O essencial

Entre os oito tipos que aparecem no laudo, o AB negativo é o mais raro no Brasil: cerca de 5 pessoas em cada 1.000. O O positivo e o A positivo são os mais comuns. A ordem muda de um país para outro, porque o tipo sanguíneo é herdado. Os tipos raros de verdade, como o Rh nulo (o “sangue dourado”) ou o Bombay, não têm um antígeno que quase todo mundo tem, o que torna muito difícil achar sangue compatível.

Qual o sangue mais raro do mundo?

Depende da lista que você olha. Entre os oito tipos impressos num laudo comum, o AB negativo fica em último lugar: 0,5% dos brasileiros, seguido do B negativo, com 2%[1].

Os bancos de sangue usam outra régua. Para a Cruz Vermelha americana, um sangue é raro quando não tem um antígeno que 99% das pessoas têm, e extremamente raro quando 99,99% o têm[3]. No Brasil, o Ministério da Saúde considera raro o perfil que aparece em menos de 1 a cada 1.000 pessoas testadas[4]. Por esse critério, o AB negativo não é raro. O tipo mais raro que se conhece é o Rh nulo, com cerca de 43 pessoas descritas no mundo inteiro[5].

O ABO e o Rh são só 2 dos 49 sistemas de grupos sanguíneos da Sociedade Internacional de Transfusão Sanguínea (ISBT), com cerca de 400 antígenos[6]. A tipagem de rotina lê poucos deles[7].

Como ler a linha do tipo sanguíneo no laudo?

Um resultado fictício de uma pessoa com um dos tipos menos frequentes:

Exemplo fictício de laudo de tipagem sanguínea (formato brasileiro)
ExameResultadoResultados possíveisObservação
Grupo sanguíneo (sistema ABO)ABA, B, AB ou O-
Fator Rh (antígeno D)NegativoPositivo ou negativo-
Tipo sanguíneo (resumo)AB Rh negativo (AB-)Um dos 8 tipos-
Pesquisa de anticorpos irregulares (PAI)NegativaNegativa ou positiva-
  1. Grupo AB: as hemácias têm os antígenos A e B. O laboratório confere nas células e de novo no plasma (prova reversa)[7].
  2. Rh negativo: as suas hemácias não têm a proteína RhD. Numa transfusão, você deve receber hemácias Rh negativas[7].
  3. AB-: a soma das duas linhas. Pouco frequente, mas não é um problema de saúde: não existe valor “alto” ou “baixo” aqui.
  4. PAI negativa: nenhum anticorpo inesperado contra outros antígenos das hemácias foi encontrado. É ele que pode revelar um tipo raro: quem não tem um antígeno comum pode produzir anticorpos contra ele após uma transfusão ou gravidez[8].

Ficou com dúvida num laudo de tipagem ou noutros exames? O BloodSense explica cada linha em linguagem simples, para você saber o que perguntar ao médico.

Entender meu laudo

Por que a raridade importa numa transfusão?

Para a maioria dos pacientes, os oito tipos bastam: o sangue O pode ir para qualquer grupo ABO, quem é AB recebe A, B, AB e O, e quem é Rh negativo recebe sangue Rh negativo[7]. Já os doadores AB são doadores universais de plasma[3].

A raridade pesa mais para quem precisa de sangue muitas vezes, como na anemia falciforme ou na talassemia. Eles se dão melhor com sangue compatível além do ABO e do Rh[9]. Na Inglaterra, um subtipo chamado Ro é vital no tratamento da doença falciforme, mas só 3% dos doadores regulares o têm[9].

Quando um hemocentro brasileiro não encontra sangue compatível no próprio estado, ele pode acionar o Cadastro Nacional de Sangue Raro, criado pelo Ministério da Saúde em 2013. Ele reúne 2.032 doadores e já ajudou mais de 300 pacientes; em outubro de 2026, sangue coletado no Ceará viajou na cabine de um avião até um paciente transplantado em Minas Gerais[4].

Qual a porcentagem de cada tipo sanguíneo no Brasil?

Porcentagem de cada tipo sanguíneo em três populações (fonte no título de cada coluna)
Tipo sanguíneoBrasil, população (hemocentro do Amazonas)[1]Inglaterra, doadores (fevereiro de 2026)[2]China, 3,8 milhões de adultos[11]
O positivo36%36%30,1%
O negativo9%14%0,3%
A positivo34%28%30,2%
A negativo8%8%0,4%
B positivo8%8%29,1%
B negativo2%3%0,3%
AB positivo2,5%2%9,6%
AB negativo0,5%1%0,1%

Os números brasileiros são arredondados e coincidem com um levantamento da Fundação Pró-Sangue divulgado pelo Ministério da Saúde: cerca de 45% dos brasileiros são do grupo O, 42% do grupo A e só 3% do grupo AB[10][1]. Somando as linhas negativas, cerca de 1 em cada 5 brasileiros é Rh negativo. Os dados ingleses descrevem doadores, não a população toda[2]. Na China, o tipo B é quase tão comum quanto o A ou o O, e o sangue Rh negativo, de qualquer grupo, aparece em só cerca de 1% das pessoas[11].

