Os sintomas do câncer de pele costumam começar com algo pequeno e fácil de ignorar: uma ferida que não cicatriza, uma pinta que começou a mudar, uma mancha rosada e áspera que sempre volta. O câncer de pele é o tipo de câncer mais frequente no Brasil: o INCA estima 263.280 casos novos de câncer de pele não melanoma e 9.360 de melanoma por ano no triênio 2026–2028. A pele é o único órgão que você mesmo pode examinar, e é por isso que tantos desses cânceres são descobertos cedo e tratados de forma simples — e por isso vale a pena aprender a olhar a própria pele com calma e do jeito certo.

Neste artigo, você vai entender como é o início do câncer de pele, como os três principais tipos se comportam de formas diferentes, o que significam as letras ABCDE e o sinal do “patinho feio”, por que alguns melanomas se escondem nas palmas, nas plantas dos pés e embaixo das unhas, como os dermatologistas confirmam o diagnóstico e como é o tratamento moderno. Você também vai ter uma resposta honesta sobre quais exames de sangue importam aqui, e quais não importam.

O que é o câncer de pele e por que o tipo importa

O câncer de pele começa quando células da epiderme, a camada externa da pele, acumulam danos no DNA suficientes para se multiplicar sem controle. Segundo o Ministério da Saúde, ele é causado principalmente pela exposição excessiva ao sol, é mais comum em pessoas com mais de 40 anos e é considerado raro em crianças e pessoas negras. Os Centers for Disease Control and Prevention, dos Estados Unidos, acrescentam que a exposição excessiva aos raios ultravioleta (UV) do sol ou das câmaras de bronzeamento causa a maioria dos cânceres de pele. Um único nome esconde uma verdade: os principais tipos vêm de células diferentes e têm riscos muito diferentes.

Quais são os 3 tipos de câncer de pele?

Os três tipos principais são o carcinoma basocelular, o carcinoma espinocelular (também chamado de epidermoide) e o melanoma. Os dois primeiros formam o chamado câncer de pele não melanoma, que segundo o INCA corresponde a cerca de 30% de todos os tumores malignos registrados no país e tem altos percentuais de cura quando tratado cedo. O melanoma representa só cerca de 4% dos cânceres de pele, mas é o mais grave. Existe ainda um quarto tipo, raro, o carcinoma de células de Merkel.

Carcinoma basocelular

É o câncer mais comum em seres humanos e, segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, o mais prevalente entre todos os tipos de câncer da pele. Prefere o nariz, as orelhas e os ombros, muitas vezes como uma elevação perolada com pequenos vasos visíveis, uma área plana parecida com cicatriz ou uma ferida que sangra, forma casca, fecha e reabre no mesmo lugar. Cresce devagar e quase nunca se espalha para outros órgãos, mas, se não for tratado, avança localmente e pode destruir cartilagem, osso ou uma pálpebra. Esse dano local é o motivo para tratá-lo logo.

Carcinoma espinocelular

Surge numa camada mais alta da epiderme e tem aspecto descamativo, com crosta, firme e avermelhado, às vezes parecido com uma verruga ou uma ferida aberta de bordas elevadas, muitas vezes dolorida ao toque. Aparece depois de anos de dano solar e pode ser precedido por ceratoses actínicas, aquelas manchas ásperas como lixa, comuns no couro cabeludo, nas orelhas e no dorso das mãos. Tem alta chance de cura quando tratado cedo, embora se espalhe com mais facilidade do que o basocelular, especialmente no lábio e na orelha.

Melanoma

O melanoma começa nos melanócitos, as células que produzem pigmento. Ele responde por uma pequena parte dos cânceres de pele, mas pela maioria das mortes por eles, porque pode se espalhar pelos vasos linfáticos e pelo sangue antes de parecer dramático na superfície. O INCA lembra que ele é mais frequente em adultos brancos e que, em pessoas de pele negra, é mais comum nas áreas claras, como as palmas das mãos e as plantas dos pés. Uma revisão de 2025 publicada na JAMA descreve o melanoma como o quinto câncer mais comum nos Estados Unidos, com a maioria dos casos ainda restrita ao local de origem no diagnóstico. A forma mais comum cresce para os lados, dentro da pele, antes de invadir em profundidade, e essa fase é a janela em que a retirada cura. O melanoma nodular pula boa parte dessa fase e aparece como um caroço elevado e firme.

