Epilepsia: o que é, sintomas, tipos de crise, causas e tratamento

A epilepsia vai muito além das convulsões que a maioria das pessoas imagina. Algumas crises parecem só alguns segundos de olhar parado, um cheiro estranho, uma onda de medo ou um braço que dá trancos enquanto a pessoa continua acordada. Outras envolvem o corpo inteiro. A epilepsia é um diagnóstico clínico: o médico o faz ouvindo o que aconteceu, examinando você e usando o eletroencefalograma (EEG) e a ressonância magnética como apoio, e não como veredito. Neste artigo você vai entender como os médicos separam uma crise isolada da epilepsia, como as crises focais e generalizadas se diferenciam, o que o EEG e a ressonância conseguem ou não mostrar, exatamente o que fazer e o que nunca fazer durante uma crise, e o papel honesto dos exames de sangue antes e durante o tratamento.
O que é epilepsia, e o que ela não é
Uma crise epiléptica é uma descarga súbita e passageira de atividade elétrica desorganizada no cérebro. A Liga Brasileira de Epilepsia a descreve como uma alteração temporária e reversível do funcionamento do cérebro, não causada por febre, drogas ou distúrbios metabólicos, em que, por alguns segundos ou minutos, uma parte do cérebro emite sinais incorretos. A epilepsia é a tendência contínua a ter essas descargas sem um gatilho evidente. A crise é um evento; a epilepsia é uma condição (na classificação de doenças, CID-10 G40).
Uma crise não é epilepsia
A Mayo Clinic define epilepsia como pelo menos duas crises não provocadas, com mais de 24 horas de intervalo. O médico também pode diagnosticar epilepsia depois de uma única crise não provocada quando o risco de outra é claramente alto, por exemplo quando a ressonância mostra uma área antiga de lesão no cérebro ou o EEG mostra um padrão fortemente ligado à recorrência. Mas uma primeira crise, sozinha, não torna ninguém epiléptico, e muitas pessoas que têm uma nunca têm outra.
Crises provocadas e não provocadas
Uma crise provocada tem uma causa identificável agindo sobre um cérebro saudável: açúcar no sangue muito baixo, sódio perigosamente baixo, abstinência de álcool, febre alta numa criança pequena, traumatismo craniano ou certas drogas. Corrigida a causa, as crises geralmente param. Uma crise não provocada não tem essa explicação. Essa é a bifurcação mais importante diante de uma primeira crise, e é aí que os exames de laboratório mostram seu valor.
Sintomas de epilepsia: como uma crise pode realmente parecer
O CDC, dos Estados Unidos, lembra que as crises muitas vezes são bem menos dramáticas do que nos filmes. A pessoa pode parecer confusa, ficar com o olhar perdido, andar sem rumo, mexer na roupa ou simplesmente parar de responder. A aparência da crise depende da parte do cérebro envolvida e de quanto a atividade elétrica se espalha.
Crises focais
As crises focais (antes chamadas de parciais) começam numa área de um lado do cérebro. Se a consciência é preservada, a pessoa sabe o que está acontecendo, mas não consegue controlar: um tremor numa mão, uma sensação que sobe do estômago, um gosto metálico ou uma emoção súbita sem motivo. Se a consciência é comprometida, a pessoa parece acordada, mas não está realmente ali. Ela pode mastigar, mexer nos botões ou andar sem rumo, e depois geralmente não se lembra de nada.
Crises generalizadas
As crises generalizadas envolvem redes dos dois lados do cérebro desde o início, e a consciência se perde quase imediatamente. As crises de ausência são pausas breves, com olhar vazio, comuns em crianças e fáceis de confundir com “estar no mundo da lua” — a Liga Brasileira de Epilepsia descreve a pessoa como “desligada” por alguns instantes. As crises mioclônicas são trancos rápidos, como choques, muitas vezes de manhã. As crises tônico-clônicas são as que a maioria reconhece: o corpo enrijece, vêm abalos rítmicos, a respiração fica ruidosa, e depois a pessoa fica sonolenta e confusa.
