A albuminúria, ou seja, a presença de albumina na urina, é um dos primeiros sinais mensuráveis de que os filtros dos rins não estão funcionando como deveriam. Ela costuma aparecer muito antes de qualquer sintoma, muito antes de a creatinina do exame de sangue mudar e muito antes de você sentir qualquer coisa. É exatamente por isso que o exame existe: ele encontra a lesão enquanto ainda há tempo de agir.

Neste artigo você vai entender o que a albumina está fazendo na urina, como a fita do EAS (urina tipo 1) se diferencia de uma dosagem de verdade, o que significam as faixas do laudo, o que causa uma alta passageira, para onde aponta um resultado persistente e o que as pesquisas recentes dizem sobre como revertê-lo.

O que é a albumina e por que ela deve ficar no sangue

A albumina é a proteína mais abundante do sangue. Ela segura o líquido dentro dos vasos, transporta hormônios, minerais e remédios e ajuda a manter o equilíbrio entre a circulação e os tecidos ao redor. O nível dela no sangue reflete a nutrição e o funcionamento do fígado, como explica o nosso guia do exame de albumina no sangue.

Cada rim tem cerca de um milhão de filtros microscópicos, os glomérulos. Um filtro saudável seleciona o que passa pelo tamanho e pela carga elétrica das moléculas. A albumina é grande o bastante, e tem uma carga tal, que quase toda ela fica no sangue. Só traços passam, e a maior parte do que passa é reabsorvida mais adiante, nos túbulos.

Quando essa barreira é lesada, a albumina começa a vazar. A quantidade que escapa acompanha o tamanho da lesão, e é isso que torna a medida tão informativa. Encontrar um vazamento pequeno cedo é muito mais útil do que encontrar um grande mais tarde.

Fita do EAS ou dosagem: qual exame detecta a albuminúria

A fita do EAS detecta apenas perdas grandes de proteína; para encontrar a albuminúria inicial é preciso uma dosagem específica de albumina na urina. A fita reagente tem uma área que muda de cor quando há proteína. Ela é rápida e barata e faz parte do exame de urina de rotina, descrito no nosso guia da proteína na urina. O ponto fraco é a sensibilidade: segundo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Nefrologia, a fita só fica positiva acima de cerca de 10 mg/dL de proteína e não serve para detectar a microalbuminúria, a fase que mais importa.

A dosagem de albumina usa métodos imunoquímicos que detectam quantidades muito menores. No Brasil, o resultado quase sempre vem relacionado à creatinina, um resíduo dos músculos usado para corrigir a concentração da amostra, como explica o nosso guia da creatinina urinária. O resultado é uma relação em miligramas por grama, a RAC, e as faixas baseadas nela estão no nosso guia da RAC na urina.

Na prática, uma fita negativa não descarta uma lesão inicial nos rins. Se você faz parte de um grupo de risco, a dosagem específica de albumina é o exame que responde a pergunta.

Albuminúria e microalbuminúria são a mesma coisa?

Sim, falam do mesmo fenômeno em intensidades diferentes. Albuminúria é qualquer quantidade de albumina na urina acima do normal; microalbuminúria é o nome antigo da faixa inicial, entre 30 e 300 mg/g. E albuminúria não é o mesmo que proteinúria: a proteinúria mede todas as proteínas da urina, das quais a albumina é só uma.

Qual o valor normal de albumina na urina

O valor normal de albumina na urina é abaixo de 30 mg por grama de creatinina na amostra isolada, ou abaixo de 30 mg na urina de 24 horas. Acima disso, o resultado entra nas faixas de albuminúria aumentada:

Albumina por grama de creatininaDescriçãoInterpretação habitual
Abaixo de 30 mg/gNormal ou levemente aumentada (A1)Os filtros estão segurando a albumina como deveriam
30 a 299 mg/gModeradamente aumentada (A2)Vazamento inicial; precisa ser confirmado em novas amostras
300 mg/g ou maisGravemente aumentada (A3)Vazamento importante; avaliação rápida é indicada

Confira as unidades no seu laudo. Alguns laboratórios informam as mesmas faixas em miligramas por milimol, e outros dão só a concentração de albumina em miligramas por litro (mg/L), sem a correção pela creatinina, o que é mais difícil de interpretar numa amostra isolada. Na urina de 24 horas, o resultado vem em mg/24 h, com os mesmos pontos de corte de 30 e 300.

