Ordem de não reanimar (ONR): o que é, o que inclui e como funciona no Brasil

Quem procura o que é uma ordem de não reanimar (ONR) costuma encontrar uma resposta curta: é a decisão, registrada pela equipe médica, de não tentar a reanimação cardiopulmonar (RCP) se o coração da pessoa parar de bater ou se ela parar de respirar. Em inglês, a sigla é DNR, de do not resuscitate. Isso é tudo o que ela cobre. Não é uma ordem para parar de tratar, e não significa que a pessoa vai receber menos atenção, menos conforto ou menos cuidado.
Essa distância entre o que a ordem de não reanimar diz e o que as pessoas temem que ela diga é o mal-entendido mais comum sobre o tema, e vale a pena fechá-la com cuidado. Uma decisão assim pertence a quem a toma, e merece ser feita com informação correta, e não a partir de uma impressão meio lembrada.
Neste guia você vai entender o que a ordem de não reanimar cobre e o que ela deixa de lado, qual a diferença entre ela, as diretivas antecipadas de vontade (o “testamento vital”) e a ordem de não intubar, quem registra a decisão, como ela pode ser mudada a qualquer momento, como o tema é tratado no Brasil — onde a ONR não tem lei específica e é orientada por resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM) — e o que as pesquisas recentes dizem sobre os resultados da reanimação e sobre essas conversas.
O que é uma ordem de não reanimar
A ordem de não reanimar é uma orientação escrita pelo médico no prontuário da pessoa. Ela vale para um único momento e nenhum outro: o momento em que o coração para de bater ou a respiração para. Nesse momento, e só nele, ela diz à equipe para não tentar a reanimação.
O que a reanimação envolve
A RCP, ou reanimação cardiopulmonar, é o conjunto de ações de emergência usadas quando o coração ou a respiração de alguém param. No hospital, ela costuma incluir compressões no peito, choques elétricos no coração (desfibrilação), medicamentos dados durante a parada e, muitas vezes, um tubo colocado na via aérea para ajudar a respiração durante a tentativa. A ordem de não reanimar cobre esse pacote de ações.
Como a reanimação é a resposta a um evento, e não um tratamento contínuo, a ordem de não reanimar fica “parada” enquanto o coração continua batendo. Alguém pode ter uma ONR no prontuário por anos sem que ela jamais entre em jogo.
Uma ordem é diferente de um desejo
Essa diferença importa mais do que parece. As diretivas antecipadas de vontade são o documento em que você descreve o que iria querer. A ordem de não reanimar é uma decisão médica, registrada no prontuário, que a equipe segue diretamente. O National Institute on Aging, dos Estados Unidos, observa que, mesmo quando um testamento vital já diz que a pessoa não quer RCP, é a ordem registrada no prontuário que permite à equipe agir de acordo no hospital. Um desejo precisa ser encontrado, lido e interpretado. Uma ordem registrada já é uma instrução. No Brasil, a Resolução CFM nº 1.995/2012 determina que o médico registre no prontuário as diretivas antecipadas que o paciente lhe comunicou diretamente.
O que a ordem de não reanimar inclui e o que ela não inclui
A tabela abaixo é o coração deste artigo. Se for guardar uma coisa só, guarde esta.
| A ordem de não reanimar significa | A ordem de não reanimar não significa |
|---|---|
| Sem compressões no peito se o coração parar | Sem remédio para dor, sem sedação, sem cuidados de conforto |
| Sem choque elétrico para fazer o coração voltar | Sem antibiótico para uma infecção |
| Em geral, sem tubo colocado com o objetivo de reanimar | Sem oxigênio para a falta de ar |
| Sem remédios de reanimação durante uma parada cardíaca | Sem internação, e sem UTI se ela for desejada |
| Uma orientação que só vale quando o coração ou a respiração param | Sem cirurgia, diálise, tratamento de câncer ou fisioterapia |
| Uma decisão médica registrada no prontuário | Menos atenção ou um cuidado de qualidade inferior |
O MedlinePlus, serviço de informação ao paciente da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, diz isso de forma direta no seu verbete sobre a ordem de não reanimar: a ordem é específica para a RCP e não traz instruções sobre outros tratamentos, como remédios para dor, outros medicamentos ou alimentação. A referência clínica StatPearls é ainda mais clara, ao notar que às vezes existe a ideia de que “não reanimar” equivale a “não tratar”, e que é fundamental que todos os envolvidos entendam que não é assim. O Manual MSD em português diz o mesmo: uma ONR não significa “não administrar tratamento”, apenas que a RCP não será realizada.