Sinais de aviso e o período de recuperação
Algumas pessoas têm um aviso, às vezes chamado de aura, que na verdade já é uma pequena crise focal: um cheiro estranho, formigamento ou uma sensação de que algo ruim vai acontecer, durando segundos. Depois vem a fase pós-ictal, um período de recuperação de minutos a horas, com confusão, dor de cabeça, exaustão ou fraqueza temporária de um lado. Quem está por perto muitas vezes acha que essa recuperação lenta é um segundo problema, quando é só o cérebro se reorganizando.
| Característica | Crise focal | Crise generalizada |
|---|---|---|
| Onde começa | Uma região de um lado do cérebro | Redes dos dois lados ao mesmo tempo |
| Consciência | Pode estar totalmente preservada ou comprometida | Perdida desde o início |
| Aparência típica | Abalos num membro, olhar parado com mastigação ou gestos automáticos, cheiro ou gosto estranho | Pausas breves com olhar vazio, trancos súbitos, ou enrijecimento seguido de abalos rítmicos |
| Lembrança do episódio | Às vezes intacta, às vezes ausente | Quase sempre ausente |
| Duração habitual | Segundos a cerca de dois minutos | Segundos na ausência, um a três minutos na tônico-clônica |
O que causa a epilepsia
Causas identificáveis
A epilepsia pode surgir depois de qualquer coisa que deixe uma cicatriz ou uma alteração estrutural no cérebro: AVC, traumatismo craniano grave, infecção do cérebro como meningite ou encefalite, tumor, malformação presente desde o nascimento ou falta de oxigênio no parto. Em idosos, o AVC é a principal causa identificável. A Liga Brasileira de Epilepsia cita também os abusos de álcool e drogas. Fatores genéticos importam, e um número crescente de epilepsias da infância é ligado a uma alteração específica num gene, e não a uma lesão.
Quando nenhuma causa é encontrada
Em cerca de metade dos casos, nenhuma causa é identificada, mesmo com uma boa ressonância. Isso não quer dizer que o diagnóstico está errado ou que o tratamento não vai funcionar, e muitas dessas epilepsias respondem bem ao remédio. A ausência de uma lesão visível reflete os limites dos exames de imagem atuais, e não a ausência de uma doença real.
Como a epilepsia é diagnosticada
O relato do que aconteceu vem primeiro
O diagnóstico se apoia na história. O que a pessoa estava fazendo antes, o que alguém viu, quanto tempo durou, como ela se recuperou? Um vídeo feito no celular por um familiar costuma ser mais útil do que qualquer exame de imagem. Como destaca a Liga Brasileira de Epilepsia, quem presencia as crises é uma testemunha valiosa. Os neurologistas também procuram imitadores: desmaio, enxaqueca com aura, distúrbios do sono, crises de pânico e crises funcionais, que se parecem com crises epilépticas, mas surgem por outro mecanismo.
O que o EEG e a ressonância acrescentam — e qual exame confirma a epilepsia
Nenhum exame isolado confirma a epilepsia: a confirmação é clínica, apoiada principalmente no EEG e na ressonância. O eletroencefalograma registra os ritmos elétricos do cérebro com sensores no couro cabeludo. Ele pode mostrar padrões que apontam para um tipo específico de epilepsia e orientar a escolha do remédio. A ressonância magnética procura causas estruturais, como cicatrizes, malformações ou tumores. O National Institute of Neurological Disorders and Stroke, dos Estados Unidos, trata os dois como ferramentas de apoio junto com uma história clínica detalhada, que continua sendo um dos melhores métodos disponíveis.
Um EEG normal não descarta epilepsia
Esse ponto gera mais confusão do que qualquer outro. Um EEG de rotina registra de 20 a 40 minutos de atividade cerebral. Se nenhuma crise e nenhuma descarga típica acontece nessa janela, o traçado parece normal mesmo em quem tem epilepsia de verdade. Um EEG normal reduz um pouco a probabilidade; ele nunca cancela um diagnóstico construído sobre uma história convincente. A Liga Brasileira de Epilepsia lembra exatamente isso: exames normais não excluem a possibilidade de a pessoa ter epilepsia. O mesmo vale para a imagem: muitas pessoas com epilepsia bem documentada têm ressonância completamente normal. Se a suspeita continua alta, os próximos passos são um EEG com privação de sono, um registro mais longo em casa (EEG prolongado ou Holter de EEG) ou internação numa unidade de videoeletroencefalografia.
O que os exames de sangue podem e não podem dizer sobre a epilepsia
Nenhum exame de sangue diagnostica epilepsia. Não existe um marcador que fique positivo quando alguém tem a doença. O que o laboratório faz, e muito bem, é responder a duas perguntas diferentes: essa crise foi provocada por algo corrigível, e o tratamento está sendo tolerado com segurança?
