A microalbumina na urina é o exame de rastreamento usado para descobrir uma lesão nos rins na fase em que nada dói, nada muda na aparência da urina e os exames de sangue de rotina, como a creatinina, ainda estão normais. O prefixo “micro” não indica um tipo especial de albumina. Ele indica uma quantidade pequena da albumina comum, pequena demais para aparecer na fita do EAS (urina tipo 1), mas suficiente para mostrar que os filtros dos rins começaram a deixar escapar proteína.

Neste artigo você vai entender por que o exame tem esse nome, quem deve fazer e com que frequência no Brasil, como ler as faixas do resultado no laudo, por que um único valor alterado nunca encerra a questão, o que acontece depois de um resultado confirmado e o que as pesquisas recentes mostram sobre o tratamento.

O que é microalbumina na urina e o que o exame procura

A microalbumina na urina é a presença de pequenas quantidades de albumina, a proteína mais abundante do sangue, que normalmente fica retida pelos rins. Cada rim tem cerca de um milhão de filtros microscópicos, os glomérulos. Quando estão saudáveis, eles mantêm quase toda a albumina dentro da circulação. Anos de glicose alta ou de pressão alta podem danificar esses filtros e deixá-los um pouco “furados”. A partir daí, pequenas quantidades de albumina começam a passar para a urina.

Nessa fase inicial, a quantidade perdida fica muito abaixo do que a fita reagente comum consegue detectar. Por isso é preciso uma dosagem específica e sensível. Esse é o objetivo do exame de microalbumina: encontrar o vazamento enquanto ele ainda é pequeno, porque é nessa fase que o tratamento traz mais benefício.

No Brasil, o resultado quase sempre vem como relação com a creatinina, um resíduo dos músculos usado para corrigir o quanto a amostra estava concentrada ou diluída. O nosso guia da creatinina urinária explica essa correção, e a conta por trás do resultado está no guia da RAC na urina. Nos laudos brasileiros, o mesmo exame pode aparecer como “microalbuminúria – amostra isolada”, “relação albumina/creatinina (RAC)” ou “microalbuminúria – urina de 24 horas”.

Uma observação sobre os nomes

Laudos mais antigos chamam de microalbuminúria os valores entre 30 e 300 mg por grama de creatinina e de macroalbuminúria os valores acima disso. As diretrizes atuais de nefrologia, incluindo a da Sociedade Brasileira de Diabetes, preferem falar em albuminúria moderadamente aumentada (A2) e gravemente aumentada (A3). O motivo é que os termos antigos sugeriam um limite nítido, quando os estudos mostram um risco que cresce de forma contínua. Os dois vocabulários usam os mesmos pontos de corte, e você pode encontrar qualquer um deles no laudo.

Quem deve fazer o exame e com que frequência

O exame é indicado principalmente para quem tem diabetes, pressão alta ou outro fator de risco para doença renal. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda começar o rastreamento no momento do diagnóstico do diabetes tipo 2 e, no tipo 1, após cinco anos de doença, a partir da puberdade ou dos 10 anos de idade, repetindo o exame uma vez por ano.

  • Pessoas com diabetes, porque a doença renal do diabetes é a causa mais comum de doença renal crônica e responde por cerca de metade dos novos casos de diálise. O nosso guia sobre sintomas e tratamento do diabetes mostra o cuidado como um todo.
  • Pessoas com pressão alta, tema do nosso guia sobre sintomas e tratamento da pressão alta.
  • Pessoas com doença do coração ou insuficiência cardíaca.
  • Pessoas com casos de doença renal grave na família.
  • Quem já tem a filtração dos rins reduzida, assunto do nosso guia da taxa de filtração glomerular.
  • Quem usa por muito tempo remédios que podem afetar os rins.

O rastreamento vale a pena justamente porque a lesão inicial dos rins é silenciosa. Esperar sintomas significa esperar até que boa parte da função já tenha sido perdida. O exame costuma ser pedido na UBS pelo SUS, pelo plano de saúde ou em consulta particular; para a cobertura pelo plano, é preciso o pedido médico.