O que aumenta a albumina na urina de forma passageira

A eliminação de albumina não é fixa. Várias situações comuns a aumentam por pouco tempo, sem nenhuma doença nos rins:

  • Exercício intenso nas 24 horas anteriores.
  • Febre ou qualquer doença aguda.
  • Desidratação.
  • Exposição a frio intenso.
  • Infecção urinária, que pode tornar o resultado impossível de interpretar. O nosso guia da urocultura explica como a infecção é confirmada.
  • Menstruação ou qualquer sangue na amostra.
  • Ficar muito tempo em pé, o que aumenta a perda de proteína em alguns jovens.
  • Glicemia ou pressão muito descontroladas no dia da coleta.

Por isso, um valor alto isolado é um motivo para repetir, e não um diagnóstico. A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda repetir o exame nos três a seis meses seguintes: se duas de três amostras vierem alteradas, a perda é considerada persistente.

O que significa ter albumina elevada na urina de forma persistente

Ter albumina elevada na urina de forma persistente significa que há uma lesão nos filtros dos rins, e as causas mais comuns são diabetes e pressão alta. Quando o vazamento é confirmado em amostras repetidas, as causas habituais são:

  • Diabetes, em que a glicose alta lesa os filtros ao longo dos anos. O nosso guia sobre sintomas e tratamento do diabetes trata da doença como um todo, e a própria glicose é explicada no nosso guia da glicemia de jejum.
  • Pressão alta, que lesa os pequenos vasos, inclusive os dos rins.
  • Doenças inflamatórias que atingem os glomérulos (glomerulonefrites), como as ligadas ao lúpus.
  • Algumas doenças renais hereditárias.
  • Lesão causada por certos remédios ou substâncias tóxicas.
  • Insuficiência cardíaca e outras situações que aumentam a pressão dentro da circulação dos rins.

Perdas grandes de albumina podem, com o tempo, baixar a albumina do sangue a ponto de causar inchaço visível nos tornozelos e ao redor dos olhos, e espuma persistente na urina. Esses são sinais tardios; o objetivo do exame é agir muito antes de eles aparecerem. Na maior parte das vezes, a albuminúria não dá sintoma nenhum.

Como se preparar para o exame

  • Evite exercício intenso nas 24 horas anteriores.
  • Evite uma porção grande de carne nas 24 horas antes da coleta, porque ela altera a creatinina usada na correção.
  • Adie o exame durante uma infecção urinária ou a menstruação.
  • A primeira urina da manhã costuma ser a preferida, porque sofre menos influência das atividades do dia.
  • Informe todos os remédios que usa, inclusive anti-inflamatórios, que podem afetar os rins.
  • Beba água normalmente, sem exagerar: tomar muita água não ajuda e pode atrapalhar outras medidas.

O exame não exige jejum na maioria dos laboratórios, mas siga sempre as orientações do laboratório e do seu médico. Ele é feito pelo SUS, pelo plano de saúde ou de forma particular, e muitos exames exigem pedido médico; confira com o laboratório.

Como tratar a albuminúria

A albuminúria é tratada tratando a causa e protegendo o rim: controlar a pressão e a glicemia e usar, quando o médico indicar, remédios que reduzem a perda de albumina. Na doença renal do diabetes, a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes cita os bloqueadores do sistema renina-angiotensina (IECA ou BRA), os inibidores de SGLT2 e, em casos selecionados, a finerenona. Reduzir o sal, parar de fumar e cuidar do peso completam o tratamento. A escolha dos remédios é sempre do médico.