Carcinoma de células de Merkel

Raro, mas agressivo: um caroço indolor, firme, de crescimento rápido, brilhante, de vermelho a arroxeado, geralmente na cabeça, no pescoço ou nos braços de pessoas mais velhas. Como não dói, muitas vezes é ignorado por semanas. A velocidade de crescimento é a pista.

TipoAspecto típicoVelocidadeTendência a se espalhar
Carcinoma basocelularElevação perolada, pequenos vasos, ferida que reabreLenta, meses a anosMuito rara; destrói o tecido local
Carcinoma espinocelularMancha vermelha descamativa, ferida com crosta, caroço doloridoSemanas a mesesIncomum, maior no lábio e na orelha
MelanomaMancha pigmentada nova ou que muda, cor irregularVariável; o nodular é rápidoReal, e é o motivo da retirada precoce
Carcinoma de células de MerkelNódulo indolor, firme, brilhante, de vermelho a roxoRápida, semanasAlta; exige avaliação urgente

Sintomas de câncer de pele que você pode procurar na própria pele

O autoexame é útil, mas tem um limite claro. Ele pode dizer que uma lesão merece o olhar de um profissional; não pode dizer que uma lesão é inofensiva. Nada do que você vê ou fotografa em casa confirma ou exclui o câncer; só um patologista, olhando o tecido ao microscópio, pode fazer isso. O objetivo de olhar a pele é montar uma lista curta de lesões para mostrar ao médico, e não chegar a um veredito.

Como é o início do câncer de pele?

O início do câncer de pele geralmente é uma lesão pequena que não se comporta como as outras: uma pinta nova ou que muda, uma ferida que não cicatriza em quatro semanas, uma elevação brilhante que sangra com facilidade ou uma mancha áspera que volta sempre. A Sociedade Brasileira de Dermatologia descreve, por exemplo, a lesão elevada e brilhante, translúcida, avermelhada, castanha, rósea ou multicolorida, com crosta central, que sangra com facilidade, típica do basocelular. Dor quase nunca é o primeiro sinal.

A regra do ABCDE

As letras ABCDE, usadas pelo MedlinePlus, pelo INCA e pelas sociedades de dermatologia do mundo todo, são um lembrete para lesões pigmentadas.

LetraO que observarO que preocupa
A — AssimetriaDivida a lesão ao meio mentalmenteAs duas metades não combinam
B — BordasO contornoBordas irregulares, recortadas, borradas ou que se espalham
C — CorOs tons dentro da mesma lesãoVários tons de marrom, preto, vermelho, branco ou cinza-azulado
D — DiâmetroO tamanhoMaior que cerca de 6 mm, embora melanomas possam ser menores
E — EvoluçãoMudança ao longo de semanas ou mesesMudou de tamanho, forma ou cor, ou passou a coçar, sangrar ou formar crosta

Das cinco letras, o E é a que mais pesa. Uma lesão que está igual há vinte anos preocupa muito menos do que uma que mudou nos últimos três meses, seja qual for o tamanho.

O sinal do patinho feio

As pintas de uma pessoa costumam se parecer entre si, como irmãs. O sinal do patinho feio é a observação de que um melanoma muitas vezes se destaca dessa família: mais escuro, maior, mais rosado ou simplesmente diferente das outras. Ele funciona onde o ABCDE falha, porque compara a lesão com o seu próprio padrão, e não com uma regra abstrata. Na prática, olhe uma região de cada vez, com boa luz, e pergunte-se para qual pinta o seu olho sempre volta. Use um espelho ou peça ajuda a alguém para as costas, o couro cabeludo, atrás das orelhas e entre os dedos dos pés.

Quais são os 7 sintomas do câncer de pele?