Por que o tipo mais raro muda de um país para outro?

O tipo sanguíneo é herdado, então pessoas com a mesma ascendência tendem a ter os mesmos tipos[3][9]. Alguns exemplos:

  • O sangue Rh negativo foi descrito em 17,3% dos doadores americanos brancos não hispânicos, mas em 1,7% dos doadores americanos de origem asiática[11].
  • Na Inglaterra, o subtipo Ro é cerca de 10 vezes mais comum em pessoas de ascendência negra do que nos demais doadores[9].

Por isso os serviços de sangue buscam doadores de todas as origens: o sangue mais parecido costuma vir de alguém de ascendência semelhante[9].

Quais são os tipos de sangue raros de verdade?

  • Frequente Um tipo comum menos frequente. AB negativo, B negativo ou O negativo: os bancos de sangue mantêm estoque deles[9].
  • Possível Um subtipo pouco comum. O Ro, ou a falta de um antígeno de outro sistema, importa sobretudo para quem recebe muitas transfusões[9].
  • Rara Fenótipo Bombay. As hemácias não têm o antígeno H, e por isso um exame de rotina pode lê-las como tipo O (daí o apelido de “falso O”). Quem o tem só pode receber sangue Bombay. Ele aparece sobretudo no oeste e no sul da Índia: um hospital de Puducherry encontrou 3 casos entre 35.497 pessoas testadas[12].
  • Rara Rh nulo. Todos os antígenos Rh estão ausentes. Muitas vezes há uma destruição leve e contínua das hemácias (anemia hemolítica). Depois que os anticorpos se formam, só o sangue Rh nulo é seguro: de parentes, de estoques congelados ou de cadastros de doadores raros[8][5].

Como nenhum país tem sozinho doadores suficientes, os programas nacionais compartilham dados pelo Painel Internacional de Doadores Raros da OMS, e bolsas podem ser enviadas ao exterior[13][9].

O tipo sanguíneo muda alguma coisa na gravidez?

Se você é Rh negativo e o bebê é Rh positivo, o seu corpo pode produzir anticorpos contra as hemácias do bebê. Numa gravidez seguinte, eles podem destruir as hemácias do bebê e causar bilirrubina alta e icterícia. A imunoglobulina anti-D, hoje usada de rotina no pré-natal, tornou esse problema bem menos comum[14]. No Brasil, a gestante Rh negativo com parceiro Rh positivo faz o Coombs indireto e, se o bebê nascer Rh positivo, recebe a “vacina” anti-D em até 3 dias após o parto, pelo SUS[15]. Com Rh nulo ou outro tipo muito raro, o pré-natal é planejado cedo com um banco de sangue especializado[8].

Como posso saber meu tipo sanguíneo e se ele é raro?

  • Procure nos seus papéis: a tipagem faz parte do pré-natal e é feita antes de uma transfusão ou de um transplante[7][15].
  • Peça ao médico uma tipagem ABO e Rh. É uma coleta de sangue simples, sem preparo especial[7].
  • Doe sangue. O doador fica sabendo o seu tipo, e os serviços de sangue avisam quando o sangue é raro[3][9].
  • Guarde o cartão ou a carta que mencione um tipo raro ou um anticorpo irregular, e mostre antes de uma cirurgia.
  • Conte ao hospital sobre transfusões, gestações e transplantes de medula anteriores.

Quando procurar um médico?

Quando procurar atendimento

  • Emergência: ligue 192 (SAMU) em caso de sangramento intenso, desmaio, falta de ar forte, ou febre, calafrios, dor nas costas ou urina escura durante ou logo depois de uma transfusão.[16].
  • Em 24 a 48 horas se você é Rh negativo, está grávida e teve sangramento vaginal, uma queda ou uma pancada na barriga, ou se sabe que tem um tipo raro e uma cirurgia está sendo marcada.
  • Na próxima consulta para confirmar o seu tipo sanguíneo ou conversar sobre uma pesquisa de anticorpos irregulares positiva.

