A RAC na urina, ou relação albumina/creatinina, é a forma padrão de medir quanta proteína está escapando dos rins para a urina, e faz isso com um único frasco, sem precisar coletar urina o dia inteiro. Junto com a taxa de filtração estimada por um exame de sangue, ela é um dos dois números usados no mundo todo para detectar e classificar a doença renal crônica. Ela também traz informação sobre o risco do coração que não tem nada a ver com sintomas que você consiga sentir.

Neste artigo você vai entender o que a relação calcula de fato, por que dividir pela creatinina faz diferença, como ler as faixas em mg/g, por que um resultado alterado sozinho não é diagnóstico, o que aumenta o valor de forma passageira e o que as pesquisas recentes mostraram sobre como baixá-lo.

O que é o exame RAC e por que ele é uma relação

O exame RAC mede a albumina da urina dividida pela creatinina da mesma amostra, para descobrir cedo se os filtros dos rins estão deixando passar proteína. A albumina é a proteína mais abundante do sangue. Os filtros saudáveis dos rins são seletivos o bastante para manter quase toda ela na circulação, e só traços aparecem na urina. Quando os filtros são lesados, a albumina começa a escapar. Encontrar esse vazamento cedo é o objetivo do exame.

A complicação é que a concentração da urina varia muito ao longo do dia. Uma amostra dada depois de vários copos de água está diluída, e a mesma quantidade de albumina parece menor nela. A creatinina resolve isso. Ela é um resíduo dos músculos que os rins eliminam num ritmo bastante estável, e por isso funciona como uma medida embutida da concentração da amostra. Dividir a albumina pela creatinina cancela a diluição, e é por isso que uma amostra isolada dá uma resposta confiável. O nosso guia da creatinina urinária explica esse divisor em detalhe.

O resultado vem em miligramas de albumina por grama de creatinina (mg/g). Alguns laboratórios usam miligramas por milimol; as faixas são as mesmas, mas os números parecem diferentes, então confira as unidades no seu laudo. No Brasil, o exame pode aparecer como “RAC”, “RACU”, “relação albumina/creatinina urinária” ou “microalbuminúria – amostra isolada”: na prática, é o mesmo exame.

Como calcular a RAC

Para calcular a RAC, divida a albumina urinária em mg/L pela creatinina urinária em mg/dL e multiplique por 100; o resultado sai em mg/g. Por exemplo, albumina de 20 mg/L e creatinina de 100 mg/dL dão uma RAC de 20 mg/g. O laboratório já faz essa conta e traz o resultado pronto no laudo, mas entender a fórmula ajuda a ver por que uma creatinina muito alta ou muito baixa mexe no número final.

Por que o exame é pedido

  • Rastreamento dos rins em pessoas com diabetes: a Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda a RAC, de preferência na primeira urina da manhã, junto com a TFG, desde o diagnóstico do diabetes tipo 2 e, no tipo 1, após cinco anos de doença, uma vez por ano.
  • Rastreamento em pessoas com pressão alta, doença do coração ou casos de doença renal grave na família.
  • Investigação de uma proteína positiva na fita do EAS, descrita no nosso guia da proteína na urina.
  • Classificação de uma doença renal já conhecida e acompanhamento da sua evolução.
  • Avaliação de um remédio de proteção renal: ele está funcionando?
  • Refinamento do risco cardiovascular, já que a albuminúria prevê eventos do coração independentemente dos rins.

O rastreamento importa porque a lesão inicial dos rins não dá sintoma nenhum. Quando aparecem inchaço, cansaço ou urina com espuma, boa parte da função pode já ter sido perdida. Ele pode ser feito pelo SUS, pelo plano de saúde ou de forma particular; muitos exames exigem pedido médico, então confira com o laboratório.

Qual o valor normal da RAC na urina

O valor normal da RAC é abaixo de 30 mg/g; de 30 a 299 mg/g a albuminúria é moderadamente aumentada e, a partir de 300 mg/g, gravemente aumentada. Os pontos de corte são os mesmos nas principais fontes, inclusive nas diretrizes brasileiras, embora o texto do laudo mude de um laboratório para outro.