Quando a microalbuminúria é preocupante e quando falar com o médico

A microalbuminúria é preocupante quando se confirma em exames repetidos, quando passa de 300 mg/g ou quando aparece junto com queda da filtração. Procure o médico nestas situações:

  • Qualquer primeiro resultado igual ou acima de 30 mg/g, para organizar a confirmação.
  • Um resultado igual ou acima de 300 mg/g, que merece avaliação rápida.
  • Urina com espuma persistente, ou inchaço novo nos tornozelos, nas mãos ou no rosto.
  • Albumina subindo de um exame para o outro.
  • Diminuição da quantidade de urina, ou sangue visível na urina, tema do nosso guia do sangue na urina.
  • Qualquer perda de albumina junto com queda da taxa de filtração, como descreve o nosso guia sobre sintomas e tratamento da doença renal crônica.

O Ministério da Saúde considera doença renal crônica a presença de um marcador de lesão, como albuminúria acima de 30 mg/24 h ou RAC acima de 30 mg/g, por três meses ou mais, mesmo com filtração normal.

Avanços científicos recentes

Três achados dos últimos três anos mudaram o peso que os médicos dão a esse resultado.

Uma meta-análise de dados individuais publicada no JAMA em 2023, com mais de 9 milhões de pessoas nas análises de albuminúria, distribuídas em 114 coortes, mostrou que mais albumina na urina estava ligada, de forma independente, a dez desfechos ruins, de insuficiência renal e morte a infarto, AVC, insuficiência cardíaca e internação. O risco já subia nas faixas mais leves, e não só nos valores altos. O que isso significa para você: um resultado um pouco acima de 30 mg/g é um sinal real, não um erro de arredondamento, e por isso os médicos repetem o exame e agem.

Uma revisão de 2025 na Circulation explicou por que a albumina na urina importa além dos rins. A explicação mais aceita é que ela reflete uma lesão do revestimento delicado dos pequenos vasos do corpo inteiro, o que explica por que ela prevê eventos cardíacos em pessoas com função renal normal. A revisão também apontou as perguntas em aberto, como tratar ou não valores baixos entre 10 e 30 mg/g. O que isso significa para você: o resultado de albumina faz parte do seu retrato cardiovascular, e não só do renal.

Um ensaio clínico randomizado de 2025 na Nature Medicine testou a semaglutida em 101 adultos com doença renal crônica e excesso de peso, mas sem diabetes. Depois de 24 semanas, a perda de albumina caiu cerca de metade em comparação com o placebo, com efeitos colaterais digestivos mais frequentes no grupo tratado. O que isso significa para você: a albumina na urina não é uma sentença fixa; ela responde ao tratamento. O estudo foi pequeno e curto, então indica uma direção promissora, e não uma conclusão definitiva.

Glossário

TermoDefinição
AlbuminaA proteína mais abundante do sangue, normalmente mantida fora da urina por rins saudáveis.
AlbuminúriaAlbumina na urina acima da pequena quantidade considerada normal.
ProteinúriaProteína de qualquer tipo na urina. A albumina é a que mais importa na avaliação dos rins.
GloméruloUm dos cerca de um milhão de filtros microscópicos de cada rim.
Síndrome nefróticaPerda intensa de proteína na urina, com albumina baixa no sangue e inchaço.
Fita reagenteTira plástica com áreas químicas que dão uma leitura rápida e aproximada da urina, usada no EAS.
ImunoensaioMétodo de laboratório que usa anticorpos para medir quantidades muito pequenas de uma substância.
Proteinúria ortostáticaProteína que aparece na urina só depois de muito tempo em pé, mais comum em jovens e geralmente benigna.
mg/gMiligramas de albumina por grama de creatinina, a unidade mais usada nos laudos brasileiros.

Perguntas frequentes

Um pouco de albumina na urina é normal?

Sim. Rins saudáveis deixam passar traços de albumina, e por isso o limite fica em 30 mg por grama de creatinina, e não em zero. Valores abaixo disso são considerados normais ou só levemente aumentados. O que importa é se um valor alto se mantém em amostras repetidas, e não se a albumina aparece ou não.