Perguntas para fazer ao médico

  1. O meu tipo sanguíneo foi confirmado em duas amostras diferentes?
  2. Foi feita a pesquisa de anticorpos irregulares, e qual foi o resultado?
  3. Preciso da imunoglobulina anti-D nesta gravidez?
  4. Antes de uma cirurgia, o banco de sangue deve reservar sangue?
  5. O meu sangue pode ser útil ao Cadastro Nacional de Sangue Raro?

Perguntas frequentes

O sangue O negativo é raro?

Não. Cerca de 9% dos brasileiros são O negativo[1]. Ele parece escasso porque os hospitais o usam muito em emergências, antes de conhecer o tipo do paciente[1][3].

O sangue B negativo é raro?

É pouco frequente, mas não é raro no sentido dos bancos de sangue: cerca de 2% dos brasileiros têm B negativo, o segundo menos comum depois do AB negativo[1].

Por que o Rh nulo é chamado de “sangue dourado”?

O nome é uma forma popular de dizer o quanto ele é raro. Não quer dizer que seja mais puro nem mais seguro para todos[5].

Ter um tipo sanguíneo raro faz mal à saúde?

Os oito tipos comuns não causam doença. O Rh nulo é uma exceção: costuma vir com uma destruição leve e crônica das hemácias, que o hemograma completo e a contagem de reticulócitos ajudam a acompanhar[8].

Artigos relacionados

  1. Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (FHEMOAM). Sobre o sangue: tipo de sangue, percentual de ocorrência. Governo do Estado do Amazonas. hemoam.am.gov.br (acesso em 25 out. 2026)
  2. NHS Blood and Transplant. Blood types (dados de fevereiro de 2026). blood.co.uk (acesso em 25 out. 2026)
  3. American Red Cross. Blood types explained: A, B, AB and O. redcrossblood.org (acesso em 25 out. 2026)
  4. Agência Gov. SUS: sangue raro cruza o país em voo comercial para atender paciente em estado grave. 9 out. 2026. agenciagov.ebc.com.br (acesso em 25 out. 2026)
  5. Cleveland Clinic Health Essentials. What is “golden blood”? And why is it so rare? health.clevelandclinic.org (acesso em 25 out. 2026)
  6. International Society of Blood Transfusion. Red Cell Immunogenetics and Blood Group Terminology Working Party (registro atualizado em 24 de setembro de 2026). isbtweb.org (acesso em 25 out. 2026)
  7. MedlinePlus Medical Encyclopedia. Blood typing. Revisado em 29 jan. 2026. US National Library of Medicine. medlineplus.gov (acesso em 25 out. 2026)
  8. Shahverdi E, Moghaddam M. Rhnull phenotype: molecular basis, serologic features, clinical manifestations, and transfusion challenges. A scoping review of published cases. Immunohematology. 2026;42(2):42-47. doi:10.2478/immunohematology-2026-008 (acesso em 25 out. 2026)
  9. NHS Blood and Transplant. Rare blood types. blood.co.uk (acesso em 25 out. 2026)
  10. Conselho Federal de Medicina. Dia Mundial do Doador de Sangue valoriza os voluntários (fonte: Agência Saúde, Ministério da Saúde). 13 jun. 2008. portal.cfm.org.br (acesso em 25 out. 2026)
  11. Liu J, Zhang S, Wang Q, Shen H, Zhang Y, Liu M. Frequencies and ethnic distribution of ABO and RhD blood groups in China: a population-based cross-sectional study. BMJ Open. 2017;7(12):e018476. doi:10.1136/bmjopen-2017-018476 (acesso em 25 out. 2026)
  12. Mallick S, Kotasthane DS, Chowdhury PS, Sarkar S. Bombay blood group: is prevalence decreasing with urbanization and the decreasing rate of consanguineous marriage. Asian J Transfus Sci. 2015;9(2):129-132. doi:10.4103/0973-6247.162695 (acesso em 25 out. 2026)
  13. Nance S, Scharberg EA, Thornton N, Yahalom V, Sareneva I, Lomas-Francis C. International rare donor panels: a review. Vox Sang. 2016;110(3):209-218. doi:10.1111/vox.12357 (acesso em 25 out. 2026)
  14. MedlinePlus Medical Encyclopedia. Rh incompatibility. US National Library of Medicine. medlineplus.gov (acesso em 25 out. 2026)
  15. Ministério da Saúde. Gravidez: exames e vacinas. gov.br/saude (acesso em 25 out. 2026)
  16. Ministério da Saúde. SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. gov.br/saude (acesso em 25 out. 2026)

Este artigo traz informações gerais. Ele não substitui a avaliação de um médico ou de um banco de sangue, que interpretam o seu tipo com o seu histórico, as gestações e as transfusões anteriores.