Descartar uma crise provocada
Depois de uma primeira crise, a equipe do pronto-socorro procura gatilhos metabólicos e tóxicos. Quase sempre se verifica o sódio no sangue, porque uma queda rápida é uma causa clássica e totalmente reversível. Também se pede a dosagem de cálcio total e se avalia o resultado do magnésio no sangue, já que os dois minerais estabilizam as membranas dos nervos. Os médicos medem a glicemia, porque o açúcar baixo é uma das causas tratáveis mais rápidas. Para avaliar os rins, leem o valor da ureia no sangue e revisam o resultado da creatinina, porque as substâncias que se acumulam na insuficiência renal podem irritar o cérebro. O fígado é avaliado pedindo a dosagem de TGP (ALT). Quando a história sugere, acrescentam a dosagem de álcool no sangue e pedem um exame toxicológico de urina, já que tanto a intoxicação quanto a abstinência podem provocar crises.
Exames de sangue no acompanhamento
Depois que o tratamento começa, o acompanhamento de laboratório muda de objetivo. Alguns remédios anticrise têm níveis no sangue que podem ser medidos e ajudam a explicar uma crise inesperada ou um efeito colateral, mas o nível é lido junto com o modo como a pessoa realmente se sente, nunca sozinho. Vários remédios exigem controles periódicos de segurança, que geralmente incluem um hemograma completo e enzimas do fígado. Os remédios indutores de enzimas também aceleram a quebra da vitamina D ao longo dos anos, e por isso muitos pacientes leem um guia prático sobre a dosagem de vitamina D. Quem pode engravidar costuma ser orientada a ajustar o ácido fólico antes da concepção, o que torna a dosagem de ácido fólico no sangue uma parte razoável do planejamento.
| Exame | O que procura | Quando costuma ser usado |
|---|---|---|
| Sódio, cálcio, magnésio | Alterações dos eletrólitos que podem provocar crise num cérebro saudável | Depois de uma primeira crise ou de uma crise inesperada |
| Glicemia | Açúcar no sangue baixo ou muito alto | Imediatamente, na ponta do dedo e no laboratório |
| Função dos rins e do fígado | Falência de órgãos que altera a química do cérebro | Investigação da primeira crise e controle de segurança dos remédios |
| Dosagem de álcool e exame toxicológico | Intoxicação ou abstinência como gatilho | Quando a história levanta essa possibilidade |
| Hemograma completo e enzimas do fígado | Efeitos colaterais de alguns remédios anticrise | Periodicamente, para os remédios que exigem |
| Nível do remédio no sangue | Se a dose está numa faixa útil | Crises inesperadas, efeitos colaterais, gravidez, doses esquecidas |
| Vitamina D e ácido fólico | Saúde dos ossos em tratamento prolongado e planejamento da gravidez | Durante o acompanhamento de longo prazo |
Primeiros socorros na crise: o que fazer e o que nunca fazer
A maioria das crises para sozinha em um ou dois minutos. O objetivo dos primeiros socorros é apenas manter a pessoa segura até lá.
O que fazer
- Mantenha a calma, fique ao lado da pessoa e marque a hora em que a crise começou.
- Afaste objetos duros ou cortantes e coloque algo macio embaixo da cabeça.
- Afrouxe o que estiver apertado no pescoço.
- Quando os abalos pararem, vire a pessoa de lado com cuidado, com a boca voltada para o chão, para a saliva escorrer.
- Procure uma pulseira ou cartão de identificação médica, fique até ela estar totalmente alerta e explique com calma o que aconteceu.
O que nunca fazer
- Nunca coloque nada na boca. A ideia de que a pessoa pode “engolir a língua” é falsa, e forçar um objeto entre os dentes quebra dentes e machuca as mãos de quem ajuda.
- Nunca segure a pessoa nem tente imobilizar braços e pernas. Segurar não encurta a crise e causa lesões.
- Não dê água, comida ou remédio até a pessoa estar totalmente acordada e engolindo normalmente.
- Não comece respiração boca a boca, a menos que a pessoa não esteja respirando depois que a crise claramente terminou.