Como ler o resultado da microalbumina

O valor normal da relação albumina/creatinina é abaixo de 30 mg/g; entre 30 e 299 mg/g a albuminúria é moderadamente aumentada, e a partir de 300 mg/g é gravemente aumentada. Na urina de 24 horas, os pontos de corte equivalentes são 30 e 300 mg/24 h.

Resultado (RAC)Nome antigoO que costuma acontecer depois
Abaixo de 30 mg/gNormalManter o rastreamento no intervalo combinado com o médico
30 a 299 mg/gMicroalbuminúriaRepetir o exame para confirmar e revisar pressão, glicemia e medicamentos
300 mg/g ou maisMacroalbuminúriaAvaliação rápida, tratamento intensificado e, muitas vezes, encaminhamento ao nefrologista

A confirmação é a regra. A SBD recomenda que todo resultado alterado seja confirmado em pelo menos duas de três amostras colhidas num período de três a seis meses, porque a medida varia cerca de 20 % de um dia para outro. Tratar com base em um único valor pode significar começar um tratamento para o que era apenas uma alta passageira. Os valores de referência podem variar um pouco de um laboratório para outro; confira sempre os que aparecem no seu laudo.

O que aumenta a albumina na urina sem doença nos rins

A eliminação de albumina varia bastante de um dia para outro, e várias situações comuns aumentam o resultado de forma temporária:

SituaçãoEfeito no resultado
Exercício intenso nas 24 horas anterioresAumento temporário
Febre ou doença agudaAumento temporário
Desidratação ou frio intensoAumento temporário
Infecção urináriaAumento e resultado pouco confiável; adiar o exame
Menstruação ou sangue na amostraAumento e resultado pouco confiável
Refeição com muita carne antes da coletaAumenta a creatinina e diminui a relação calculada
Massa muscular muito alta ou muito baixaDesloca a relação no sentido oposto ao da creatinina
Glicemia muito descontrolada ou pressão muito alta no diaAumento que pode melhorar com o controle

Um preparo simples elimina a maior parte desses fatores: evitar exercício pesado e refeição com muita carne nas 24 horas anteriores, adiar o exame durante uma infecção ou menstruação e, se possível, entregar a primeira urina da manhã, como recomenda a SBD. Siga sempre as orientações do laboratório. O nosso guia da urocultura explica como uma infecção urinária é confirmada, se essa for a dúvida.

O que fazer depois de um resultado alterado e confirmado

Uma microalbumina alta e confirmada não é diagnóstico de insuficiência renal. É um aviso precoce que costuma levar a passos concretos:

  • Revisar o controle da pressão arterial, muitas vezes com uma meta mais baixa do que a da população geral.
  • Revisar o controle da glicose, se você tem diabetes, com os marcadores explicados no nosso guia da glicemia de jejum.
  • Começar ou ajustar um remédio com efeito protetor sobre os rins, como os da classe dos IECA ou BRA, e, em pessoas com diabetes, os inibidores de SGLT2.
  • Medir de novo a taxa de filtração para ver se ela está estável.
  • Revisar remédios que possam sobrecarregar os rins, como o uso frequente de anti-inflamatórios.
  • Conversar sobre sal na comida, peso, cigarro e atividade física.
  • Definir um intervalo de acompanhamento, já que a tendência ao longo do tempo importa mais do que um valor isolado.

O nosso guia sobre sintomas e tratamento da doença renal crônica descreve o acompanhamento a longo prazo se a perda de albumina persistir.

Tem remédio para microalbuminúria?

Sim, existem remédios que reduzem a microalbuminúria, mas eles tratam a causa e protegem o rim, não “a albumina” em si. A escolha depende do seu quadro e é sempre do médico: os bloqueadores do sistema renina-angiotensina (IECA ou BRA) são a base, e a diretriz da SBD inclui ainda os inibidores de SGLT2 e, em casos selecionados, a finerenona para pessoas com diabetes. Não comece nem pare remédios por conta própria.

