
É uma coleta de sangue comum, da veia, e não precisa de preparo especial[1]. Se outros exames do mesmo pedido exigirem jejum, siga essas orientações, como explica nosso guia de jejum para exame de sangue. Antes da coleta, anote:
- Todos os seus remédios, porque alguns alteram os resultados; não pare nenhum sem orientação[1].
- Uma infecção nas últimas semanas, que pode subir a IgM ou a IgG por um tempo[2].
- Quantas infecções você teve neste ano e quais, já que as infecções de repetição são o principal motivo do exame[1].
- Seus resultados anteriores, para comparar a evolução.
Quando procurar um médico
- Emergência: ligue 192 (SAMU) se houver febre alta com confusão, falta de ar, rigidez na nuca ou manchas na pele que se espalham rápido, principalmente se você já sabe que seus anticorpos estão baixos[12].
- Em 24 a 48 horas se a febre não passa, se surge uma nova infecção no pulmão ou nos seios da face com IgG baixa, ou se uma imunoglobulina muito alta vem com dor nos ossos, cansaço extremo ou perda de peso.
- Na próxima consulta para um valor pouco alterado sem sintomas, um aumento moderado de várias imunoglobulinas ou uma IgA baixa isolada: conversa-se e repete-se.
Perguntas para fazer ao médico
- Meus valores altos ou baixos formam um padrão ou é um resultado isolado?
- Algum dos meus remédios ou outra doença pode explicá-los?
- Preciso repetir o exame? Quando?
- Preciso avaliar a resposta a vacinas, fazer eletroforese ou ir a um imunologista ou hematologista?
- A deficiência de IgA deve ficar registrada no meu prontuário antes de uma possível transfusão?
Perguntas frequentes
É a mesma coisa que uma sorologia?
Não. Este exame mede a quantidade total de cada classe de anticorpo. Uma sorologia procura só os anticorpos contra um micróbio específico, como a IgG e a IgM da sorologia TORCH na gravidez.
Crianças têm imunoglobulinas mais baixas?
Sim. O bebê conta em parte com anticorpos recebidos da mãe e constrói os próprios ao longo dos anos, por isso os laboratórios usam faixas por idade. Para a IgE total, por exemplo, um laboratório de referência usa até 97 UI/mL entre 1 e 2 anos e até 307 UI/mL entre 4 e 6 anos[3].
Um resultado alterado sempre precisa de tratamento?
Não. Valores fora da referência nem sempre indicam uma doença que precise ser tratada, e alguns remédios alteram os resultados[1]. Muitas vezes basta cuidar da causa, como um remédio ou uma perda de proteínas; a reposição de imunoglobulina é reservada para deficiências comprovadas com infecções frequentes.
Qual a diferença para a eletroforese de proteínas?
A dosagem dá a quantidade exata de cada classe de anticorpo. A eletroforese mostra o formato de todas as proteínas do sangue, incluindo a faixa gama onde ficam os anticorpos, e pode revelar um pico estreito[8]. Os dois exames costumam ser pedidos juntos.
Exames e guias relacionados
- Imunoglobulina G (IgG)O principal anticorpo, alto ou baixo, em detalhe.
- Imunoglobulina A (IgA)A deficiência de IgA e os exames de doença celíaca.
- IgM no exame de sangueO primeiro anticorpo contra uma infecção nova.
- IgE totalAlergia, valores por idade e IgE alta.
- Eletroforese de proteínasO exame que separa uma faixa larga de um pico.
Referências
- MedlinePlus. Immunoglobulins blood test. National Library of Medicine (EUA). medlineplus.gov (acesso em 6 de novembro de 2026)
- MedlinePlus Medical Encyclopedia. Quantitative nephelometry (IgG, IgM, IgA). medlineplus.gov (acesso em 6 de novembro de 2026)
- ARUP Laboratories. Immunoglobulin E (exame 0050345): valores de referência por idade e prazo de liberação. aruplab.com (acesso em 6 de novembro de 2026)
- Patel SY, Carbone J, Jolles S. The expanding field of secondary antibody deficiency: causes, diagnosis, and management. Front Immunol. 2019;10:33. doi:10.3389/fimmu.2019.00033 (acesso em 6 de novembro de 2026)
- MedlinePlus Genetics. Common variable immune deficiency. National Library of Medicine (EUA). medlineplus.gov (acesso em 6 de novembro de 2026)
- MedlinePlus Medical Encyclopedia. Selective deficiency of IgA. medlineplus.gov (acesso em 6 de novembro de 2026)
- Yel L. Selective IgA deficiency. J Clin Immunol. 2010;30(1):10-16. doi:10.1007/s10875-009-9357-x (acesso em 6 de novembro de 2026)
- O'Connell TX, Horita TJ, Kasravi B. Understanding and interpreting serum protein electrophoresis. Am Fam Physician. 2005;71(1):105-112. aafp.org (PubMed 15663032, acesso em 6 de novembro de 2026)
- American Cancer Society. Tests to find multiple myeloma. cancer.org (acesso em 6 de novembro de 2026)
- Kyle RA, Therneau TM, Rajkumar SV, et al. Prevalence of monoclonal gammopathy of undetermined significance. N Engl J Med. 2006;354(13):1362-1369. doi:10.1056/NEJMoa054494 (acesso em 6 de novembro de 2026)
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Mieloma Múltiplo. gov.br/saude (acesso em 6 de novembro de 2026)
- Ministério da Saúde. SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. gov.br/saude (acesso em 6 de novembro de 2026)
Este artigo traz informações gerais de saúde. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Imunoglobulinas alteradas devem ser interpretadas pelo seu médico junto com seus sintomas, seus remédios e seus outros exames.