Minha fita do EAS deu negativa. Ainda preciso do exame de albumina?

Talvez. A fita não é sensível o bastante para detectar a fase inicial do vazamento, então um resultado negativo não descarta lesão inicial nos rins. Se você tem diabetes, pressão alta, doença do coração ou casos de doença renal grave na família, a dosagem específica de albumina é o exame indicado, seja qual for o resultado da fita.

A albumina na urina pode desaparecer?

Às vezes. Uma alta passageira por exercício, febre ou infecção some sozinha. A perda persistente causada por lesão nos rins costuma melhorar com o controle da pressão e da glicemia e com remédios que protegem o rim, e um valor em queda geralmente acompanha uma perda mais lenta da função. A reversão completa depende da causa e de quão cedo ela foi encontrada.

Urina com espuma quer dizer albumina na urina?

Não necessariamente. A espuma muitas vezes vem só da força do jato, de produtos de limpeza do vaso ou de urina concentrada. Espuma persistente, que aparece toda vez que você urina, principalmente com inchaço ou um fator de risco conhecido, merece uma dosagem de verdade, sem conclusões apressadas para um lado ou para o outro.

Qual a diferença entre albuminúria e proteinúria?

A proteína total inclui a albumina e muitas outras proteínas, algumas produzidas pelos próprios túbulos dos rins. A albumina é medida separadamente porque é o indicador inicial mais sensível de lesão dos filtros. A proteína total continua útil em algumas doenças em que predominam outras proteínas, então os dois exames se completam.

De quanto em quanto tempo devo repetir o exame?

Pessoas com diabetes costumam fazer o exame uma vez por ano, como recomenda a Sociedade Brasileira de Diabetes. Depois de um primeiro resultado alterado, o exame costuma ser repetido nos três a seis meses seguintes para saber se a perda é persistente. A partir daí, o intervalo de acompanhamento é definido caso a caso, conforme o nível e a causa.

Fontes

  • MedlinePlus, National Library of Medicine — Microalbuminuria test — MedlinePlus Medical Encyclopedia, reviewed 2025 — medlineplus.gov (em inglês)
  • National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases — Albuminuria: Albumin in the Urine — NIDDK Health Information, 2025 — www.niddk.nih.gov (em inglês)
  • Mayo Clinic — Protein in urine (microalbumin test) — Mayo Clinic Tests and Procedures, 2025 — www.mayoclinic.org (em inglês)
  • Grams ME, Coresh J, Matsushita K, Ballew SH, Sang Y, Surapaneni A, Levey AS, Gansevoort RT — Estimated Glomerular Filtration Rate, Albuminuria, and Adverse Outcomes: An Individual-Participant Data Meta-Analysis — JAMA, 2023 — doi.org/10.1001/jama.2023.17002 (em inglês)
  • Claudel SE, Verma A — Albuminuria in Cardiovascular, Kidney, and Metabolic Disorders: A State-of-the-Art Review — Circulation, 2025 — doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071079 (em inglês)
  • Apperloo EM, Gorriz JL, Soler MJ, Cruzado JM, Cherney DZI, Jongs N, Heerspink HJL — Semaglutide in patients with overweight or obesity and chronic kidney disease without diabetes: a randomized double-blind placebo-controlled clinical trial — Nature Medicine, 2025 — doi.org/10.1038/s41591-024-03327 — doi.org/10.1038/s41591-024-03327-6 (em inglês)
  • Sociedade Brasileira de Nefrologia — Diagnóstico de Doença Renal Crônica: Avaliação de Proteinúria e Sedimento Urinário — Jornal Brasileiro de Nefrologia (Diretrizes), 2004 — www.bjnephrology.org (em português)
  • Sociedade Brasileira de Diabetes — Doença renal do diabetes — Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2026 — DOI 10.29327/5881296.2026-3 — diretriz.diabetes.org.br (em português)
  • Ministério da Saúde — Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao paciente com Doença Renal Crônica (DRC) no Sistema Único de Saúde — Ministério da Saúde, 2014 — docs.bvsalud.org (em português)

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