Na prática, uma pessoa com ordem de não reanimar que tem pneumonia pode ser internada, receber antibiótico e oxigênio e ser tratada com todo o empenho da equipe. Uma pessoa com ONR que quebra o quadril pode ser operada. Uma pessoa com ONR que sente dor recebe alívio da dor. A ordem apenas diz o que deve acontecer num momento específico, se ele chegar.
O Brasil tem ordem de não reanimar?
Sim, na prática, mas sem uma lei específica: no Brasil, a ordem de não reanimar não é regulamentada por lei federal, e a conduta é orientada por normas éticas do CFM. Um resumo apresentado num congresso acadêmico da Unoesc em 2016 descreve exatamente isso: a ONR não está regulamentada no país, mas a prática existe, muitas vezes de forma velada, e falta orientação clara no meio médico.
Três normas do CFM formam a base. A Resolução CFM nº 1.805/2006 permite ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal, de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal, com a decisão fundamentada e registrada no prontuário e o direito a uma segunda opinião médica; o doente continua recebendo todos os cuidados para aliviar o sofrimento. A Resolução CFM nº 1.995/2012 define as diretivas antecipadas de vontade e diz que elas prevalecem sobre qualquer outro parecer não médico, inclusive sobre os desejos dos familiares. E o Código de Ética Médica proíbe abreviar a vida do paciente, mas determina que, nas doenças incuráveis e terminais, o médico ofereça todos os cuidados paliativos disponíveis, sem ações inúteis ou obstinadas, levando em conta a vontade expressa do paciente.
Ordem de não reanimar, diretivas antecipadas e ordem de não intubar: as diferenças
Esses termos são usados como se fossem a mesma coisa nas conversas, o que causa confusão de verdade. São coisas diferentes.
| Termo | O que é | Quem faz | Quando vale |
|---|---|---|---|
| Ordem de não reanimar (ONR) | Decisão médica de não tentar a RCP | O médico, depois de conversar com você ou com seu representante | Só se o coração ou a respiração pararem |
| Ordem de não intubar | Decisão médica de não colocar tubo nem usar ventilador | O médico | Quando a respiração falha; pode existir com ou sem ONR |
| Diretivas antecipadas de vontade | Os cuidados e tratamentos que você quer, ou não quer, receber se não puder se expressar | Você; o médico registra no prontuário o que você comunicou | Só se você não puder falar por si |
| Testamento vital | Nome popular das diretivas antecipadas escritas, com a lista de tratamentos aceitos ou recusados | Você | Só se você não puder falar por si |
| Limitação de suporte de vida na doença terminal | Limitar ou suspender procedimentos que só prolongam a vida, mantendo os cuidados de conforto | O médico, respeitando a vontade da pessoa ou do representante (Resolução CFM nº 1.805/2006) | Doença grave, incurável e em fase terminal |
Não reanimar e não intubar são confundidos com frequência, mas não são a mesma coisa. A ONR trata da RCP depois que o coração para. A ordem de não intubar trata do tubo na traqueia, que pode ser necessário em situações que nada têm a ver com parada cardíaca — uma pneumonia grave, por exemplo. Uma pessoa pode ter uma, as duas ou nenhuma, e ao conversar sobre o plano de reanimação muitas pessoas também consideram uma ordem de não intubar junto com a ONR.