ResultadoCategoriaO que costuma indicar
Abaixo de 30 mg/gNormal ou levemente aumentada (A1)Risco baixo de insuficiência renal e de eventos do coração
30 a 299 mg/gModeradamente aumentada (A2), antes chamada de microalbuminúriaRisco maior de eventos renais e cardiovasculares; muitas vezes o primeiro sinal detectável de lesão
300 mg/g ou maisGravemente aumentada (A3), antes chamada de macroalbuminúriaDoença renal moderada a grave, com risco bem mais alto

O resultado não é lido sozinho. Os médicos o combinam com a taxa de filtração estimada para situar a saúde dos rins numa grade de duas dimensões, e essa combinação prevê a evolução muito melhor do que qualquer um dos números isolados. A Sociedade Brasileira de Diabetes adota esse estadiamento combinado. O nosso guia da taxa de filtração glomerular explica o outro eixo.

Um resultado alto não é diagnóstico

A eliminação de albumina oscila, então a confirmação é regra. A SBD recomenda repetir o exame nos três a seis meses seguintes: se duas de três amostras vierem alteradas, a albuminúria é considerada persistente. A variação de um dia para outro é da ordem de 20 %. Agir com base em um único valor arrisca preocupação e tratamento desnecessários.

O que aumenta a RAC sem doença nos rins

FatorEfeito na relação
Exercício intenso nas 24 horas anterioresAumenta a albumina de forma passageira
Refeição com muita carne pouco antes do exameAumenta a creatinina e, com isso, diminui a relação calculada
Febre ou doença agudaAumenta a albumina de forma passageira
Infecção urináriaPode aumentar o valor e torná-lo impossível de interpretar
Menstruação ou sangue na amostraPode aumentar o valor
Massa muscular muito alta ou muito baixaAltera a creatinina e desloca a relação no sentido oposto
Desidratação importanteAfeta os dois componentes, em geral menos do que se espera, porque a relação corrige isso

O preparo é simples: evitar exercício intenso e refeição com muita carne nas 24 horas anteriores e adiar o exame em caso de infecção urinária ou menstruação. A primeira urina da manhã costuma ser a preferida, porque sofre menos influência das atividades do dia. Em geral não é preciso jejum; siga sempre as orientações do laboratório.

O que significa uma RAC alta de forma persistente

A albuminúria persistente indica que as unidades de filtração dos rins estão sendo lesadas. As causas mais frequentes são o diabetes e a pressão alta, que juntos respondem pela maior parte da doença renal crônica; no Brasil, a SBD estima que o diabetes sozinho está por trás de cerca de metade dos novos casos de diálise. Outras causas são doenças inflamatórias dos rins, algumas doenças hereditárias e lesões causadas por certos remédios.

Ela também diz algo sobre os vasos sanguíneos em geral. A albuminúria é entendida como um marcador de lesão difusa do revestimento delicado dos pequenos vasos, o que explica por que ela prevê infarto, AVC e insuficiência cardíaca, além da piora dos rins. É por isso que cardiologistas, e não só nefrologistas, prestam atenção nela.

A parte animadora é que o valor responde ao tratamento. O controle da pressão e da glicemia e várias classes de remédios com efeito protetor sobre os rins conseguem baixar a albuminúria, e uma queda do número geralmente acompanha uma perda mais lenta da função renal. Os nossos guias sobre sintomas e tratamento da doença renal crônica e sobre sintomas e tratamento do diabetes mostram o acompanhamento como um todo.

Quando a albumina é preocupante e quando falar com o médico

A albumina na urina é preocupante quando a RAC fica igual ou acima de 30 mg/g em exames repetidos, e pede avaliação rápida a partir de 300 mg/g. Converse com o médico nestas situações:

  • Um primeiro resultado igual ou acima de 30 mg/g, para organizar a confirmação.
  • Qualquer resultado igual ou acima de 300 mg/g, que merece avaliação rápida.
  • Uma relação que sobe a cada exame repetido.
  • Urina com espuma persistente, inchaço novo ao redor dos tornozelos ou dos olhos, ou cansaço sem explicação.
  • Pressão acima da meta junto com uma relação alta, tema do nosso guia sobre sintomas e tratamento da pressão alta.
  • Relação alta com taxa de filtração em queda, uma combinação que pede a opinião de um nefrologista.

Avanços científicos recentes

Os últimos três anos trouxeram evidências especialmente claras sobre esse único número.