Não existe uma lista oficial de “sete sintomas”, mas sete sinais resumem bem o que merece consulta: uma pinta que muda; uma pinta diferente das outras; uma ferida que não cicatriza em um mês; uma elevação rosada ou perolada que sangra com facilidade; uma mancha áspera que volta sempre; um nódulo firme que cresce em semanas; e uma faixa escura nova numa unha. Manchas que coçam e aparecem simétricas nos dois cotovelos ou nos dois joelhos refletem mais vezes uma doença inflamatória da pele de longa duração do que um câncer.

Os melanomas que passam despercebidos

As campanhas de saúde descrevem o melanoma como uma pinta escura e irregular em pele exposta ao sol. Isso é verdade para a maioria dos casos e perigosamente incompleto para a minoria, onde se concentram os diagnósticos tardios.

Melanoma amelanótico

Alguns melanomas produzem pouco ou nenhum pigmento. Um melanoma amelanótico pode ser rosado, vermelho ou da cor da pele, e é facilmente confundido com uma espinha teimosa, uma cicatriz, uma verruga ou uma picada de inseto. A revisão de 2025 da JAMA o inclui entre os subtipos reconhecidos e, como o ABCDE gira em torno da cor, esse tipo escapa totalmente da regra. A pista é a persistência: uma elevação rosada que continua crescendo, sangra fácil ou não desaparece em seis a oito semanas merece avaliação, seja qual for a cor.

Melanoma acral e subungueal

O melanoma acral aparece nas palmas, nas plantas dos pés e nos dedos; o subungueal aparece na unha. Nenhum dos dois está fortemente ligado ao sol, então evitar o sol não protege, e um autoexame que se limita à pele exposta nunca vai encontrá-los. Na unha, o sinal inicial é uma faixa marrom ou preta no sentido do comprimento, chamada melanoníquia longitudinal. A maioria dessas faixas é inofensiva, principalmente em crianças e em pessoas de pele naturalmente mais pigmentada. São características preocupantes: uma faixa única em um só dedo, mais larga que alguns milímetros, que está alargando ou tem bordas irregulares, pigmento que se espalha para a pele em volta da unha e unha rachando. Uma revisão de 2023 sobre o melanoma da unha observa que esses tumores muitas vezes são descobertos tarde, e que a dermatoscopia ajuda a orientar, mas só a biópsia confirma.

Por que a detecção importa ainda mais na pele negra

O melanoma é menos comum em pessoas de pele parda e preta, mas a sobrevida costuma ser pior, e o motivo principal é o estágio no diagnóstico, e não uma biologia mais agressiva. Vários fatores se somam: os locais acrais e subungueais são proporcionalmente mais frequentes, o pigmento pode disfarçar as mudanças iniciais de cor, as campanhas raramente mostram pele negra, e nem pacientes nem médicos esperam o diagnóstico. Num país com tantas pessoas de pele parda e preta como o Brasil, a resposta não é medo, e sim um hábito: olhe as palmas, as plantas dos pés, entre os dedos, as unhas e a boca, e trate uma lesão nova ou que muda nessas áreas como motivo para marcar consulta.

O que aumenta o risco de câncer de pele, e o que diminui

Radiação ultravioleta, queimaduras de sol e bronzeamento artificial

Dois padrões de exposição importam: a exposição intermitente e intensa, com queimaduras com bolhas, mais ligada ao melanoma, e a exposição acumulada ao longo da vida, que causa os carcinomas basocelular e espinocelular no rosto, nas orelhas e nas mãos. Queimaduras de sol na infância pesam especialmente. O bronzeamento artificial não é mais seguro: os aparelhos emitem radiação ultravioleta concentrada, e o INCA e o Ministério da Saúde citam a exposição a câmaras de bronzeamento entre os fatores de risco. No Brasil, a Anvisa proíbe o uso estético das câmaras de bronzeamento artificial desde 2009. Não existe “bronzeado de base” que proteja; o bronzeado é a prova de que o dano ao DNA já aconteceu. As lâmpadas UV usadas para secar esmalte em gel também chamaram atenção, mas uma revisão sistemática de 2024 achou a evidência fraca demais para medir qualquer risco.