Nos Estados Unidos existem formulários portáteis de ordens médicas (chamados POLST ou MOLST, com nomes que variam por estado) que acompanham a pessoa fora do hospital. No Brasil não há um formulário nacional equivalente: o caminho mais seguro é ter as diretivas registradas no prontuário, conversadas com o médico que acompanha você e conhecidas pela família.
Quem registra a ordem de não reanimar, e quem decide
Quem registra a ordem é o médico. Mas a decisão por trás dela não é só dele e, no caso comum, nem é dele.
Quando você pode falar por si
Se você tem capacidade de decisão, a escolha é sua. Você diz ao médico o que quer, e ele registra de acordo. O Código de Ética Médica brasileiro inclui entre os princípios fundamentais que o médico aceite as escolhas do paciente sobre os procedimentos diagnósticos e terapêuticos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas. Você pode recusar a RCP, e também pode não querer uma ONR — se você quer que a reanimação seja tentada, não precisa fazer nada, porque a reanimação completa é o padrão no hospital, a menos que haja uma decisão registrada em contrário.
Capacidade aqui tem um significado específico: entender as informações, compreender o que a escolha implica e conseguir expressar uma decisão. Ela é avaliada à beira do leito e não é o mesmo que um diagnóstico. Uma pessoa com demência inicial pode muito bem manter a capacidade para essa decisão. Antes de uma conversa formal sobre capacidade, a equipe costuma fazer uma breve avaliação de orientação como primeira checagem.
Quando você não pode
Se você não consegue se comunicar, a decisão passa para o representante que você indicou nas suas diretivas antecipadas ou, se não indicou ninguém, para a família, que deve agir a partir do que sabe dos seus valores. Se não houver diretivas conhecidas, nem representante, nem consenso entre os familiares, a Resolução CFM nº 1.995/2012 orienta o médico a recorrer ao comitê de bioética ou à comissão de ética médica do hospital, ou ao Conselho Regional de Medicina. É exatamente por isso que indicar alguém com antecedência é útil, seja qual for a sua escolha: assim, quem decide é a pessoa que você escolheu.
E um ponto importante: as diretivas que você deixou quando tinha capacidade prevalecem sobre os desejos dos familiares, segundo a mesma resolução. A sua decisão anterior, tomada com lucidez, continua valendo.
A ordem de não reanimar pode ser mudada ou cancelada a qualquer momento
Vale dizer com todas as letras, porque as pessoas muitas vezes acham o contrário, e essa ideia às vezes impede até que a conversa comece.
A ordem de não reanimar não é permanente e não prende o seu “eu” do futuro. Se você tem capacidade de decisão, pode mudar de ideia a qualquer momento, por qualquer motivo ou sem motivo, e pedir que a ordem seja cancelada. Avise o seu médico ou a equipe, e o registro é refeito. Avise também a família e os cuidadores, e descarte papéis antigos que você tenha em casa, para que nenhum documento desatualizado seja seguido por engano.
As decisões também são revistas com frequência quando a situação muda — na internação, quando um quadro melhora ou piora, ou antes de um procedimento. A cirurgia é um exemplo comum: como a própria anestesia pode fazer o coração parar e isso é facilmente revertido, muitas vezes a ONR é suspensa durante a operação e retomada depois. Essa suspensão deve ser conversada com você antes, e não presumida.
E fora do hospital?
Uma decisão registrada no prontuário do hospital é invisível para a equipe de resgate que chega à sua casa. Isso pega muitas famílias de surpresa, e é uma das coisas práticas mais importantes de acertar.
Nos Estados Unidos, a maioria dos estados exige um formulário específico de “não reanimar fora do hospital”, muitas vezes junto com uma pulseira ou um cartão que os socorristas são treinados a procurar. No Brasil, como a ONR não é regulamentada por lei, não existe um formulário nacional reconhecido pelos serviços de emergência, e, sem uma orientação clara, a equipe de resgate tende a iniciar a reanimação. Para quem tem doença avançada e é acompanhado em casa, vale conversar com o médico e com a equipe de cuidados paliativos sobre como agir numa piora, quem chamar e quais documentos manter à mão — por exemplo, um relatório médico recente com o diagnóstico e as decisões já tomadas.