Quando conversar com o médico

  • Qualquer primeiro resultado igual ou acima de 30 mg/g, para organizar a confirmação.
  • Um resultado igual ou acima de 300 mg/g, que pede avaliação rápida.
  • Valores que sobem a cada exame repetido.
  • Inchaço novo nos tornozelos, nas mãos ou no rosto, ou urina com espuma persistente.
  • Queda da taxa de filtração junto com albumina alta.
  • Pressão acima da meta apesar do tratamento.

Em caso de emergência, como falta de ar intensa ou inchaço que piora rapidamente, ligue para o SAMU (192).

Avanços científicos recentes

As pesquisas dos últimos três anos reforçaram a importância do rastreamento e mostraram o quanto esse número pode ser modificado.

Uma meta-análise de dados individuais publicada no JAMA em 2023, reunindo 114 coortes do mundo inteiro, mostrou que mais albumina na urina e menos filtração estavam ligadas, cada uma de forma independente, a dez desfechos ruins, entre eles insuficiência renal, morte, infarto, AVC e internação, e que o risco já subia dentro das categorias mais leves. O que isso significa para você: o limite de 30 mg/g não é o ponto em que o risco começa, e sim o ponto em que ele passa a ser detectado com segurança. Por isso uma alta modesta é levada a sério.

Uma análise publicada na Circulation em 2023 estimou o efeito combinado de três classes modernas de remédios em pessoas com diabetes tipo 2 e relação igual ou acima de 30 mg/g. Em comparação com o tratamento convencional, a combinação projetou cerca de três anos a mais sem eventos cardiovasculares graves e cerca de cinco anos a mais sem progressão da doença renal para quem começa aos 50 anos. O que isso significa para você: um exame que encontra o vazamento cedo identifica exatamente as pessoas que mais ganham com esses tratamentos. Os números vêm de modelagem baseada em ensaios clínicos, e não de um único estudo com a combinação completa.

Uma revisão de 2025, também na Circulation, descreveu a albumina na urina como um marcador comum às doenças do coração, dos rins e do metabolismo, mas lembrou que ainda está em aberto com que amplitude e frequência rastrear, e se vale tratar valores baixos entre 10 e 30 mg/g. O que isso significa para você: os intervalos de rastreamento propostos hoje refletem o consenso atual e podem ser ajustados nos próximos anos.

Glossário

TermoDefinição
MicroalbuminaPequena quantidade de albumina comum na urina, pequena demais para a fita do EAS detectar.
MicroalbuminúriaNome antigo para uma relação entre 30 e 300 mg por grama de creatinina.
MacroalbuminúriaNome antigo para uma relação igual ou acima de 300 mg por grama de creatinina.
Albuminúria moderadamente aumentada (A2)Termo atual para a faixa de 30 a 300 mg/g.
Doença renal do diabetesLesão dos rins causada pelo diabetes, antes chamada de nefropatia diabética.
GloméruloUma das unidades microscópicas de filtração do rim, cerca de um milhão em cada rim.
CreatininaResíduo dos músculos usado para corrigir o resultado conforme a concentração da amostra.
TFGTaxa de filtração glomerular estimada, calculada a partir de um exame de sangue.
RastreamentoExame feito em pessoas sem sintomas para encontrar uma doença cedo o bastante para mudar sua evolução.

Perguntas frequentes

A microalbumina é uma proteína diferente da albumina?

Não. É a mesma proteína, e o prefixo se refere apenas à pequena quantidade medida. O nome vem de uma época anterior à terminologia atual, e por isso muitos laudos já falam em albuminúria moderadamente aumentada. Seja qual for o termo usado no seu laudo, os pontos de corte são os mesmos.

O que acontece quando a albumina está alta na urina?