O que piora o câncer de pele?

Depois que o câncer existe, o que mais o “piora” é o tempo sem tratamento: o basocelular avança localmente, e o melanoma ganha espessura e chance de se espalhar. Continuar se expondo ao sol sem proteção aumenta o risco de novas lesões, e a imunossupressão (por exemplo, depois de um transplante) faz os carcinomas espinocelulares crescerem e se multiplicarem mais. Cutucar, queimar ou tentar retirar a lesão em casa não piora o câncer em si, mas atrasa e dificulta o diagnóstico.

Fatores pessoais e familiares

O risco é maior com pele clara que queima fácil, cabelos ruivos ou loiros, olhos claros, muitas pintas ou pintas atípicas, câncer de pele anterior, parente de primeiro grau com melanoma ou exposição intensa ao sol no trabalho, como trabalhadores rurais, da construção civil e de praia. O Ministério da Saúde destaca também as pessoas albinas e com vitiligo como mais sensíveis ao sol. Pessoas que tomam remédios imunossupressores depois de um transplante têm risco muito maior de carcinoma espinocelular e precisam de acompanhamento regular com dermatologista.

Prevenção que funciona

  • Evite o sol nos horários de raios mais intensos, entre 10h e 16h, como recomenda o Ministério da Saúde.
  • Use chapéu de aba larga, óculos de sol com proteção UV e roupas de trama fechada ou com proteção UV, que protegem com mais segurança do que só o protetor.
  • Use diariamente filtro solar de amplo espectro (UVA e UVB) com FPS 30 no mínimo, como orienta a Sociedade Brasileira de Dermatologia, em quantidade generosa, e reaplique a cada duas horas ou menos ao ar livre.
  • Nunca use câmaras de bronzeamento artificial, e lembre que areia, água e neve refletem a radiação ultravioleta de volta para você.
  • Examine sua pele cerca de uma vez por mês e guarde fotos com data das lesões que você está acompanhando.

Evitar o sol de forma rigorosa reduz a produção de vitamina D na pele, um ponto para conversar com o médico. Quem fica confuso com um laudo cheio de valores desconhecidos pode consultar um guia simples sobre valores de referência e resultados destacados.

Como é feito o diagnóstico do câncer de pele

O exame da pele e a dermatoscopia

O médico examina toda a superfície da pele, geralmente com um dermatoscópio: uma lente de aumento de mão com luz polarizada que mostra redes de pigmento e padrões de vasos invisíveis a olho nu. Nas mãos de quem é treinado, ela aumenta a precisão e reduz retiradas desnecessárias. Algumas clínicas acrescentam o mapeamento corporal por fotografia para pessoas com muitas pintas atípicas, para que a própria mudança indique a biópsia. No SUS, o acesso ao dermatologista é feito por encaminhamento a partir da UBS.

A biópsia, e por que o tipo de biópsia importa

A biópsia retira tecido para análise ao microscópio, e é a única etapa que dá um diagnóstico. As opções incluem a biópsia por raspagem (shaving) para lesões superficiais, a biópsia por punch, que retira um pequeno cilindro de pele, e a biópsia excisional, que retira a lesão inteira. Quando há suspeita de melanoma, a excisão é preferida, porque medir a profundidade do tumor exige que ele venha inteiro na peça.

Espessura de Breslow e estadiamento

No melanoma, o número mais importante é a espessura de Breslow, a profundidade do tumor em milímetros medida a partir da superfície da pele. Tumores mais finos têm melhor prognóstico e precisam de margens menores. O laudo também informa a ulceração, a taxa de mitoses, as margens e o subtipo. Uma revisão de 2023 publicada na The Lancet resume a abordagem padrão: o melanoma primário é tratado com ampliação de margens, e a margem é definida pela espessura. Quando o melanoma é espesso o bastante, o cirurgião pode propor a biópsia do linfonodo sentinela, em que um marcador identifica o primeiro linfonodo que drena aquela área de pele para que ele seja analisado. Um linfonodo livre refina o estadiamento; um linfonodo acometido muda o plano de tratamento.