Quando ligar para o SAMU (192)
As orientações do CDC sobre primeiros socorros em crises listam sinais claros de emergência. Ligue para o SAMU (192) se uma crise convulsiva durar mais de cinco minutos — situação chamada estado de mal epiléptico — ou se as crises vierem uma atrás da outra sem recuperação completa entre elas. Ligue também se for a primeira crise da vida da pessoa, se ela se machucou, se a crise aconteceu na água, se a respiração estiver difícil ou não voltar, se ela não voltar ao normal, ou se for gestante ou tiver diabetes. Na dúvida, ligue.
Tratamento da epilepsia e vida diária
No SUS, o tratamento segue o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Epilepsia, do Ministério da Saúde, que define os medicamentos oferecidos na rede pública.
Remédio em primeiro lugar
Os remédios anticrise (anticonvulsivantes) são o tratamento de primeira linha, e cerca de duas em cada três pessoas ficam sem crises com eles. A escolha depende do tipo de crise, da idade, de outras doenças e dos planos de gravidez. O tratamento geralmente começa com um remédio em dose baixa, aumentada aos poucos até as crises pararem ou surgirem efeitos colaterais. O mais importante é a regularidade: esquecer doses é um dos motivos mais comuns para uma epilepsia controlada voltar a dar crises de repente.
Quando o remédio não basta
Quando dois remédios bem escolhidos falham, a epilepsia é chamada de farmacorresistente (ou refratária), e o próximo passo é o encaminhamento a um centro especializado, e não um ciclo sem fim de receitas novas. As opções ali incluem cirurgia para retirar ou desconectar a área que gera as crises, ablação a laser, estimuladores de nervo implantados e terapias alimentares como a dieta cetogênica.
Sono, direção, álcool e gravidez
A privação de sono é um dos gatilhos de crise mais constantes, então ter horários de sono regulares é tratamento de verdade, e não só conselho. O álcool interage com vários remédios e atrapalha o sono. No Brasil, a liberação para dirigir passa pela avaliação médica do exame da CNH e geralmente exige um período sem crises documentado pelo neurologista; converse com ele antes. A gravidez pede planejamento, e não evitar: a escolha do remédio e o ácido fólico devem ser discutidos antes da concepção, e não depois de um teste positivo.
Avanços científicos recentes
As pesquisas dos últimos três anos deixaram vários pontos práticos mais claros.
Ressonância normal é comum, e não fecha a porta para a cirurgia
Uma revisão de 2025 que reuniu muitos estudos de epilepsia com ressonância negativa — quando o exame parece totalmente normal — confirmou que esses casos são frequentes e que uma parte importante dos pacientes bem selecionados ainda fica sem crises depois da cirurgia. O que isso significa para você: uma ressonância normal com crises que continuam apesar do remédio não é o fim da linha. Os centros especializados podem usar técnicas extras para achar um alvo que o exame padrão não viu. As evidências juntam estudos anteriores, e não um ensaio novo, então os resultados variam entre centros.
Nem toda crise é epiléptica, e a alternativa tem tratamento real
Em 2025, a Academia Americana de Neurologia publicou sua primeira diretriz sobre crises funcionais, episódios que se parecem com crises epilépticas, mas surgem de uma alteração na forma como o cérebro processa os sinais, e não de descargas elétricas anormais. A diretriz apoia fazer o diagnóstico de forma aberta e oferecer terapia psicológica. O que isso significa para você: ouvir que suas crises são funcionais não é ser descartado. Isso aponta para um tratamento que funciona para essa condição e evita remédios que não ajudariam.
Crises prolongadas são uma emergência em que o tempo conta
Uma revisão sistemática de 2024 que comparou diretrizes internacionais sobre o estado de mal epiléptico encontrou amplo acordo num ponto: o tratamento deve começar rápido, com um benzodiazepínico dado logo e em dose adequada, seguido de um segundo remédio se a crise não parar. O que isso significa para você: a regra dos cinco minutos para ligar 192 não é exagero. O tratamento precoce é a parte do cuidado mais ligada a um resultado melhor, e hesitar custa mais do que uma chamada de ambulância desnecessária.
O planejamento da gravidez ficou muito mais preciso
Uma diretriz de 2024 de sociedades americanas de neurologia, epilepsia e medicina materno-fetal revisou os remédios anticrise usados na gravidez. Ela concluiu que o médico deve ajustar o remédio e a dose antes da concepção sempre que possível, que alguns remédios mais antigos têm riscos claramente maiores para o bebê em formação e que a suplementação de ácido fólico é recomendável para quem pode engravidar. Uma revisão sistemática de 2025 das diretrizes existentes sobre gravidez chegou a conclusões parecidas. O que isso significa para você: se a gravidez é uma possibilidade, fale cedo, porque as decisões úteis são tomadas antes da concepção, e não no primeiro trimestre.