Albumina alta na urina, confirmada em mais de uma amostra, indica que os filtros dos rins estão deixando escapar proteína e aumenta o risco de doença renal e de problemas do coração. Um resultado isolado, porém, pode ser passageiro por exercício, febre ou infecção. Se a perda for persistente, ela mostra uma lesão inicial nos rins, justamente a fase em que o tratamento consegue frear ou parar a progressão.

O que é bom para baixar a microalbuminúria?

O que mais baixa a microalbuminúria é controlar bem a pressão e a glicemia e usar, quando o médico indicar, remédios que protegem o rim. Reduzir o sal, parar de fumar, perder peso se houver excesso e manter atividade física também ajudam. Muitas vezes o valor cai, e uma queda costuma acompanhar uma perda mais lenta da função renal. Algumas pessoas voltam para a faixa normal; quanto mais cedo a alteração é encontrada, maior a chance.

Preciso de jejum ou de coletar urina por 24 horas?

Na maioria dos casos, não. Uma amostra isolada corrigida pela creatinina é o método padrão e funciona bem para o rastreamento; a primeira urina da manhã é a preferida. Evite exercício intenso e refeição com muita carne nas 24 horas anteriores e adie o exame se estiver com infecção urinária. Alguns médicos ainda pedem a urina de 24 horas; nesse caso, siga as instruções do laboratório.

Por que fazer esse exame se a minha creatinina no sangue está normal?

Porque a perda de albumina costuma aparecer anos antes de a filtração cair de forma mensurável. Uma creatinina ou uma TFG normais não descartam uma lesão inicial. A diretriz da SBD recomenda usar os dois exames juntos, e os dois resultados lado a lado dão uma ideia muito melhor do risco do que qualquer um deles sozinho.

Com que frequência devo repetir o exame se tenho diabetes?

Em geral, uma vez por ano, segundo a SBD, mas o médico pode pedir com mais frequência se um resultado anterior veio alterado ou se o controle da pressão ou da glicemia mudou. O intervalo é uma decisão clínica baseada no seu risco, então vale perguntar diretamente qual calendário se aplica a você.

Fontes

  • MedlinePlus, National Library of Medicine — Microalbumin Creatinine Ratio — MedlinePlus Medical Test, reviewed 2025 — medlineplus.gov (em inglês)
  • Mayo Clinic — Protein in urine (microalbumin test) — Mayo Clinic Tests and Procedures, 2025 — www.mayoclinic.org (em inglês)
  • National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases — Quick Reference on UACR and GFR — NIDDK Health Information, 2025 — www.niddk.nih.gov (em inglês)
  • Grams ME, Coresh J, Matsushita K, Ballew SH, Sang Y, Surapaneni A, Levey AS, Gansevoort RT — Estimated Glomerular Filtration Rate, Albuminuria, and Adverse Outcomes: An Individual-Participant Data Meta-Analysis — JAMA, 2023 — doi.org/10.1001/jama.2023.17002 (em inglês)
  • Neuen BL, Heerspink HJL, Vart P, Claggett BL, Fletcher RA, Arnott C, Perkovic V, Solomon SD, Vaduganathan M — Estimated Lifetime Cardiovascular, Kidney, and Mortality Benefits of Combination Treatment With SGLT2 Inhibitors, GLP-1 Receptor Agonists, and Nonsteroidal MRA — Circulation, 2023 — doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.123.067584 (em inglês)
  • Claudel SE, Verma A — Albuminuria in Cardiovascular, Kidney, and Metabolic Disorders: A State-of-the-Art Review — Circulation, 2025 — doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071079 (em inglês)
  • Sociedade Brasileira de Diabetes — Doença renal do diabetes — Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2026 — DOI 10.29327/5881296.2026-3 — diretriz.diabetes.org.br (em português)
  • Ministério da Saúde — Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao paciente com Doença Renal Crônica (DRC) no Sistema Único de Saúde — Ministério da Saúde, 2014 — docs.bvsalud.org (em português)
  • Ministério da Saúde — SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — gov.br — www.gov.br (em português)

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