Uma meta-análise de dados individuais publicada no JAMA em 2023 reuniu dados de mais de 27 milhões de pessoas em 114 coortes. Ela mostrou que uma relação albumina/creatinina mais alta e uma filtração mais baixa estavam ligadas, cada uma de forma independente, a dez desfechos ruins, entre eles insuficiência renal, morte, infarto, AVC, insuficiência cardíaca e internação, e que o risco já subia nas faixas mais leves. O que isso significa para você: uma relação um pouco acima de 30 mg/g não é uma curiosidade limítrofe, é um sinal real, e por isso os médicos agem em vez de esperar um número maior.

Uma revisão de 2025 na Circulation analisou a albuminúria nas doenças do coração, dos rins e do metabolismo. Ela descreveu a relação como um marcador comum que pode identificar e acompanhar doenças nas três áreas, mas apontou as perguntas em aberto: com que amplitude rastrear, com que frequência e se vale tratar valores baixos entre 10 e 30 mg/g. O que isso significa para você: os limites do seu laudo refletem o consenso atual e podem ser ajustados à medida que essas pesquisas avançam.

Uma análise de 2023 na Circulation estimou o que a combinação de classes modernas de remédios de proteção renal poderia trazer para pessoas com diabetes tipo 2 e relação igual ou acima de 30 mg/g. Em comparação com o tratamento convencional, a combinação projetou vários anos a mais sem eventos cardiovasculares graves e sem progressão da doença renal para quem começa aos 50 anos. O que isso significa para você: uma relação alta identifica exatamente as pessoas que mais ganham com esses tratamentos, e esse é um grande motivo para o exame ser feito.

Um ensaio clínico randomizado de 2025 na Nature Medicine testou a semaglutida em 101 adultos com doença renal crônica e excesso de peso, mas sem diabetes. Em 24 semanas, a relação albumina/creatinina caiu cerca de metade em comparação com o placebo, com efeitos colaterais digestivos mais comuns no grupo tratado. O que isso significa para você: a relação é cada vez mais usada como régua para saber se um tratamento protege os rins, mas o estudo foi pequeno e curto, então aponta uma direção, sem encerrar a questão.

Glossário

TermoDefinição
AlbuminaA proteína mais abundante do sangue. Rins saudáveis deixam passar só traços dela para a urina.
CreatininaResíduo dos músculos, eliminado num ritmo bastante estável e usado aqui para corrigir a concentração da urina.
RAC (ou RACU)Relação albumina/creatinina urinária, o nome formal deste exame.
mg/gMiligramas de albumina por grama de creatinina, a unidade mais usada nos laudos brasileiros.
AlbuminúriaAlbumina na urina acima da pequena quantidade considerada normal.
TFGTaxa de filtração glomerular estimada, medida baseada no sangue de quanto sangue os rins filtram por minuto.
GloméruloA pequena unidade de filtração do rim, onde o sangue é separado dos resíduos.
ProteinúriaProteína de qualquer tipo na urina. A albuminúria é a forma clinicamente mais importante.
Albuminúria persistenteRelação alta confirmada em amostras repetidas ao longo de três a seis meses, e não num único exame.

Perguntas frequentes

Qual o valor normal de albumina urinária na RAC?

Abaixo de 30 mg/g é considerado normal ou levemente aumentado. Entre 30 e 299 mg/g é moderadamente aumentado, e 300 mg/g ou mais é gravemente aumentado. Esses limites são usados de forma consistente pelas principais organizações de nefrologia, mas as unidades do seu laudo importam, já que alguns laboratórios informam miligramas por milimol.

O exame RAC é o mesmo que microalbuminúria?

Na prática, sim: a RAC é a forma atual de medir a microalbuminúria numa amostra isolada. O termo microalbuminúria descreve a faixa de 30 a 300 mg/g, e muitos laboratórios ainda dão esse nome ao exame. O que muda é só o rótulo; o método e os pontos de corte são os mesmos.

Preciso fazer a coleta de urina de 24 horas no lugar?

Em geral, não. A relação foi criada justamente para que uma amostra isolada pudesse substituir a coleta do dia inteiro, e na maioria das situações ela funciona igualmente bem, com muito menos trabalho. A coleta de 24 horas ainda é usada de vez em quando, por exemplo quando a relação e o quadro clínico não combinam.