Rastreamento: quem se beneficia e quem não

O rastreamento de toda a população é diferente de examinar uma lesão que preocupa. O INCA afirma que não há evidência de que o rastreamento do melanoma traga mais benefícios do que riscos e, por isso, ele não é recomendado. Em 2023, a US Preventive Services Task Force, dos Estados Unidos, também concluiu que as evidências atuais são insuficientes para pesar benefícios e danos do exame visual de rotina da pele em adolescentes e adultos sem sinais nem sintomas. Isso é uma afirmação sobre falta de evidência, e não prova de que o rastreamento falha, e deixa de fora dois grupos: quem tem algum sintoma está sendo avaliado, e não rastreado, e os pacientes de alto risco seguem o calendário do próprio dermatologista.

Opções de tratamento do câncer de pele

Cirurgia e tratamentos locais

A maioria dos cânceres de pele é curada com cirurgia. A excisão padrão retira o tumor com uma margem de pele de aparência normal. A cirurgia micrográfica de Mohs retira o tecido em camadas finas, cada uma examinada ao microscópio até não sobrar célula de câncer na borda; ela poupa o máximo de tecido saudável e costuma ser escolhida no rosto, nas orelhas e nas mãos. Cremes de fluorouracil ou imiquimode, crioterapia e terapia fotodinâmica tratam as ceratoses actínicas e os carcinomas basocelulares superficiais. A radioterapia é uma opção quando a cirurgia não é adequada.

Melanoma avançado: imunoterapia e terapia-alvo

As perspectivas no melanoma avançado mudaram muito na última década. Os inibidores de checkpoint imunológico soltam um freio do sistema imune para que ele reconheça as células do tumor; eles são padrão no melanoma que se espalhou e, em casos selecionados, depois da cirurgia para reduzir a volta da doença. A terapia-alvo é usada quando o tumor tem mutação no gene BRAF, encontrada no teste do tecido do tumor. A imunoterapia transformou vários tumores sólidos, e quem faz comparações costuma ler o panorama do câncer de pulmão ou o guia do câncer de mama. Como esses remédios afrouxam o controle do sistema imune, eles também podem inflamar órgãos saudáveis: com mais frequência a tireoide, a pele, o intestino e o fígado, e com menos frequência a hipófise e as suprarrenais.

Onde os exames de sangue entram no câncer de pele

Aqui vai a explicação honesta, muitas vezes distorcida na internet. Nenhum exame de sangue rastreia o câncer de pele, e nenhum o diagnostica. Uma lesão suspeita é avaliada pelo exame clínico, pela dermatoscopia e pela biópsia, e um conjunto de exames de sangue normal não diz nada sobre a pinta no seu ombro.

Os exames de sangue têm dois papéis reais depois do diagnóstico. O primeiro é o estadiamento do melanoma avançado, em que as equipes às vezes dosam a desidrogenase lática (LDH) no sangue, uma enzima liberada quando células são danificadas em qualquer parte do corpo. Ela não é específica do melanoma e sobe com exercício, infecção e lesão muscular, mas, no estágio IV, tem peso no prognóstico e faz parte do estadiamento formal. Ela não tem papel nenhum na detecção do câncer de pele inicial.

O segundo papel é o acompanhamento durante o tratamento sistêmico. Antes e durante a imunoterapia, as equipes costumam repetir a dosagem de TSH, já que a tireoide é o órgão mais afetado. Elas acompanham a enzima do fígado TGP (ALT) para detectar hepatite imunológica, a glicemia de jejum, porque o diabetes novo é um efeito incomum mas reconhecido, e o cortisol da manhã, para avaliar o eixo da hipófise e das suprarrenais. A maioria dos protocolos também repete o hemograma completo a cada ciclo. Perceber essas mudanças cedo permite que a equipe aja antes de aparecerem sintomas.