Remédio por muito tempo e a força dos ossos
Uma revisão de 2025 sobre remédios anticrise e saúde óssea confirmou que o uso prolongado, principalmente dos remédios indutores de enzimas, se associa a menor densidade óssea e maior risco de fratura, e apoia a atenção à vitamina D e ao cálcio durante o tratamento longo. O que isso significa para você: depois de anos com o mesmo remédio, é razoável perguntar se os ossos e a vitamina D devem ser avaliados. É cuidado preventivo, e não motivo para parar um remédio que controla as suas crises.
Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Aura | Uma sensação breve de aviso antes de uma crise maior. Já é uma pequena crise focal, e por isso pode ser descrita com tanta precisão. |
| EEG (eletroencefalograma) | Registro indolor dos ritmos elétricos do cérebro feito com sensores colocados no couro cabeludo. |
| Crise focal | Crise que começa numa área de um lado do cérebro. A consciência pode estar preservada ou comprometida. |
| Crise generalizada | Crise que envolve redes dos dois lados do cérebro desde o início, com perda imediata da consciência. |
| Fase pós-ictal | O período de recuperação depois de uma crise, com confusão, cansaço, dor de cabeça ou dor muscular, que dura de minutos a horas. |
| Crise provocada | Crise causada por um gatilho temporário e identificável, como açúcar muito baixo, sódio baixo ou abstinência de álcool. |
| Estado de mal epiléptico | Crise que dura mais de cinco minutos, ou crises repetidas sem recuperação entre elas. Emergência médica. |
| Epilepsia farmacorresistente | Epilepsia que continua apesar de dois remédios bem escolhidos e em dose adequada. |
| Crise funcional | Episódio parecido com uma crise epiléptica que surge de uma alteração no processamento dos sinais do cérebro, e não de descargas elétricas anormais. |
| Remédio indutor de enzimas | Remédio que acelera as enzimas do fígado que quebram outras substâncias, incluindo a vitamina D e alguns outros medicamentos. |
Perguntas frequentes
O que é epilepsia?
Epilepsia é uma doença do cérebro caracterizada pela tendência a ter crises epilépticas repetidas, sem um gatilho imediato como febre, álcool ou açúcar baixo. As crises são descargas elétricas anormais e passageiras que podem causar desde segundos de “desligamento” até convulsões no corpo inteiro. Não é contagiosa, não é doença mental, e na maioria das pessoas é bem controlada com remédio.
Qual exame confirma a epilepsia?
Nenhum exame isolado confirma a epilepsia. O diagnóstico é clínico, baseado no relato detalhado das crises, de preferência com uma testemunha ou um vídeo, e apoiado pelo eletroencefalograma (EEG) e pela ressonância magnética do crânio. Um EEG normal não exclui a doença. Os exames de sangue servem para descartar causas provocadas, não para confirmar epilepsia.
O que piora a epilepsia?
Esquecer doses do remédio é, de longe, o principal fator. Depois vêm a privação de sono, o álcool (principalmente a abstinência na manhã seguinte), doenças com febre, estresse intenso, desidratação e alguns outros remédios, que podem baixar o limiar para crises. As luzes piscando afetam só uma minoria das pessoas com epilepsia, apesar da fama. Um diário simples, anotando sono, doses e circunstâncias, costuma ser o jeito mais rápido de descobrir o seu padrão pessoal.
A crise de ausência infantil tem cura?
Muitas vezes, sim. A epilepsia de ausência da infância costuma responder bem ao remédio, e muitas crianças deixam de ter crises ao chegar à adolescência, quando o neurologista pode planejar a retirada do tratamento. Nem todos os casos evoluem assim, e o acompanhamento com o neurologista infantil define o caminho para cada criança.
O que é epilepsia gelástica?
Crises gelásticas são crises em que a pessoa tem episódios de riso (ou, às vezes, choro) sem motivo, que ela não controla. São raras e muitas vezes estão ligadas a uma lesão benigna numa região profunda do cérebro chamada hipotálamo (o hamartoma hipotalâmico). Pedem avaliação num centro especializado em epilepsia.