O exercício pode mesmo mudar o meu resultado?

Sim. O exercício intenso aumenta a eliminação de albumina por um tempo depois, e por isso se recomenda evitar atividade pesada nas 24 horas antes do exame. Esse é um dos motivos mais comuns para uma pessoa saudável ter um primeiro resultado inesperadamente alto que volta ao normal na repetição.

O que é bom para baixar a microalbuminúria?

O que mais baixa a microalbuminúria é controlar a pressão e a glicemia e usar, quando o médico indicar, remédios com efeito protetor sobre os rins. Muitas vezes o valor cai, e a queda costuma acompanhar uma piora mais lenta dos rins. Se a lesão se reverte por completo depende da causa e de quão cedo ela foi encontrada, e esse é o argumento para o rastreamento regular.

Por que fazer o exame se a minha creatinina no sangue está normal?

Porque os dois detectam coisas diferentes em momentos diferentes. A perda de albumina muitas vezes aparece anos antes de a filtração cair de forma mensurável, então um exame de sangue normal não descarta lesão inicial nos rins. Fazer os dois é a prática padrão justamente por isso.

Com que frequência devo fazer o exame?

Pessoas com diabetes costumam fazer o exame uma vez por ano. A frequência para quem tem pressão alta, doença do coração ou casos de doença renal na família é definida caso a caso, e quem já tem uma relação alta confirmada costuma ser acompanhado com mais frequência. Pergunte ao seu médico qual intervalo combina com o seu risco.

Fontes

  • National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases — Albuminuria: Albumin in the Urine — NIDDK Health Information, 2025 — www.niddk.nih.gov (em inglês)
  • Cleveland Clinic — What Is Urine Albumin-Creatinine Ratio? — Cleveland Clinic Health Library, 2025 — my.clevelandclinic.org (em inglês)
  • MedlinePlus, National Library of Medicine — Microalbumin Creatinine Ratio — MedlinePlus Medical Test, reviewed 2025 — medlineplus.gov (em inglês)
  • Grams ME, Coresh J, Matsushita K, Ballew SH, Sang Y, Surapaneni A, Levey AS, Gansevoort RT — Estimated Glomerular Filtration Rate, Albuminuria, and Adverse Outcomes: An Individual-Participant Data Meta-Analysis — JAMA, 2023 — doi.org/10.1001/jama.2023.17002 (em inglês)
  • Claudel SE, Verma A — Albuminuria in Cardiovascular, Kidney, and Metabolic Disorders: A State-of-the-Art Review — Circulation, 2025 — doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071079 (em inglês)
  • Neuen BL, Heerspink HJL, Vart P, Claggett BL, Fletcher RA, Arnott C, Perkovic V, Solomon SD, Vaduganathan M — Estimated Lifetime Cardiovascular, Kidney, and Mortality Benefits of Combination Treatment With SGLT2 Inhibitors, GLP-1 Receptor Agonists, and Nonsteroidal MRA — Circulation, 2023 — doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.123.067584 (em inglês)
  • Apperloo EM, Gorriz JL, Soler MJ, Cruzado JM, Cherney DZI, Jongs N, Heerspink HJL — Semaglutide in patients with overweight or obesity and chronic kidney disease without diabetes: a randomized double-blind placebo-controlled clinical trial — Nature Medicine, 2025 — doi.org/10.1038/s41591-024-03327 — doi.org/10.1038/s41591-024-03327-6 (em inglês)
  • Sociedade Brasileira de Diabetes — Doença renal do diabetes — Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2026 — DOI 10.29327/5881296.2026-3 — diretriz.diabetes.org.br (em português)
  • Ministério da Saúde — Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao paciente com Doença Renal Crônica (DRC) no Sistema Único de Saúde — Ministério da Saúde, 2014 — docs.bvsalud.org (em português)

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Uma relação albumina/creatinina quer dizer uma coisa ao lado de uma filtração normal e outra bem diferente ao lado de uma filtração em queda. A BloodSense lê a relação junto com a TFG, a creatinina do sangue, a glicemia e os marcadores ligados à pressão, e explica em linguagem simples o que a combinação sugere e quais perguntas levar ao seu médico. O relatório de IA ajuda você a entender seus resultados; ele não diagnostica doença renal e não substitui o cuidado médico.

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