Tudo o que você lê na internet, este artigo incluído, é um ponto de partida, e não uma resposta para o seu caso. Confirme os detalhes com o seu médico, com o hospital onde você se trata ou com o Conselho Regional de Medicina do seu estado.
O que a conversa costuma abordar
A conversa sobre o plano de reanimação não é uma prova, e não há resposta certa a dar. Uma boa conversa costuma passar por algumas coisas: o que a doença provavelmente vai fazer com o tempo, o que a reanimação envolveria e conseguiria, realisticamente, no seu caso, e o que importa para você na forma como vive.
O médico muitas vezes vai perguntar tanto sobre a sua funcionalidade quanto sobre o diagnóstico — o que você ainda consegue fazer e o que você acharia inaceitável perder. As equipes costumam avaliar as atividades de vida diária para montar esse quadro. Se você já passou por uma parada cardíaca, a equipe também pode acompanhar a pontuação na Escala de Coma de Glasgow depois, para seguir a recuperação da consciência.
Ajuda conhecer parte do vocabulário que você vai ouvir. “Plano de reanimação” ou “status de código” é o termo geral para a decisão; “código completo” significa tentar tudo. Durante uma parada, a equipe confere o ritmo no monitor, que pode mostrar atividade elétrica sem pulso ou outro padrão, e o objetivo é voltar a um ritmo sinusal normal. Em outras partes do prontuário, as anotações podem registrar bom estado geral ou trazer a história da doença atual, e um pedido urgente pode vir marcado como pedido urgente (STAT). Nada disso diz algo sobre suas preferências de reanimação.
Você pode pedir tempo, levar alguém com você e dizer que não está pronto. Também pode decidir e, depois, mudar de ideia.
Avanços científicos recentes
As pesquisas recentes se concentraram em duas perguntas importantes aqui: o que de fato acontece quando a RCP é tentada e como conduzir bem essas conversas. Nada do que segue tem a intenção de empurrar você para uma decisão. Está aqui porque as pessoas dizem, repetidamente, que querem números honestos e uma ideia de como é uma boa conversa.
Como é a sobrevivência depois de uma parada cardíaca no hospital
Um estudo observacional publicado no Journal of the American College of Cardiology em 2025 analisou mais de 77 mil pacientes do Medicare (o sistema público para idosos dos Estados Unidos), com 65 anos ou mais, que tiveram parada cardíaca já internados, em 335 hospitais americanos, entre 2013 e 2019. No hospital mediano, cerca de 22 em cada 100 desses pacientes sobreviveram até a alta. As taxas variaram bastante entre os hospitais, aproximadamente de 12 a 36 em cada 100.
Em palavras simples: quando o coração de uma pessoa idosa para enquanto ela já está internada, um pouco mais de uma em cada cinco vive até receber alta. Isso é menos do que a televisão costuma sugerir, e muito mais do que nada. E uma média de grupo não diz nada sobre uma pessoa específica — a causa da parada, a rapidez com que ela é percebida e a saúde anterior mudam muito o quadro. São dados dos Estados Unidos; os números brasileiros podem ser diferentes.
Um parêntese sobre o jargão: o estudo informa a sobrevivência “padronizada pelo risco”, o que só quer dizer que os números foram ajustados para que hospitais que cuidam de pacientes mais graves não sejam comparados de forma injusta com hospitais que cuidam de pacientes mais saudáveis. Os pesquisadores também viram que a sobrevivência estabilizou nos últimos anos e que hospitais com mais enfermeiros por paciente tendiam a ter menos paradas e melhor sobrevivência.
O que isso significa para você: é um número razoável para levar ao seu médico, que pode então dizer o quanto — ou o quão pouco — ele se aplica à sua situação.