Quem tem epilepsia pode tomar sertralina?
Muitas pessoas com epilepsia usam antidepressivos como a sertralina, porque depressão e ansiedade são comuns na epilepsia e precisam ser tratadas. A decisão, porém, é do médico, que considera a dose, as interações com os remédios anticrise e o controle das crises. Não comece nem pare nenhum remédio por conta própria.
Um exame de sangue mostra se eu tenho epilepsia?
Não. Não existe marcador no sangue que confirme ou descarte a epilepsia. Os exames de sangue têm outro objetivo: depois de uma primeira crise, procuram causas corrigíveis, como sódio, cálcio ou magnésio baixos, açúcar baixo, insuficiência dos rins ou do fígado, álcool ou drogas. Depois, durante o tratamento, conferem se o remédio está sendo tolerado com segurança e, para alguns remédios, se a dose está numa faixa útil. O diagnóstico em si é feito clinicamente, a partir da descrição dos episódios, do exame neurológico e do apoio do EEG e da imagem.
Meu EEG deu normal. Isso quer dizer que não tenho epilepsia?
Não necessariamente. Um EEG de rotina registra só uma janela curta da atividade cerebral, geralmente de 20 a 40 minutos. Se nada anormal acontece nessa janela, o traçado parece normal mesmo em quem claramente tem epilepsia. Um resultado normal reduz um pouco a probabilidade, mas nunca derruba uma história convincente. Se o seu neurologista continuar suspeitando, ele pode pedir um EEG com privação de sono, um registro mais longo feito em casa ou uma internação numa unidade de monitorização onde os episódios possam ser registrados.
Epilepsia tem cura?
Cura não é a palavra mais usada, mas o prognóstico costuma ser bom. Cerca de duas em cada três pessoas ficam sem crises com remédio. Algumas crianças superam completamente certas síndromes epilépticas, e alguns adultos com um único foco identificável ficam sem crises depois da cirurgia. Outros convivem com uma doença bem controlada, e não desaparecida. Às vezes é possível parar o remédio depois de um longo período sem crises, mas só como decisão planejada com o neurologista, nunca por conta própria.
O que levar à primeira consulta com o neurologista?
Leve um relato escrito do que aconteceu, incluindo a descrição de quem presenciou, e um vídeo se houver. Leve a lista completa de remédios e suplementos, exames de laboratório recentes, informações sobre traumatismos na cabeça, infecções do cérebro ou complicações no parto, e o histórico de crises na família. Anote também como você se sentiu nas horas antes e depois. Esses detalhes costumam pesar mais no diagnóstico do que qualquer exame isolado.
Quem tem epilepsia pode dirigir, trabalhar e fazer exercício normalmente?
Na maioria dos casos, sim, com ajustes sensatos. No Brasil, a liberação da CNH depende da avaliação médica e geralmente exige um período sem crises documentado. A maioria dos trabalhos é compatível com a epilepsia, embora funções com altura, água aberta ou máquinas perigosas precisem de avaliação individual. O exercício é estimulado e raramente provoca crises; nadar deve ser feito com um acompanhante que saiba o que fazer, e escalada ou esportes aquáticos sozinho merecem uma conversa antes com o neurologista.
Fontes
- Liga Brasileira de Epilepsia — O que é epilepsia — LBE — epilepsia.org.br (em português)
- Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia — gov.br — www.gov.br (em português)
- Ministério da Saúde — SAMU 192 — gov.br, 2025 — www.gov.br (em português)
- Centers for Disease Control and Prevention — Epilepsy Basics, 2024 — www.cdc.gov (em inglês)
- National Institute of Neurological Disorders and Stroke, National Institutes of Health — Epilepsy and Seizures, 2024 — www.ninds.nih.gov (em inglês)
- Mayo Clinic — Epilepsy: symptoms and causes, 2024 — www.mayoclinic.org (em inglês)
- Gill RS, Deleo F, Bernhardt B, et al. — MRI-negative epilepsy: a systematic review and meta-analysis — Epilepsia, 2025 — doi.org/10.1111/epi.18616 (em inglês)
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- Pack AM, Oskoui M, et al. — Teratogenesis, perinatal, and neurodevelopmental outcomes after in utero exposure to antiseizure medication: practice guideline from the AAN, AES and SMFM — Neurology, 2024 — doi.org/10.1212/WNL.0000000000209279 (em inglês)
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