Quando procurar um médico

Marque uma consulta, em vez de esperar, se qualquer um destes itens se aplicar a você.

  • Uma ferida, casca ou úlcera não cicatrizou em quatro a seis semanas.
  • Uma pinta está mudando de tamanho, forma, cor ou textura, ou começou a coçar, sangrar ou formar crosta.
  • Uma lesão se destaca claramente de todas as suas outras pintas.
  • Uma elevação rosada, vermelha ou da cor da pele continua crescendo ou sangra com um toque leve.
  • Apareceu uma faixa escura nova numa unha, principalmente única, em um só dedo, ou que está alargando.
  • Apareceu uma lesão nova ou que muda na palma da mão, na planta do pé, entre os dedos ou dentro da boca.
  • Um nódulo firme cresceu visivelmente em poucas semanas.
  • Você já teve câncer de pele ou toma remédios que reduzem a imunidade.

Leve fotos com data, se tiver, e descreva a linha do tempo em semanas. Um histórico curto e específico ajuda o dermatologista mais do que qualquer medição feita em casa.

Avanços científicos recentes

A inteligência artificial lê bem imagens de dermatoscopia, mas não faz diagnóstico

Uma metanálise de 2025, um estudo que reúne os resultados de muitos estudos anteriores, analisou sistemas de inteligência artificial que classificam imagens de dermatoscopia. Em dezenas de testes, eles separaram melanoma de não melanoma com alta precisão nos conjuntos de imagens recebidos. O que isso significa para você: a tecnologia é promissora como assistente para os médicos, mas um aplicativo de celular não pode liberar a sua pinta. A maioria dos sistemas foi testada em imagens selecionadas, e não em fotos reais do dia a dia, e o desempenho na vida real ainda precisa ser confirmado.

Tratar antes da cirurgia, e não só depois, no melanoma com linfonodos

Um grande ensaio randomizado publicado em 2024 comparou duas estratégias no melanoma estágio III, ou seja, que chegou aos linfonodos próximos, mas não além. Um grupo recebeu dois ciclos de imunoterapia combinada antes da cirurgia; o outro operou primeiro e depois fez um ano de imunoterapia. Começar pela imunoterapia levou a muito menos recidivas no primeiro ano, e na maioria desses pacientes boa parte ou todo o tumor já estava destruído na hora da cirurgia. O que isso significa para você: a ordem do tratamento hoje é uma pergunta justa para a equipe de oncologia, embora os dados de acompanhamento ainda estejam se acumulando.

A imunoterapia depois da cirurgia continua funcionando anos depois

Uma análise de sete anos publicada em 2024 acompanhou pessoas com melanoma estágio III que receberam um ano de imunoterapia depois da cirurgia ou placebo. Cerca de metade dos tratados continuava sem recidiva em sete anos, contra cerca de um terço dos não tratados. O que isso significa para você: o tratamento adjuvante, isto é, o tratamento depois da cirurgia para reduzir a chance de o câncer voltar, traz um benefício duradouro, e não apenas um adiamento. Ele ainda precisa ser pesado contra os efeitos colaterais, e é por isso que o acompanhamento com exames de sangue importa.

Glossário

TermoDefinição
Ceratose actínicaMancha áspera e descamativa causada por anos de exposição ao sol. Uma pequena parte pode evoluir para carcinoma espinocelular, por isso costuma ser tratada.
AmelanóticoDescreve um melanoma que produz pouco ou nenhum pigmento, ficando rosado, vermelho ou da cor da pele em vez de marrom ou preto.
Espessura de BreslowA profundidade de um melanoma em milímetros, medida ao microscópio a partir da superfície da pele. Influencia muito as margens da cirurgia e o prognóstico.
Inibidor de checkpointRemédio que solta um freio natural das células de defesa para que elas ataquem as células do tumor. Usado no melanoma avançado e no carcinoma de Merkel.
DermatoscopiaExame da pele com uma lente de aumento de mão e luz polarizada, que mostra padrões de cor e de vasos invisíveis a olho nu.
MelanócitoA célula da pele que produz melanina, o pigmento que dá cor à pele. O melanoma surge dessas células.
Cirurgia micrográfica de MohsTécnica que retira o tumor em camadas finas, examinando cada camada ao microscópio durante a cirurgia para poupar tecido saudável.
Biópsia do linfonodo sentinelaRetirada e análise do primeiro linfonodo que drena a área do tumor, usada para refinar o estadiamento do melanoma.
SubunguealLocalizado embaixo da unha. O melanoma subungueal muitas vezes começa como uma faixa escura no sentido do comprimento da unha.
Sinal do patinho feioObservação de que uma lesão suspeita tende a parecer diferente das outras pintas da pessoa, que normalmente se parecem entre si.