O jeito de conduzir a conversa muda o quanto as pessoas se sentem seguras
Um estudo randomizado publicado no NEJM Evidence em 2025 envolveu 2.663 pacientes de seis hospitais universitários da Suíça. Os médicos foram sorteados para conversar sobre o plano de reanimação do jeito habitual ou com uma abordagem estruturada: treinamento, um roteiro, um material de apoio à decisão e uma conversa explícita sobre como são, de fato, os resultados da reanimação. Os pacientes cujos médicos usaram a abordagem estruturada relataram bem menos incerteza sobre a decisão que tomaram.
Esses pacientes também escolheram a ONR com mais frequência — cerca de 50 em 100, contra cerca de 37 em 100. Esse resultado precisa ser lido com cuidado. Ele mostra que a forma de apresentar as informações influencia a decisão, o que é um motivo para garantir que a conversa seja equilibrada, e não para favorecer um dos lados. O achado menos ambíguo é o da incerteza: quem teve uma conversa estruturada se sentiu mais seguro com a própria escolha, qualquer que fosse ela.
Um parêntese sobre o jargão: decisão compartilhada significa que médico e paciente chegam juntos à decisão, em vez de um entregá-la ao outro, e um material de apoio à decisão é uma ferramenta em linguagem simples que mostra as opções e seus resultados prováveis. A incerteza foi medida com um questionário chamado Escala de Conflito Decisional — uma forma estruturada de perguntar o quanto alguém se sente dividido. Um limite a notar: eram hospitais suíços, e as leis, a prática e a cultura no Brasil são diferentes.
O que faz essas conversas funcionarem
Uma revisão sistemática de 2025 na revista Age and Ageing reuniu 25 estudos qualitativos sobre como as conversas de planejamento antecipado de cuidados acontecem entre idosos, familiares e profissionais de saúde. Os temas recorrentes não surpreendem, mas vale dizê-los: as conversas funcionam melhor quando a informação é adaptada à pessoa, e não genérica, quando a comunicação é clara e compassiva e quando há continuidade do cuidado — pessoas conhecidas, ao longo do tempo, e não um estranho tocando no assunto uma única vez, numa crise.
Um parêntese sobre o jargão: uma revisão sistemática é um estudo de outros estudos, reunidos por um método de busca definido, para que os autores não possam escolher só os resultados de que gostam. Ela dá uma visão mais ampla do que um estudo isolado, mas só é tão confiável quanto os estudos que reúne.
O que isso significa para você: pedir tempo, pedir para conversar com um médico que conhece você e voltar ao assunto depois são pedidos razoáveis. Dizer que está se sentindo apressado também é.
O registro é desigual
Um estudo de 2024 com 1.924 internações por AVC num único hospital australiano viu que menos de quatro em cada dez pacientes tinham qualquer decisão de reanimação registrada. Entre os que tinham, mulheres tinham um pouco mais de chance do que homens de ter uma decisão de não fazer RCP, assim como pessoas que tiveram sangramento no cérebro.
Os autores deixaram claro que não conseguiam explicar o porquê, e era um único hospital fora do Brasil, então os achados não devem ser esticados. Vale conhecê-los por um motivo prático: o que acaba registrado nem sempre reflete uma conversa individual cuidadosa. Se você tem uma preferência, em qualquer direção, dizê-la em voz alta e perguntar se ela foi registrada no prontuário é um passo sensato.
Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Ordem de não reanimar (ONR, DNR) | Decisão médica registrada de não tentar a RCP se o coração ou a respiração pararem. Não cobre mais nada. |
| RCP (reanimação cardiopulmonar) | Ações de emergência usadas quando o coração ou a respiração param, incluindo compressões no peito, choques elétricos e medicamentos. |
| Ordem de não intubar (DNI) | Decisão médica registrada de não colocar tubo nem usar ventilador. É separada da ONR. |
| Plano de reanimação (status de código) | O plano registrado sobre o que deve acontecer se o coração ou a respiração pararem. “Código completo” significa tentar toda a reanimação. |
| Diretivas antecipadas de vontade | Conjunto de desejos, manifestados antes, sobre os cuidados e tratamentos que a pessoa quer ou não receber quando não puder se expressar (Resolução CFM nº 1.995/2012). |
| Testamento vital | Nome popular das diretivas antecipadas escritas, com os tratamentos que você aceitaria ou recusaria se não pudesse decidir na hora. |
| Ortotanásia | Permitir a morte no tempo natural, sem prolongar artificialmente a vida na doença terminal, mantendo todos os cuidados de conforto; é a ideia por trás da Resolução CFM nº 1.805/2006. |
| Representante | Pessoa que você indica para tomar decisões médicas por você se não puder tomá-las. |
| Capacidade de decisão | Conseguir entender as informações sobre uma decisão, compreender o que ela implica e expressar uma escolha. |
| Cuidados paliativos | Cuidado ativo voltado para aliviar sintomas e sofrimento, que continua independentemente de qualquer ONR. |
Perguntas frequentes
Não reanimar quer dizer não tratar?
Não. Esse é o mal-entendido mais comum, e vale ser claro. A ordem de não reanimar vale só para a RCP, e só no momento em que o coração ou a respiração param. Todo o resto continua exatamente como a pessoa quer: remédio para dor, antibióticos, oxigênio, soro, cirurgia, diálise, tratamento de câncer, internação, UTI. O MedlinePlus afirma que a ONR não traz nenhuma instrução sobre outros tratamentos. Se alguém sugerir que ter uma ONR significa retirar ou reduzir o cuidado, não é assim que ela funciona, e é justo levar isso à equipe.
A ordem de não reanimar pode ser desfeita?
Sim, a qualquer momento. Se você tem capacidade de decisão, pode pedir que a ordem seja cancelada quando quiser, por qualquer motivo, e ela será retirada. Você não precisa justificar a mudança. Avise o médico ou a enfermagem, conte também à família e a quem cuida de você em casa e descarte qualquer papel antigo, para que nada desatualizado seja seguido por engano. As ordens também costumam ser suspensas durante cirurgias e retomadas depois, e revistas quando o seu quadro muda.
Como fazer uma ordem de não reanimar?
O primeiro passo é conversar com o médico que acompanha você: ele explica o que a reanimação significaria no seu caso e, se for a sua decisão, registra no prontuário. Você também pode deixar por escrito as suas diretivas antecipadas de vontade, indicar um representante e contar à família. Se você não puder se comunicar, o pedido pode vir do representante que você indicou ou da família, agindo a partir do que sabe dos seus valores. A ONR não é algo que o hospital impõe, e a reanimação completa continua sendo o padrão se não houver decisão registrada.
Qual é o termo para “não ressuscitar”?
No Brasil, fala-se em ordem de não reanimar (ONR) ou ordem de não ressuscitar; em inglês, a sigla é DNR (do not resuscitate). No prontuário, você também pode encontrar “não RCP” ou a combinação com “não intubar”.
A ordem de não reanimar é o mesmo que diretivas antecipadas?
Não. As diretivas antecipadas de vontade são o que você deixa expresso — por escrito ou dito ao médico — sobre o que iria querer se não pudesse falar por si. A ordem de não reanimar é uma decisão médica registrada no prontuário, que a equipe segue diretamente. A diferença tem consequências práticas: um testamento vital que menciona a RCP expressa seus desejos, mas ainda precisa ser encontrado e interpretado numa emergência. Por isso vale garantir que as suas diretivas estejam registradas no prontuário e que a equipe saiba delas.
Quem tem ordem de não reanimar pode ir para o ventilador?
Talvez, dependendo da situação e do que mais você decidiu. A ONR cobre a RCP depois que o coração para, o que costuma incluir a intubação como parte da tentativa. Mas se a respiração piorar por causa de uma pneumonia, por exemplo, com o coração ainda batendo, a situação é outra, e a ONR sozinha não trata disso. Recusar o ventilador nesse caso exige uma decisão separada de não intubar. Muita gente conversa sobre as duas juntas, mas são decisões distintas, e é possível ter uma sem a outra.
Qual a sequência de reanimação numa parada cardíaca?
Fora do hospital, a sequência ensinada ao público é, em linhas gerais: verificar se a pessoa responde e respira, chamar ajuda e o serviço de emergência, começar compressões fortes e rápidas no centro do peito e usar um desfibrilador externo automático (DEA) assim que ele chegar. No hospital, a equipe acrescenta medicamentos, choques guiados pelo monitor e, muitas vezes, a intubação. É exatamente esse conjunto que a ordem de não reanimar recusa.
Quando o hospital pergunta sobre não reanimar?
Muitas vezes na internação, como uma pergunta de rotina, o que pode assustar se você não estiver esperando. É prática comum, e não um sinal sobre o seu prognóstico. O assunto também aparece antes de cirurgias grandes, quando o quadro muda muito ou durante o cuidado de uma doença grave. Você tem o direito de dizer que quer tempo para pensar, de perguntar o que a reanimação significaria de fato no seu caso ou de pedir para ter a conversa com um médico que conhece você, e não com quem está de plantão.
Fontes
- National Library of Medicine — Do-not-resuscitate order — MedlinePlus Medical Encyclopedia, National Institutes of Health, 2024 (em inglês) — medlineplus.gov
- National Institute on Aging — Advance Care Planning: Advance Directives for Health Care — NIA, National Institutes of Health, 2022 (em inglês) — nia.nih.gov
- Vranick J, Sanghavi DK, Torp KD, Stanton M — Do Not Resuscitate — StatPearls, NCBI Bookshelf, 2022 (em inglês) — ncbi.nlm.nih.gov
- Mayo Clinic Staff — Living wills and advance directives for medical decisions — Mayo Clinic, 2025 (em inglês) — mayoclinic.org
- Nathani R, Li Q, Chan PS, et al. — Relation Between the Incidence of In-Hospital Cardiac Arrest and Survival in Older Patients — Journal of the American College of Cardiology, 2025 (em inglês) — doi.org
- Becker C, Gross S, Beck K, et al. — A Randomized Trial of Shared Decision-Making in Code Status Discussions — NEJM Evidence, 2025 (em inglês) — doi.org
- Spencer E, Griffiths S, Nair P, et al. — Communicative practices used by health and social care professionals, older adults and informal carers during advance care planning conversations: systematic review of qualitative evidence — Age and Ageing, 2025 (em inglês) — doi.org
- Goh R, Bacchi S, Ovenden CD, et al. — Resuscitation orders demonstrate differences by gender, stroke type and intervention — Journal of Stroke and Cerebrovascular Diseases, 2024 (em inglês) — doi.org
- Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 1.805/2006: limitação ou suspensão de procedimentos na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis — Diário Oficial da União, 2006 — sistemas.cfm.org.br
- Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 1.995/2012: dispõe sobre as diretivas antecipadas de vontade dos pacientes — Diário Oficial da União, 2012 — sistemas.cfm.org.br
- Conselho Federal de Medicina — Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018) — CFM, 2019 — portal.cfm.org.br
- Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) — Ordem de não reanimar: aspectos éticos e morais (resumo de congresso) — Anais de Medicina, 2016 — periodicos.unoesc.edu.br
- Manual MSD, versão saúde para a família — Ordens de não reanimar (ONR) — MSD Manuals, em português — msdmanuals.com
Leituras recomendadas
- Ordem de não intubar: o que significa
- Atividade elétrica sem pulso (AESP)
- Escala de Glasgow: pontuação e significado
- Atividades de vida diária (AVD)
- Ritmo sinusal no eletrocardiograma
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Decisões como esta dependem de entender a sua própria situação, e boa parte dela está escrita no seu prontuário. Os resultados de exames fazem parte disso — exames da função dos rins, hemograma completo ou exames do fígado podem estar entre o que o médico pesa quando descreve como uma doença tende a evoluir. Conseguir ler esses números em linguagem simples pode facilitar as perguntas que importam para você. A BloodSense ajuda você a entender seus resultados; não faz diagnóstico e não substitui o seu médico.