Perguntas frequentes

Câncer de pele tem cura quando é descoberto cedo?

Na maioria dos casos, sim. O carcinoma basocelular e o espinocelular descobertos cedo costumam ser curados com um único procedimento ambulatorial, e o melanoma fino retirado com margens adequadas tem um prognóstico muito bom. O quadro muda quando o melanoma já se espalhou além da pele, embora o tratamento da doença avançada tenha melhorado bastante nos últimos anos. Como o resultado depende tanto de a lesão ser retirada cedo, a atitude útil não é buscar tranquilidade na internet, e sim marcar consulta para qualquer lesão nova, que muda ou que não sara.

Quanto tempo leva para um câncer de pele se espalhar?

Depende muito do tipo. O carcinoma basocelular cresce em meses ou anos e quase nunca se espalha para outros órgãos. O espinocelular pode levar meses e só raramente se espalha, mais no lábio e na orelha. O melanoma é imprevisível: a forma mais comum pode passar meses ou anos crescendo na superfície, enquanto o melanoma nodular pode aprofundar em semanas. Por isso, qualquer lesão que muda deve ser avaliada sem esperar.

Quem tem câncer de pele sente dor?

Geralmente não, pelo menos no início. A maioria dos cânceres de pele não dói, e é justamente por isso que muitos são ignorados. Alguns carcinomas espinocelulares ficam doloridos ao toque, e lesões que se ulceram podem arder ou coçar. A ausência de dor não é sinal de que a lesão é inofensiva.

O câncer de pele pode causar sintomas fora da pele?

O câncer de pele inicial geralmente não causa sintomas além da própria lesão. Se o melanoma se espalha, os sintomas dependem de para onde ele vai e podem incluir um linfonodo inchado, perda de peso sem explicação, cansaço persistente, tosse que não passa, dor de cabeça ou dor nos ossos. Esses sintomas têm causas muito mais comuns e não servem para detectar o câncer de pele. São motivo para ir ao médico, que vai olhar o quadro completo, e não um sinal isolado.

Com que frequência devo examinar minha pele em casa?

Cerca de uma vez por mês é adequado para a maioria dos adultos, e com mais frequência se o dermatologista orientar. Faça com boa luz depois do banho, percorra o corpo região por região e use um espelho ou a ajuda de alguém para as costas, o couro cabeludo e a parte de trás das pernas. Inclua as palmas, as plantas dos pés, entre os dedos, as unhas e a boca. Fotos com data e uma régua no enquadramento tornam muito mais fácil julgar uma mudança depois.

Um aplicativo de celular pode dizer se uma pinta é câncer?

Não. Alguns aplicativos e ferramentas de inteligência artificial têm bom desempenho em imagens de dermatoscopia de alta qualidade em pesquisas, e a tecnologia pode virar uma ajuda útil de triagem. Nas condições do dia a dia, com iluminação, foco e tons de pele variáveis, a confiabilidade deles não está estabelecida, e um resultado tranquilizador pode atrasar uma consulta necessária. Use qualquer aplicativo como um empurrão para se examinar, nunca como permissão para pular a consulta. O diagnóstico exige um médico e, no fim, uma biópsia.

Pessoas de pele negra precisam de proteção solar?

Sim. Mais melanina oferece alguma proteção natural contra o dano ultravioleta, mas ela é parcial, a queimadura de sol ainda é possível e o câncer de pele ainda acontece. O melanoma em pessoas de pele parda e preta aparece com mais frequência nas palmas, nas plantas dos pés e no leito das unhas, locais em que a proteção solar não faz diferença e o autoexame é a única defesa. Como esses cânceres são mais vezes descobertos tarde, o prognóstico costuma ser pior, o que torna o exame regular dessas áreas especialmente valioso.

Uma pinta que eu tenho há anos ainda precisa ser examinada?

Uma pinta estável, igual há muitos anos, é tranquilizadora, e a maioria dos melanomas na verdade surge em pele antes normal, e não dentro de uma pinta antiga. Mesmo assim, uma pinta antiga que começa a mudar, coçar, sangrar, engrossar ou mudar de cor precisa de avaliação. A pergunta que importa não é há quanto tempo a lesão está ali, e sim se algo nela mudou recentemente.

Fontes

  • Instituto Nacional de Câncer (INCA) — Estimativa 2026–2028: síntese de resultados e comentários (câncer de pele) — Ministério da Saúde, 2026 — gov.br/inca
  • Instituto Nacional de Câncer (INCA) — Câncer de pele melanoma — Ministério da Saúde — gov.br/inca
  • Instituto Nacional de Câncer (INCA) — Câncer de pele não melanoma — Ministério da Saúde — gov.br/inca
  • Ministério da Saúde — Câncer de pele — Saúde de A a Z — gov.br/saude
  • Sociedade Brasileira de Dermatologia — Câncer da pele: tipos, sintomas e prevenção — sbd.org.br
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Anvisa alerta sobre os perigos na utilização de câmaras de bronzeamento artificial — gov.br/anvisa
  • Centers for Disease Control and Prevention (EUA) — Noções básicas sobre o câncer de pele (Skin Cancer Basics), 2024 — cdc.gov
  • MedlinePlus, National Library of Medicine (EUA) — Câncer de pele (Skin Cancer), 2024 — medlineplus.gov
  • US Preventive Services Task Force — Câncer de pele: rastreamento (Skin Cancer: Screening), 2023 — uspreventiveservicestaskforce.org
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  • Ertürk Zararsız G, Yerlitaş Taştan SI, Çelik Gürbulak E, et al. — Diagnóstico do melanoma por sistemas de inteligência artificial: metanálise e revisão sistemática — Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology, 2025 — doi.org/10.1111/jdv.20781
  • Blank CU, Lucas MW, Scolyer RA, et al. — Nivolumabe e ipilimumabe neoadjuvantes no melanoma estágio III ressecável — New England Journal of Medicine, 2024 — doi.org/10.1056/NEJMoa2402604
  • Eggermont AM, Kicinski M, Blank CU, et al. — Análise de sete anos do pembrolizumabe adjuvante versus placebo no melanoma estágio III, EORTC1325 / KEYNOTE-054 — European Journal of Cancer, 2024 — doi.org/10.1016/j.ejca.2024.114327
  • Conway J, Bellet JS, Rubin AI, et al. — Melanoma da unha em adultos e crianças: epidemiologia, diagnóstico e tratamento — Cells, 2023 — doi.org/10.3390/cells12060964
  • Metko D, Mehta S, McMullen E, et al. — Revisão sistemática do risco de câncer de pele associado às lâmpadas UV de unha — European Journal of Dermatology, 2024 — doi.org/10.1684/ejd.2024.4616

Leituras recomendadas

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O câncer de pele é diagnosticado na pele, e não num tubo de sangue, mas os exames de laboratório acompanham todo o caminho: os valores de tireoide, fígado, glicose e cortisol seguidos durante a imunoterapia, a LDH usada no estadiamento do melanoma avançado e o hemograma repetido a cada ciclo de tratamento. A BloodSense lê esses laudos com você, explicando o que cada marcador mede, o quanto um valor se afasta dos valores de referência e quais perguntas vale a pena levar à próxima consulta. Ela ajuda você a entender seus resultados; ela não faz diagnóstico e não substitui o seu médico nem o seu dermatologista.

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